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Mil e Uma X26 Ensino Híbrido: entre a panaceia e a esterilidade

Na contraposição entre ensino presencial e ensino à distância, a expectativa de vitória de uma das modalidades com a aniquilação da outra é cada vez menos pertinente. Em vez disso, desenha-se uma convergência notável para um mix de modalidades. A expressão “ensino híbrido” tem sido utilizada para tal mix, e a tendência é a um aparente consenso: um ensino 100% presencial é um desperdício e um ensino 100% à distância é insuficiente e precário.

A cautela, no entanto, é necessária. Em primeiro lugar, não basta falar sobre a mistura como uma panaceia, é preciso caracterizá-la conceitualmente, dando ao presencial César o que é de César, mas preservando espaços específicos em que o ensino à distância pode ser pertinente e preferível.  

Outro pondo decisivo pode ser metaforicamente lembrado pela biologia: quando se cruzam indivíduos de diferentes espécies, como o burro e a égua, dando lugar ao mestiço jumento, o mix pode apresentar características interessantes, mas a infertilidade é a regra…

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Mil e Uma X25 O vírus, a bola de tênis e o ser humano: Uma Regra de Três Simples

Em muitas imagens, o coronavírus parece uma bola de tênis espinhosa. Proporcionalmente, se o vírus fosse do tamanho de tal bola, qual seria a altura de um ser humano?

Calculemos. Um minúsculo vírus está para a bola de tênis assim como um ser humano está para o “monstro” cuja altura queremos determinar.

Outro modo de pensar seria: um vírus está para um ser humano assim como a bola estaria para o “monstro”

O tamanho do vírus varia entre 20 e 300 nanômetros; um nanômetro é igual a 10-9m. Para simplificar, consideremos um vírus de 160 nanômetros, e um ser humano de altura 1, 60m. A razão altura do ser humano/tamanho do vírus é igual a 1,60m/160.10-9m, ou seja, é igual a 107.   Esta também deverá ser a razão entre a altura do “monstro” e o diâmetro da bola, que vamos aproximar por 8cm, ou 8.10-2m.

Logo, a altura x do “monstro” seria igual a 107 vezes o tamanho da bola, ou seja, x =   107. 8.10-2m = 800km.

Em palavras: a bolinha de tênis seria como um vírus em um ser humano de 800km de altura.

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Mil e Uma X24 Descartes, Kafka e o bom senso na argumentação

Descartes já nos alertara: o bom senso é o atributo mais bem partilhado do mundo; ninguém acha que precisa de mais do que já tem. No terreno das ideias, no entanto, o bom senso pode conduzir a derrapagens conceituais.

É o que ocorre quando se transferem qualidades ou defeitos do orador para os argumentos em defesa das ideias que apresenta. O deslizamento é sutil: se a pessoa argumenta mal, então a causa que defende não presta. Em latim, isto era chamado de Argumento Ad Hominem, uma situação em que os argumentos são deixados de lado e o argumentador é fuzilado…

Naturalmente, tal procedimento é logicamente insustentável. Em um debate, as ideias é que estão em questão, e não a eventual simpatia ou os defeitos do orador. A esse respeito, Kafka foi cirúrgico ao afirmar, com fina ironia: A maneira mais pérfida de se combater uma causa é defendê-la com um péssimo argumento. Simetricamente, poder-se-ia dizer: A maneira mais cínica de defender uma causa é combatê-la com um péssimo argumento.

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Mil e Uma X23 Elogio da Prudência nas leituras

A prudência é uma das virtudes cardeais em Santo Tomás. Ela não diz respeito às precauções, mas a modos de ação prática, em sintonia com a ideia de justiça. O impetuoso jovem, com a mais justa das intenções, pode cometer imprudências. Avançar na idade pode nos tornar mais prudentes.

Dois exemplos ilustrativos. Em Razões Práticas, Bourdieu escreve que o ato desinteressado não existe. Nossas ações seriam sempre motivadas por interesses, velados ou não. Será? Vamos mais devagar. A dimensão mercantil não é sempre determinante de nossas ações, não dá conta do valor do conhecimento, da arte, dos sentimentos… Bourdieu também escreve que a motivação da dádiva é o interesse pela criação do laço com o outro. Aí a concordância é total; o interesse é o laço, concordamos.

Whitehead escreve, em Os fins da Educação, que tudo o que ensinamos na escola tem que ser útil. Mas também escreve que a maior utilidade do que aprendemos é a compreensão do significado dos temas estudados. OK, vamos nessa…

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Mil e Uma X22 A bicicleta e o conhecimento tácito

Quase todo mundo aprende a andar de bicicleta ainda jovem, e, mesmo passados muitos anos sem usar uma, montamos e saindo andando.  Não sabemos explicar em palavras como o fazemos, mas sabemos fazê-lo. Trata-se de um modo de conhecer que não deriva diretamente das palavras.

Andar de bicicleta é um tipo de saber chamado de “conhecimento tácito”. Em muitas áreas, cada um de nós, professores ou alunos, sabe muito mais do que consegue pôr em palavras. Há coisas que aprendemos e incorporamos, mesmo sem conseguir explicar. Uma centopeia anda muito bem, sem tropeçar nas pernas, e pode mesmo se tornar uma bailarina, coordenando suas centenas de patas, tudo isso tacitamente, sem explicações, como se dá o andar de bicicleta.

Na escola, buscamos ampliar nosso conhecimento sobre a realidade das coisas, e gostamos de explicar o que aprendemos, de falar sobre o que fazemos. A ideia de que existem coisas que conhecemos, mas não sabemos explicar, pode chocar alguns, mas é fundamental. O inefável existe.

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Mil e Uma X21 Significado e relevância na pesquisa

A simbiose entre o significado e a relevância é o ideal de toda pesquisa, mas não são poucas as cascas de banana a serem evitadas. Uma pesquisa pode ter conteúdo cientificamente relevante, mas ser metodologicamente irrelevante; também pode ocorrer de a metodologia ser irrepreensível, mas os objetivos propostos traduzirem irrelevâncias.

A estatística pode ser boa ou má conselheira, na distinção entre significâncias irrelevantes e insignificâncias relevantes, mas é preciso cautela para não se deixar fascinar por números e transformá-los em fins, em vez de meios da pesquisa. Afinal, diz-se que os números não mentem, mas é fato que mentirosos usam números.

Na área da saúde, o reconhecimento de derrapadas como as referidas pode ser feito com mais nitidez. Aqui, é mais fácil identificar refinadas metodologias no enfrentamento de temas de pouca relevância clínica, assim como se pode reconhecer que o instrumental metodológico escolhido foi insuficiente para as análises científicas necessárias.

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Mil e Uma X20 Vacina gênica é fake…

Não se trata aqui do desprestígio de vacinas. Cuidaremos do fato, no mínimo curioso, de que duas das vacinas que mais rapidamente se apresentaram no combate ao coronavírus sejam baseadas em fakes.

As vacinas surgiram no século XVIII. A lógica é simples: para combater um vírus, por exemplo, injeta-se no paciente o vírus enfraquecido, ou parte dele, fazendo com que o corpo aprenda com tais inimigos atenuados a produzir anticorpos capazes de combater o verdadeiro inimigo.

As duas vacinas supra referidas baseiam-se em outra lógica. Chamadas de gênicas, elas recorrem ao RNA mensageiro, uma espécie de motoboy de materiais genéticos, que transporta um ínfimo pedaço do vírus, “encaixado” no RNA, até o paciente. Tal porção do vírus faz com que o paciente imagine um invasor onde existe apenas um simulacro, uma ingênua cereja, em vez do bolo, uma amostra fake do vírus.Como diria Cícero, orador romano, que proferiu célebres discursos contra a corrupção: O tempora, o mores! (Oh tempos, oh costumes!)

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Mil e Uma X19 O diâmetro da Imprensa e o da civilização

Atualmente, a lembrança da imprensa nos conduz à ideia de uma sociedade em rede, com seus recursos tecnológicos, seus sistemas de circulação de informações, que parecem desdenhar da ideia de valor. Já não escrevemos cartas, quase não lemos jornais impressos, as manchetes mais insólitas permanecem pouco tempo em destaque. Links são continuamente criados e destruídos, personalidades são idolatradas ou canceladas, a efemeridade e a fugacidade são extremas.

 A nova imprensa, plena de blogs, chats, canais, podcasts, webinars e outras etiquetas tecnológicas, amplifica egos e alivia conteúdos quase na mesma proporção. A impressão é a de inconsciência das características da nova civilização que parece vicejar, o que nos faz lembrar a emblemática frase de Victor Hugo: A imprensa e a civilização têm o mesmo diâmetro.

A leveza que tangencia a leviandade, tão comum à cultura das redes, não pode mitigar o fato de que a imprensa é o sistema nervoso da cultura: a imprensa e a civilização se merecem…

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Mil e Uma X18 Aprender com a História: Hegel não tinha razão

“A História ensina que os povos e governos nunca aprenderam com a História”. A frase de Hegel é provocativa, mas é uma caricatura. Não é uma mentira, mas um recurso retórico. A História é a disciplina mais importante do currículo. Segue o argumento.

Na escola, buscamos a construção do conhecimento em sentido pleno. Conhecer é compreender o significado. Mas o significado não se constrói de uma vez para sempre: ele se articula em redes de relações em permanente estado de atualização. A primeira rede de relações significativas não construímos na escola: a oralidade nos provê. A partir daí, aprendemos a vida inteira, tanto pela incorporação quanto pelo descarte de relações.

É justamente do fato de que estamos em permanente estado de atualização que deriva a importância decisiva da História. Em vez de acessos socráticos do tipo “Só sei que nada sei”, recorremos à História. É nela que buscamos compreender o significado das mudanças, mas sobretudo o significado das mudanças… de significado!

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Mil e Uma X17 OS MEIOS E OS FINS: LA FONTAINE E ADESTRADORES DE ANIMAIS

La Fontaine consagrou fábulas de conteúdos prenhes de valores. Explora a natureza humana por meio de prosopopeias, ou seja, da atribuição de uma face humana a animais. Leões, lobos, coelhos, raposas, entre outros, envolvem-se em situações humanas, como se fossem gente. Assim, mestre La Fontaine recorre a características dos animais para construir situações de natureza ética, por meio das quais busca instruir os seres humanos.

Os adestradores também lidam com animais em situações de aprendizagem, mas há aqui uma diferença decisiva. Um adestrador instrui animais, para que mimetizem aspectos tópicos dos seres humanos, sem, no entanto, uma compreensão efetiva do que e do porquê o fazem: uma guloseima é a instância última do processo.  

 Em situações de ensino, o professor é um agente que fabula, que confabula. Os animais são meios; o fim é a formação em valores do ser humano. No caso dos adestradores, a assimilação de esquemas de resposta é o fim último. A ideia de Educação exige muito mais.

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