Category Archives: Mil e uma

Mil e Uma X9 Hércules: Herói solitário ou Executivo?

Na versão de Brat Ratner do filme Hércules (2014), ao retornar dos 12 trabalhos a que foi condenado, o herói torna-se um mercenário, justificando que trabalhará apenas para poderosos do bem. Na epopeia mítica, Hércules teve que trabalhar sozinho; foi devido à ajuda recebida na luta contra a hidra de 7 cabeças que os 10 trabalhos iniciais tornaram-se12. Agora, o herói monta sua equipe, incluindo:

– um Guerreiro Profeta, uma espécie de Gerente;

– um Especialista em Facas;

– uma Arqueira capaz de atingir alvos sutis;  

– um Guerreiro Selvagem, imagem da força bruta;

– um Narrador, contador de histórias para o grupo

Quatro pontos são bastante atuais, na versão de Ratner:

– a opção pela colaboração, pelo trabalho em equipe;

– a valorização da sutileza feminina, por meio da Arqueira;

– a consideração da importância das narrativas para animar a tropa;

– a tentativa ingênua de justificar a violência na defesa do “bem” (Após vencer a primeira luta, Hércules já desconfia da “bondade” do financiador).  

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Mil e Uma X8 O TEMPO: TEMPUS E CHRONOS; KAIRÓS E AEVUS

Na vida cotidiana, quando nada nos acontece, o tempo parece não passar; quando os eventos se sucedem, e nos envolvemos multiplamente, o tempo parece voar. De fato, há o tempo dos relógios, simples de se medir, e há o tempo interno, subjetivo, que cada um de nós vivencia. Em latim, o tempo dos relógios é o tempus, que flui uniformemente; e há o tempo que parece parar ou fluir mais rapidamente, dependendo do que nos afeta, que é o aevus, de onde se origina a palavra evento. Em grego, chronos é o tempo dos relógios, enquanto kairós é o tempo dos eventos, dos deuses, da vida que resiste à ideia de medida.

Uma experiência para vivenciar tal dualidade na ideia de tempo é a leitura de Ulisses, de James Joyce. Nela o tema é a vida humana e a trama representa alegoricamente a Odisseia, de Homero. Do ponto de vista do chronos, tudo se passa em apenas um dia na vida de Leopold Bloom; do ponto de vista do aevus, a obra parece nunca ter fim, ao expressar tão fielmente a complexidade da vida humana.

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Mil e Uma X5 A TECNOLOGIA, A INFORMÁTICA E A FAMA

Apesar da atual onipresença, Tecnologia é uma palavra que surgiu apenas no século XVIII; quando se fala em “tecnologia dos Incas”, por exemplo, trata-se de uma retrojeção de categorias do presente. Simplesmente não existia tal palavra na Grécia Antiga. Havia o logos, havia a técnica, mas não havia o logos da techné, o estudo sobre a racionalidade técnica, a compreensão de seu significado e de seu uso.

Não obstante tal fato, paira no ar uma suspeita: para a maior parte da população, a tecnologia é cada vez menos logos, cada vez mais techné. A técnica nos invade de modo mágico, com poucas situações de real compreensão. Frequentemente somos convidados a participar como meros usuários.

Especialmente na Informática, entendida como a rede de tecnologias da informação e da comunicação, tal síndrome parece cada vez mais evidente. É necessária, no entanto, certa cautela. Afinal, muita fama não impede alguém de ser infame, e, como nos lembra Lya Luft, mesmo com a informática, o mundo é informe…

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Mil e Uma X7 Einstein, a originalidade, a profundidade, a disjunção

Há autores originais, que escrevem de modo claro e sabem atrair a atenção do público, inserindo, em suas mensagens piadas divertidas. Há outros que nos parecem mais difíceis, mais profundos, e podem não agradar nos primeiros contatos, exigindo algum esforço para uma apreciação mais justa.

Todos queremos ser originais e profundos, combinando graça e rigor, mas, às vezes, algumas opções precisam ser feitas. Números de audiências, por exemplo, podem ser enganosos. No senso comum, quanto mais se agrada a todos, menos se agrada profundamente. Com mais vigor, Einstein foi fundo na questão quando disse: “Tudo deveria ser feito da maneira mais simples possível; não mais simples do que isso”.

De fato, quando nos dirigimos aos outros, queremos ser profundos e originais, rigorosos e engraçados, e frequentemente o somos, mas por partes. O grande perigo está na possível disjunção entre tais partes: se o que é original não é profundo, ou o que é profundo não é original, então temos um sério problema.

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Mil e Uma X6 Elucubrações sobre o par sujeito/objeto

Uma perspectiva da dinâmica dos processos cognitivos é a de que o Sujeito é o que se sujeita, que se submete, uma trilha explorada por Foucault; já o Objeto seria como um obstáculo que se coloca diante de nós, que obsta nossa visão, limitando a livre contemplação da realidade infinita. Outra perspectiva seria a dos gramáticos, em que o sujeito é quem realiza a ação, quem age sobre a realidade objetivada.  

Já a concepção do conhecimento, ela se daria, segundo autores como Bacon, a partir da percepção sensorial dos objetos do mundo empírico pelos sujeitos; por outro lado, segundo a razão iluminista, o conhecimento resultaria de uma ação do sujeito sobre o objeto. Há, porém, autores, como Polanyi que recusam a ideia de uma objetificação do conhecimento, que seria pessoal, subjetivo, estando sempre nos sujeitos.

Uma síntese interessante é pensar que o sujeito é o que se sujeita, sim, mas à existência do outro, é o que submete a viver juntamente com os demais, sem transformá-los em objetos.

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Mil e uma X3 A perfeição e os “cancelamentos”

Não parece haver controvérsias: Churchill e De Gaulle foram homens admiráveis, lideraram nações em períodos críticos da guerra, merecendo homenagens pela defesa de valores fundamentais, como a liberdade, a tolerância, a autodeterminação. Em suas biografias, há registros de que eram personalidades complexas, egocêntricas, autoritárias, imperialistas; Churchill seria um “racista benevolente” e De Gaulle era tão centralizador que considerava seu governo uma espécie de “monarquia republicana”. Eram grandes homens, mas nem de longe eram perfeitos. Hoje, provavelmente seriam “cancelados” nas redes.

É assustadora a intolerância dos “cancelamentos”. Em cegueira histórica, revertem-se homenagens, destroem-se estátuas e reputações. Em tal cenário, a referência que o Papa faz a Vinicius de Moraes, na Encíclica Fratelli Tutti, é uma semente de esperança. Como Churchill e De Gaulle na Política, Vinicius é admirável na Arte, mas era um “pecador”: casou-se nove vezes e bebia como um gambá. Cruz credo!

Mil e uma X2 O Congresso e o Lado B das Cotas

O número de pessoas presas do sexo feminino no Brasil é cerca de 50 mil, enquanto os presos masculinos são da ordem de 700 mil. As pessoas com sangue tipo A são 42% da população brasileira, e as de tipo B, apenas 10%.

A realidade de tais números não confere qualquer resquício de racionalidade a “ações afirmativas” que pretendam criar cotas para que as presidiárias não sejam apenas 7% do total e tendam a se tornar 51%, uma vez que as mulheres são 51% da população. Nem conheço quem queira estimular o nascimento de pessoas com sangue tipo B.

Outros exemplos poderiam ilustrar, em tal lógica insana, o que me parece ser o Lado B das Cotas. Não é muito diferente a pretensão de se ter no Congresso Nacional a porcentagem de mulheres ou de negros próxima à correspondente na população. Nas eleições para o Congresso, busco um representante com o qual tenha uma sintonia fina com valores socialmente acordados: não me interessam a cor da pele, o gênero/opção sexual, nem o tipo de sangue do candidato.

******19/10/2020

Sobre o Ensino e a Pesquisa

Sobre o Ensino e a Pesquisa

Quinze quilos de reflexões*

Nílson José Machado

                                              njmachad@usp.br                                                  www.nilsonjosemachado.net

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Sumário

1. Ensinar e Pesquisar é Descobrir ou Inventar?

2.  Ensino e Pesquisa: uma integração natural

3. Pesquisa Científica não é Pesquisa de Opinião

4. Na Pesquisa ou no Ensino: Ideias Fundamentais

5. Projetos de Pesquisa: considerações acacianas

6. Universidade: o dogma da indissociabilidade ensino/pesquisa/extensão

7. Universidade: sete desvios na ideia de pesquisa

8. Pesquisa: a superestimação da metodologia

9. Pesquisa: a artificialidade do referencial teórico

10. Pesquisa: o abuso da linguagem técnica

11. Pesquisa: a quantificação como camuflagem

12. Pesquisa: a opção pela caricatura

13. Pesquisa: os objetivos excessivamente modestos

14. Pesquisa: o número exagerado de citações

15. Pesquisa: cuidado com os cuidados

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* Cada um dos quinze textos contém exatamente 1000 caracteres (1 quilo de caracteres).

                          São Paulo, out/19

  1. Ensinar e Pesquisar é Descobrir ou Inventar?

A frase é de A. Fleming: “A natureza faz a penicilina (bolor); eu somente a descobri”. De modo similar, o matemático que apresentou ao mundo o fato de que a razão entre o comprimento de uma circunferência e seu diâmetro é constante e igual a pouco mais que 3 (cerca de 3,14), tanto em uma pequena aliança, um pneu de um automóvel, ou no equador terrestre, ele descobriu ou inventou este fato? Para Platão, todo conhecer é um reconhecer o que já se sabia sem saber que sabia; um matemático descobre relações entre objetos ideais, de uma realidade supra empírica. Já na visão de Aristóteles, o conhecimento é construído a partir de nossas percepções sensoriais, sendo o matemático um criador, um inventor de relações. No ensino e na pesquisa, não parecem tão distantes a descoberta e a criação. Numa aula bem arquitetada, o professor constrói as condições para que os alunos descubram relações, ao mesmo tempo, revela fatos notáveis da temática, para despertar o interesse e a criatividade dos alunos.

2 – Ensino e Pesquisa: uma integração natural

É quase impossível ensinar sem fazer algum tipo de pesquisa. As duas atividades pressupõem a criação de centros de interesses em uma temática relevante, enraizada em contextos problematizadores. Nos dois casos, é fundamental explicitar perguntas nítidas a serem respondidas e objetivos claros a serem atingidos. Uma ação docente competente sempre inspira descobertas por parte dos alunos.

Não se trata de o professor simular, na aula, que desconhece os temas básicos que ensina, fingindo surpresas ou mimetizando a história das pesquisas científicas. O ensino e a pesquisa estão associados de modo natural ao aparecimento do novo. Para o aluno, a novidade pode referir-se ao conteúdo; para o professor, mais provavelmente ela estará relacionada à forma. Em qualquer caso, uma aula sempre representa a construção de novas significações.

O recado básico para professores é simples: quem acha que nada mais tem a descobrir e aprender em sua atividade docente, mais provavelmente nada mais tem a ensinar.

  • Pesquisa Científica não é Pesquisa de Opinião

Na linguagem ordinária, a expressão “fazer uma pesquisa” significa, às vezes, ouvir as pessoas de uma população sobre dado tema, produzindo-se resultados tão expressivos quanto o fato de que 7 em cada 10 entrevistados significa 70%. Uma pesquisa de opinião pode ser realizada de forma metodologicamente adequada, considerando-se o conhecimento estatístico, mas o resultado de uma pesquisa científica não é determinado pela opinião dos envolvidos, não exige uma sintonia com qualquer regra da maioria, não é similar, portanto, a uma pesquisa de opinião. A doxa (opinião) e a episteme (Ciência) são diferentes instâncias na construção do conhecimento. Em cada fenômeno estudado, importam as opiniões dos investigadores, que podem conversar e trocar ideias a respeito do que pensam, mas os resultados são racionalmente considerados, não decorrendo de meros caprichos da Curva Normal, que praticamente ignora tudo o que se situa a dois ou mais desvios padrão em relação às médias, tantas vezes insípidas.

  • Na Pesquisa ou no Ensino: Ideias Fundamentais  

           A fragmentação excessiva dos conteúdos é uma marca das atividades de ensino, sobretudo nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. Um sintoma similar ocorre na educação infantil e nas séries iniciais do fundamental: as atividades de ensino limitadas a metodologias, mesmo sendo agradáveis, podem resultar fragmentadas, esgotando-se em aspectos lúdicos. Um antídoto para tais desvios é a concentração das atenções nas ideias fundamentais dos conteúdos. O fato de que tais ideias são passíveis de apresentação na linguagem ordinária, nunca se apresentam isoladamente, como penduricalhos, e sempre transbordam os limites da disciplina em que se originam, torna a articulação interna da disciplina e a articulação entre as diversas disciplinas especialmente favorecidas. E como a realidade não se organiza disciplinarmente, o foco nas ideias fundamentais tem ainda como efeito colateral aproximar estruturalmente as atividades de ensino, ligadas à escola, e as de pesquisa, ligadas à vida.  

5 – Projetos de Pesquisa: considerações acacianas

Um projeto de pesquisa precisa delimitar uma temática, não pode dizer respeito a tudo. Em tal temática, é necessário expressar uma dúvida, um problema cuja solução se desconhece, uma pergunta nítida ainda sem resposta. Naturalmente, espera-se que seja apresentada uma justificativa da relevância de tal dúvida, pergunta ou problema a ser estudado.

Cabe ao pesquisador, por mais original que lhe pareça sua pesquisa, apresentar referências a trabalhos ou autores que examinaram questões análogas: afinal, o mundo não se inicia com seu projeto. É fundamental também que esboce a metodologia a ser seguida, ou seja, indique o tipo de pesquisa a ser realizada: de campo, bibliográfica, teórica… Para merecer a expectativa de resultados, um projeto deve ir além das boas intenções do pesquisador. E é de bom alvitre uma bibliografia específica, que revele as fontes principais da investigação a ser realizada. Tudo isso parece muito acaciano, muito óbvio, mas frequentemente não é levado em consideração.

6. Universidade: o dogma da indissociabilidade ensino / pesquisa / extensão

Na Universidade brasileira, a docência, a pesquisa e a extensão de serviços à comunidade são consideradas indissociáveis. Tal “dogma”, no entanto, em vez de qualificar a instituição, tem produzido alguns efeitos negativos nas práticas acadêmicas.

Não está em questão a exigência da pesquisa para a caracterização de uma Universidade; isso, porém, não deveria obrigar cada um dos docentes, em todas as etapas da carreira, a realizar projetos de pesquisa. Essa obrigação tende a minar a ideia de projeto, e levar o rótulo de “pesquisa” a ser utilizado em amplo rol de atividades menores.  

Uma pesquisa exige temática relevante, sobre a qual temos uma dúvida sincera, traduzida em uma pergunta nítida, além da competência teórica para buscar uma resposta. A leitura de alguns “projetos de pesquisa” disponíveis em vários sites oficiais leva-nos a concluir que, se todos são obrigados a pesquisar o tempo todo, o efeito perverso é o inverso do esperado. E a ideia de pesquisa é completamente banalizada.

7. Universidade: sete desvios na ideia de Pesquisa

Analisando o mar de pesquisas acadêmicas atualmente produzidas, é possível constatar algumas de suas mazelas, sete das quais serão aqui apontadas.

A primeira é a superestimação do papel da metodologia, que funciona como um esconderijo para o conteúdo da pesquisa.

A segunda é a artificialidade do referencial teórico, que se torna um atestado de óbito independente do defunto.

A terceira é o abuso da linguagem técnica, o que dificulta a compreensão de quem não é cúmplice da investigação.

A quarta é o recurso à quantificação como uma camuflagem, enfatizando a máxima absurda de que “os dados falam por si”.

A quinta é a opção pela caricatura do que se pretende criticar, o que facilita a obtenção de resultados, mas a torna inócua.

A sexta é a fixação de objetivos excessivamente modestos, o que “condena” a pesquisa a ser bem sucedida, mesmo as irrelevantes.

A sétima é o número exagerado de citações, o que torna a pesquisa um repertório de ecos, ou de ecos de ecos: a voz do autor sequer é percebida.

8. Pesquisa: a superestimação da metodologia

A palavra método deriva de metá (objetivo)e hodós (caminho): trata-se do caminho para atingir uma meta prefigurada.

A escolha do método é muito importante para quem sabe o que quer. Para quem não tem objetivos claros, ou tem dúvidas sobre as metas, recorrer à melhor metodologia é inócuo e pode até ser perigoso. Afinal, não há vento que ajude um barco sem rumo; e quem está indo para o inferno, se escolher o melhor caminho, morrerá queimado mais rapidamente. 

Há pesquisas que se ocupam tanto da explicitação da metodologia que os objetivos visados são quase esquecidos e resvalam para um segundo plano. É como se a escolha de um caminho bem limpo e iluminado fosse sempre preferível, ainda que ele nada tenha a ver com o fim que se busca.

O método é sempre da ordem dos meios e os meios não devem preponderar sobre os fins. Afinal, como dizia Nietzsche, “quem tem um porquê, arruma um como”. A marca registrada de uma pesquisa é o objetivo que busca: a metodologia é sempre tributária de tal fim.

9. Pesquisa: a artificialidade do referencial teórico

Uma pesquisa pressupõe um referencial teórico, tácito ou explícito, mas não basta um referencial teórico interessante para caracterizar uma boa pesquisa. É comum uma ênfase à filiação a determinados autores ou linhas de investigação. Algumas se dizem “pesquisa-ação”, outras se pretendem “qualitativas”, muitas desfrutam do rótulo de “construtivistas”, ou de “sócio-interacionistas” etc.

A sedução de certos autores é tamanha que a referência a eles é usada como indício suficiente de qualidade. Uma citação de Piaget costuma encaixar-se bem em qualquer situação. Há casos em que os textos parecem dizer: “Esta pesquisa não recorre ao referencial teórico piagetiano, mas, se o fizesse, trataria de esquemas de assimilação/acomodação, da abstração reflexiva etc, etc.”

Entre a profissão de fé que o suposto referencial teórico representa e o efetivo trabalho realizado existe, muitas vezes, certo descolamento. Daí a resvalar-se para falta de integridade ou para a simples hipocrisia é apenas um passo.

10. Pesquisa: o abuso da linguagem técnica

Em Amor y Pedagogia, Unamuno critica o cientificismo exagerado do final do século XIX. Chama de Cocotologia a ciência das ciências, que consistiria na “embananação” do banal, por meio do recurso a uma linguagem artificialmente sofisticada, para impressionar incautos. A construção de um passarinho de papel (cocotte) seria a gestação de um óvulo quadrado papiráceo; um bêbado seria um indivíduo etilicamente saturado; uma “conversa mole” seria uma tertúlia flácida; e assim por diante.

O fato é que a linguagem utilizada em certas pesquisas parece desnecessariamente cocotológica. A compreensão de temas acadêmicos supõe conhecimentos específicos, mas a comunicação do significado das pesquisas ao grande público deveria ser convertida em uma necessidade profissional.

O abuso do jargão técnico costuma ser indício de incapacidade do pesquisador na escolha de uma escala adequada para tratamento de seus temas. Ao mesmo tempo, é um desrespeito ao cidadão interessado que não é cúmplice do pesquisador.

11. Pesquisa: a quantificação como camuflagem

Há quem creia, como Rutherford, que o qualitativo não é mais que um quantitativo pobre, mas o endeusamento dos números na realização de uma pesquisa pode ser igualmente caricato. Indicadores numéricos podem revelar relações de interdependência importantes e são muito bem-vindos. Mas devem ser cautelosamente interpretados, uma vez que tanto podem esconder quanto revelar, ou traduzir meras trivialidades. A estatística presta-se especialmente a utilizações enevoadas e a inferências ingênuas ou descabidas.

Uma pesquisa exige uma temática relevante sobre a qual temos dúvidas sinceras, traduzidas em perguntas nítidas. A competência teórica na busca de respostas pode incluir a expressão numérica dos resultados obtidos, quando for o caso, mas os números virão sempre a reboque das ideias defendidas, para referendá-las ou refutá-las.

Nunca será prudente esperar que os números falem por si. E é bom lembrar que, se os números não mentem, mentirosos usam números: Figures don`t lie, but liars figure…

12. Pesquisa: a opção pela caricatura

A caracterização do problema a ser enfrentado é a ante-sala da formulação dos objetivos de uma pesquisa. Em tal etapa, é fundamental resistir à opção pela caricatura, que pode facilitar a tarefa do pesquisador, mas certamente mina os resultados da pesquisa.

Se “nenhuma pesquisa foi feita até agora sobre o tema”, isso tanto pode indicar o pioneirismo quanto a irrelevância do tema. Se nada do que foi produzido sobre a temática é relevante, o pesquisador pode ser um gênio, ou, mais provavelmente, um presunçoso. Se a defesa de um “novo papel do professor” baseia-se em crítica genérica ao “professor tradicional”, caracterizado como um monstro que apenas dá “aulas expositivas” e considera os alunos “receptáculos de conhecimento”, então é fácil ter objetivos quixotescos, mas o que se combate são moinhos de vento.

Ao amplificar artificialmente os problemas a serem enfrentados, fabricando caricaturas do existente, o pesquisador faz propaganda enganosa, correndo o risco de perder a credibilidade.

13. Pesquisa: os objetivos excessivamente modestos

É comum em jovens pesquisadores a ambição desmesurada na caracterização do problema da pesquisa a ser realizada. A introdução histórica pode, às vezes, ser intitulada “Deus e sua época”. E a impressão que resulta da leitura da lista de objetivos é que nada mais restará por fazer, após sua conclusão. Tal fato geralmente tem cura: o próprio amadurecimento do pesquisador conduz a um maior discernimento nos recortes temáticos.

Um desvio menos benigno é o excesso de modéstia, ou a falta de ambição nos objetivos, o que condena a pesquisa a um “sucesso” morno e insípido. É o que ocorre quando tudo o que se pretende é “dar alguma contribuição ao estudo de…”, ou “fornecer alguns subsídios para…”, ou ainda, “verificar se, melhorando a formação do professor, melhora o nível dos alunos”, e assim por diante.

Há pesquisas que apresentam perguntas tão singelas e objetivos tão modestos que nem precisariam ser realizadas para respondê-las ou alcançá-los. Pesquisa: é preciso não usar seu nome em vão.  

14. Pesquisa: o número exagerado de citações

Deixemos de lado o desvio aético das citações cruzadas, trocadas como gentilezas: ainda assim, costuma ser exagerado o número de citações em grande parte das pesquisas. Coligidas de modo sincrético, seu uso nem sempre é adequado e elas podem esconder a voz do pesquisador.

Ninguém melhor do que Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio, caracterizou o papel das citações em um texto:

 se o discorrer sobre um problema fosse como transportar pesos, muitos cavalos poderiam transportar mais do que um só cavalo; mas o discorrer é como o correr, e um só cavalo árabe há de correr mais do que cem cavalos frísios…

Citamos um autor quando consideramos que ele disse o que queríamos dizer de uma maneira tão ágil, tão adequada ao que pretendemos que não convém parafraseá-lo. Partilhamos o sentimento do autor e acolhemos suas palavras em nosso texto e as fazemos nossas. Não nos escondemos atrás delas, nem nos limitamos a ecoá-las, ou a produzir ecos de ecos: a voz do citado torna-se nossa voz.

15. Pesquisa: cuidado com os cuidados

Parafraseando o poeta, “são demais os perigos da pesquisa pra quem tem paixão”. Mas não existe vida – ou pesquisa – sem riscos, sem experimentação.

Um pesquisador apaixonado pode pecar por excesso ou por falta de ambição, pela paranóia ou pela frouxidão metodológica, pelo excesso de linguagem técnica ou pela pobreza terminológica, pelo pedantismo no recurso à teoria ou pela contenção nos limites do senso comum.

É importante ter cuidado para não derrapar em cascas de banana; mais importante ainda é ter CUIDADO COM OS CUIDADOS, para que eles não conduzam ao medo de correr riscos, que é como uma castração. 

Viver é lançar-se para frente em busca de metas prefiguradas, mas não garantidas, sem levar demasiadamente a sério os limites. Como disse uma vez Cocteau, “não sabendo que era impossível, eles foram lá e fizeram…”   

É preciso, pois, cuidar para que os CUIDADOS não provoquem um só aborto, não mutilem nem violem, não atropelem o momento, não censurem nem impeçam o natural crescimento.       

         *******SP/out2019

Referências Bibliográficas

Andreski, Stanislaw. – Las ciencias sociales como forma de brujeria. Madrid: Taurus, 1973

Machado, N. J. – Ética e Educação.  São Paulo: Ateliê Editorial, 2012.

Machado, N. J. – Livro de Bolso da Formação do Professor. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2016

MIL E UMA 403 # INOVAÇÃO E CRIAÇÃO

O novo não é um valor porque é novo: a criação é necessária para constituí-lo. Como bem disse o poeta, chorar não basta para dignificar a tristeza; e inovar não é suficiente para instituir um valor. O verbo criar apresenta duas acepções importantes, uma delas muito mais expressiva do que a outra. Criar algo como se cria um filho, ou um fazendeiro cria gado, não tem o mesmo sentido da criação artística ou da inovação criadora. É preciso criar na acepção nobre do verbo, que pressupõe a manifestação da essência em forma concreta de existência. Em sentido humano, o criador não pode se limitar à inovação que deriva do ativismo radical de uma comunidade de formigas, nem pretender, no processo criativo, extrair tudo de dentro de si, como uma aranha ao produzir sua teia. O verdadeiro criador reconhece-se como hóspede da criação, como cunhou Steiner, e se encontra em algum ponto entre a produtividade lavoisieriana, que apenas combina e transforma o que transporta, e a criação divina, ex nihilo.

MIL E UMA 402 # DISCIPLINA É COMPETÊNCIA: O CASO DO TRIVIUM

O primeiro currículo na história do pensamento ocidental foi o TRIVIUM. Nele confluíam três disciplinas que constituíam as vias de acesso ao conhecimento: GRAMÁTICA, LÓGICA e RETÓRICA. Na formação greco-romana, o que todos os que estudavam tinham que aprender, o “trivial”, era o TRIVIUM, e era evidente a todos as competências pessoais que se desenvolviam por meio de tais disciplinas. A Gramática não era um fim em si mesmo, nem a Lógica, nem a Retórica; eram meios para a comunicação com os outros, para a construção de argumentações consistentes. Especialmente a Retórica, que hoje goza de má fama, era um instrumento essencial na escolha de modos de falar e de argumentar que favorecessem o convencimento. “Convencer” é um belo verbo: é vencer junto com os outros, é criar as condições para chegarmos juntos às mesmas conclusões. Hoje, as disciplinas escolares se multiplicaram e, algumas vezes, algumas delas parecem muito distantes dos interesses da nossa formação para uma vida em sociedade.

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