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Mil e Uma X21 Significado e relevância na pesquisa

A simbiose entre o significado e a relevância é o ideal de toda pesquisa, mas não são poucas as cascas de banana a serem evitadas. Uma pesquisa pode ter conteúdo cientificamente relevante, mas ser metodologicamente irrelevante; também pode ocorrer de a metodologia ser irrepreensível, mas os objetivos propostos traduzirem irrelevâncias.

A estatística pode ser boa ou má conselheira, na distinção entre significâncias irrelevantes e insignificâncias relevantes, mas é preciso cautela para não se deixar fascinar por números e transformá-los em fins, em vez de meios da pesquisa. Afinal, diz-se que os números não mentem, mas é fato que mentirosos usam números.

Na área da saúde, o reconhecimento de derrapadas como as referidas pode ser feito com mais nitidez. Aqui, é mais fácil identificar refinadas metodologias no enfrentamento de temas de pouca relevância clínica, assim como se pode reconhecer que o instrumental metodológico escolhido foi insuficiente para as análises científicas necessárias.

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Mil e Uma X20 Vacina gênica é fake…

Não se trata aqui do desprestígio de vacinas. Cuidaremos do fato, no mínimo curioso, de que duas das vacinas que mais rapidamente se apresentaram no combate ao coronavírus sejam baseadas em fakes.

As vacinas surgiram no século XVIII. A lógica é simples: para combater um vírus, por exemplo, injeta-se no paciente o vírus enfraquecido, ou parte dele, fazendo com que o corpo aprenda com tais inimigos atenuados a produzir anticorpos capazes de combater o verdadeiro inimigo.

As duas vacinas supra referidas baseiam-se em outra lógica. Chamadas de gênicas, elas recorrem ao RNA mensageiro, uma espécie de motoboy de materiais genéticos, que transporta um ínfimo pedaço do vírus, “encaixado” no RNA, até o paciente. Tal porção do vírus faz com que o paciente imagine um invasor onde existe apenas um simulacro, uma ingênua cereja, em vez do bolo, uma amostra fake do vírus.Como diria Cícero, orador romano, que proferiu célebres discursos contra a corrupção: O tempora, o mores! (Oh tempos, oh costumes!)

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Mil e Uma X19 O diâmetro da Imprensa e o da civilização

Atualmente, a lembrança da imprensa nos conduz à ideia de uma sociedade em rede, com seus recursos tecnológicos, seus sistemas de circulação de informações, que parecem desdenhar da ideia de valor. Já não escrevemos cartas, quase não lemos jornais impressos, as manchetes mais insólitas permanecem pouco tempo em destaque. Links são continuamente criados e destruídos, personalidades são idolatradas ou canceladas, a efemeridade e a fugacidade são extremas.

 A nova imprensa, plena de blogs, chats, canais, podcasts, webinars e outras etiquetas tecnológicas, amplifica egos e alivia conteúdos quase na mesma proporção. A impressão é a de inconsciência das características da nova civilização que parece vicejar, o que nos faz lembrar a emblemática frase de Victor Hugo: A imprensa e a civilização têm o mesmo diâmetro.

A leveza que tangencia a leviandade, tão comum à cultura das redes, não pode mitigar o fato de que a imprensa é o sistema nervoso da cultura: a imprensa e a civilização se merecem…

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Mil e Uma X18 Aprender com a História: Hegel não tinha razão

“A História ensina que os povos e governos nunca aprenderam com a História”. A frase de Hegel é provocativa, mas é uma caricatura. Não é uma mentira, mas um recurso retórico. A História é a disciplina mais importante do currículo. Segue o argumento.

Na escola, buscamos a construção do conhecimento em sentido pleno. Conhecer é compreender o significado. Mas o significado não se constrói de uma vez para sempre: ele se articula em redes de relações em permanente estado de atualização. A primeira rede de relações significativas não construímos na escola: a oralidade nos provê. A partir daí, aprendemos a vida inteira, tanto pela incorporação quanto pelo descarte de relações.

É justamente do fato de que estamos em permanente estado de atualização que deriva a importância decisiva da História. Em vez de acessos socráticos do tipo “Só sei que nada sei”, recorremos à História. É nela que buscamos compreender o significado das mudanças, mas sobretudo o significado das mudanças… de significado!

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Mil e Uma X17 OS MEIOS E OS FINS: LA FONTAINE E ADESTRADORES DE ANIMAIS

La Fontaine consagrou fábulas de conteúdos prenhes de valores. Explora a natureza humana por meio de prosopopeias, ou seja, da atribuição de uma face humana a animais. Leões, lobos, coelhos, raposas, entre outros, envolvem-se em situações humanas, como se fossem gente. Assim, mestre La Fontaine recorre a características dos animais para construir situações de natureza ética, por meio das quais busca instruir os seres humanos.

Os adestradores também lidam com animais em situações de aprendizagem, mas há aqui uma diferença decisiva. Um adestrador instrui animais, para que mimetizem aspectos tópicos dos seres humanos, sem, no entanto, uma compreensão efetiva do que e do porquê o fazem: uma guloseima é a instância última do processo.  

 Em situações de ensino, o professor é um agente que fabula, que confabula. Os animais são meios; o fim é a formação em valores do ser humano. No caso dos adestradores, a assimilação de esquemas de resposta é o fim último. A ideia de Educação exige muito mais.

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Mil e Uma X16 O FUNDEB E A CORRUPÇÃO DO ÓTIMO

O FUNDEB é um Fundo para promover maior equidade nos recursos para a Educação Básica. Além de uma parcela de impostos municipais e estaduais, inclui parcela de impostos federais (10% do Fundo). Em 2020, uma renovação da lei ampliou a parcela federal, que deverá atingir 26% do Fundo até 2026.

A realidade do FUNDEB esbarra, no entanto, numa dificuldade radical: a estruturação do país em municípios. Alguns não têm condições mínimas para sobreviver sem o FUNDEB. Não são raras manchetes que revelam ampliações fictícias no número de alunos, ou no uso dos recursos para asfaltar ruas, ou compra de veículos de luxo…

 Quando se observa que, de um total de 5570 municípios,

1350 deles, (24%) correspondem a 3% da população e a 1% do PIB, e 71 municípios (1,3%) correspondem a 33% da população e a 50% do PIB, então se pode concluir que a ideia inicial de equidade foi corrompida.

Sem uma reforma política que redefina o mapa de municípios, continuaremos a dar mais a quem mais tem, tudo dentro da lei.

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Mil e Uma X14 A REDE E A TOPOLOGIA: A GENERALIZAÇÃO DA IDEIA DE DISTÂNCIA

A rede www, de 1990 para cá, tem-se revelado fundamental para criar sistemas de proximidades entre pessoas ou objetos fisicamente distantes. Uma pesquisa simples sobre a palavra corpus, põe em cena alguns links insólitos, como habeas corpus, corpus Christi, academias de ginástica, marcas de yogurt light...A ideia de proximidade é confusa.

Por outra via, desde o século XIX a Matemática já nos chamava a atenção para o potencial da ampliação da ideia de distância. A distância física entre duas pessoas pode ser menos relevante do que a distância entre seus pensamentos sobre determinado tema. A Topologia é um ramo da Matemática que generaliza a ideia de distância e se aproxima da ideia de rede. Nela, uma câmera de um pneu e uma xícara com asa são formas muito mais próximas do que a mesma xícara e um copo comum.

Um fato fecundo e determinante para aproximar as ideias de Topologia e de redes é a inclusão da ideia de tempo nos dois temas: ambos convergem para as ideias de mapa e de narrativas.

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Mil e Uma X15: BOÉCIO OU BEÓCIO? NÃO VALE ERRAR POR POUCO…

 Boécio foi um filósofo cristão que viveu nas primeiras décadas dos anos 500. Serviu a diversos papas, e teve participação política intensa no reinado de Teodorico, o Grande. Fofocas palacianas levaram-no à prisão, à condenação à morte e à efetiva execução. Escreveu obras notáveis, como A Consolação da Filosofia, em que defendeu que a fonte da felicidade humana é a busca da sabedoria. Desde o século XIII, o papa Leão XIII aprovou o culto a Boécio, mas, efetivamente, ele se tornou santo tanto na igreja Cristã quanto na Ortodoxa, em 1883.

A Beócia é uma região da Grécia Antiga, que existe ainda hoje como unidade regional. Os habitantes de Atenas, região especialmente culta, achavam os beócios incultos, grosseiros e mal educados; de tal visão, resultou uma conotação, possivelmente preconceituosa, para o termo beócio.

Boécio ou beócio? Opressor ou oprimido? Escolher nem sempre é errar por pouco. No chão dos valores fundamentais, a integridade exige: ou se é do time do Boécio, ou se é beócio.

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Mil e Uma X13 JOGOS DE AZAR: É IMPOSSÍVEL GANHAR SEMPRE

A presença dos jogos de azar em diferentes épocas e culturas é uma invariante absolutamente intrigante. É certo que, onde reina a aleatoriedade, não se pode ganhar sempre; mais certo ainda é encontrar quem duvide, ou se ache acima disso.

Por óbvio que pareça, a vigência da aleatoriedade mina a responsabilidade: ganhar não depende apenas do jogador. Mas há os que acreditam na perenidade da sorte, das circunstâncias fortuitas. Em alguns poucos lances, posso apostar na cara contra a coroa, ou na face 2 contra a face 6, mas também devo saber que, quanto maior o número de lançamentos, mais nos aproximamos da certeza do ½, ou do 1/6… A Lei dos Grandes Números é implacável: o jogo se alimenta de retornos imediatos; a longo prazo, todos estaremos mortos.

Eis, então, a parte menos atraente dos jogos de azar: a inconstância da sorte. Buscar causalidade em espaços de correlações e sincronicidade, ou em que a sorte vige, exige doses iguais de sutileza e de ingenuidade, de esperteza ou de burrice.

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Mil e Uma X12: CONSCIÊNCIA E RESPONSABILIDADE PELO MUNDO

O recado de Hannah Arendt ecoou Intensamente: não deveria ser pai (ou professor) quem não se dispusesse a assumir a responsabilidade pelo mundo.

Naturalmente, a expressão tem força retórica, sem cunho policialesco. Mais claramente ainda, assumir a responsabilidade pelo mundo não significa conformar-se com as circunstâncias de qualquer época, apenas que não podem ser aceitos franco atiradores no debate público. A responsabilidade somente pode nascer dos debates, do diálogo.

Duas vertentes de ações sociais merecem especial atenção, na temática: os jogos movidos diretamente a dinheiro, do “jogo do bicho” aos mercados de capitais; e o onipresente mercado das drogas. Trata-se de dois casos conspícuos da fraqueza da consciência pessoal. Cada uma dessas vertentes pode assumir graus de dissimulação impressionantes. O simplório “jogo do bicho” associa-se ao Carnaval e às Escolas de Samba; os grandes bancos e suas Fundações fazem outros carnavais para tirar o foco do implacável jogo do dinheiro.

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