Leia todos os Mil e uma

mil e uma # 397 Russell e as tarefas do Professor

Em texto seminal (The functions of a teacher, 1950), Bertrand Russell analisa o significado e a importância das ações docentes. Em sintonia com Weber, para quem a Ciência e a Política são distintas vocações, Russell pretende que os professores deveriam manter-se fora da política partidária. A eles caberia o permanente combate, no que diz respeito aos valores, a dois males que ameaçam a vida social: os partidários das narrativas unárias e os defensores das narrativas binárias.

Segundo Russell, os primeiros são a matriz dos dogmáticos, defensores da existência de uma narrativa única para dar sentido à vida – naturalmente, a que professam. Uma via de mão dupla conduz do dogmatismo ao fanatismo.

Os segundos são os fomentadores das disputas extremistas, que extraem seu veneno de oposições irredutíveis do tipo “ou nós, ou eles”, pregando a necessidade de uma decisão nítida dos participantes.

Combater com a palavra os fanatismos e os extremismos: eis aí uma bela síntese da missão do professor.

mil e uma # 396 Narrativas: do binário ao multifário

As narrativas infantis são binárias. Não se pode perguntar a uma criança se ela é a favor ou contra a eutanásia; na construção da consciência, os primeiros passos são escolhas simples entre o bem e o mal. Paulatinamente, na construção de valores, as crianças enfrentam situações envolvendo dilemas, em que o A e o não A parecem igualmente inaceitáveis; e agora?

A ultrapassagem de dilemas se dá pelo vislumbre de uma terceira posição B, que também será levada ao confronto com sua negação não B.

Na narrativa jurídica, por exemplo, normas surgem a partir de duas oposições fundamentais: proibir x não proibir, permitir x não permitir.

Naturalmente, a vida não se resume a fazer o que a lei permite e não fazer o que é proibido: o espaço do livre-arbítrio é fundamental. Narrativas humanas vão muito além da disputa entre dois pares de opostos, podendo envolver também C x não C, D x não D… Lidar com múltiplos pares de opostos é dinâmica fundamental no terreno multivariado das narrativas complexas.

 

mil e uma # 395 Ser Extremista

Há questões em que a resposta resulta da escolha de um entre dois extremos: um número natural é par ou é ímpar; um personagem de uma história infantil é do bem ou é do mal… A vida, no entanto, não se resume à matemática, com suas oposições binárias, que tudo reduzem ao par exclusivo Verdadeiro ou Falso, nem a um conto de fadas, povoado por heróis ou vilões, bruxas ou fadas, que representam nitidamente o Bem ou o Mal.

Ser extremista é acreditar que a vida é matemática, ou é um conto de fadas, o que ocorre por ingenuidade infantil ou mera ignorância. Num debate entre adultos, reduzir tudo à contraposição “quem não está comigo, está contra mim”, literalmente, é infantilizar a discussão. Na vida real, o bem e o mal passeiam de mãos dadas. Extrapolar oposições ou dilemas é um exercício fundamental para o crescimento pessoal e a semeadura da tolerância. De cada disputa entre A x não A nasce a possibilidade do novo, um B, que logo se pode confrontar com um provável não B. É a vida que segue.

mil e uma # 394 Ser Radical

O adjetivo “radical” costuma ter uma conotação negativa, sendo associado a uma forma de intolerância, ou a uma falta de flexibilidade teórica nas argumentações. Não é correta, nem é justa tal caracterização.

Ser radical é ir até a raiz dos problemas. Questões importantes apresentam camadas de microquestões superficiais que conduzem a desvios ou irrelevâncias. Manter o foco no que é fundamental é absolutamente necessário para uma reflexão consistente, e isso é ser radical. Uma reflexão filosófica é sempre radical, ou não será filosófica.

Nas raízes das questões relevantes encontram-se, no entanto, pares de ideias que se opõem. Elas parecem situar-se em extremos inconciliáveis: quem não está comigo, está contra mim. Aceitar tal visão simplória, que torna a escolha de um dos extremos aparentemente inevitável, é a origem infeliz dos extremismos. Ser radical é fundamental; ser extremista é apenas fruto da ignorância de quem não vê que entre o A e o não A existe um universo de possibilidades.

Mil e uma # 393 Deus e o sentido da vida

Para muitos, não haveria como falar no sentido da vida sem invocar algum tipo de divindade. Personalidades complexas, como Pascal ou Dostoiévski, parecem absolutamente pragmáticas ao enfrentar tal questão. Para o primeiro, uma aposta contra a existência de Deus somente tem a perder; apostar a favor é mais “lucrativo”; para o segundo, a divindade é um freio moral, pois “se Deus não existe, tudo é permitido”. Nada mais distante da busca kantiana da verdade e da justiça como princípios que transcendem toda particular crença e não pressupõem uma fé religiosa.

Mas Kant também era movido pela fé: uma fé inexorável na razão como uma luz e na boa vontade humana como princípio. O mal seria como a sombra, a ausência de esclarecimento, e a ciência nos salvaria.

Há muito, no entanto, o entusiasmo com a empresa científica arrefeceu e luz da razão perdeu o foco. A irracionalidade deixou de ser inaudita e o absurdo reivindica o diálogo. A fé no sentido dispensa intermediários: Deus é o sentido da vida.

Mil e uma # 392 O sentido da vida e a morte

Para alguns, uma evidência da falta de sentido da vida é o caráter irremediável morte. Em termos pessoais, a vida de cada um de nós é efêmera, nada parece ter um valor permanente. As ações e as características pessoais mais admiradas desaparecem em algumas décadas. Mas a brevidade da vida merece também créditos expressivos na explicitação do sentido de nossa existência pessoal e no significado da vida humana em sentido amplo.

De fato, é a limitação do tempo que nos obriga a escolhas e dá consistência às narrativas pessoais. As ideias de projeto e de planejamento alimentam-se da variável tempo. O modo de ser do ser humano e sua inerente arquitetura de valores estrutura-se no tempo, elemento constitutivo tanto da História quanto das histórias de vida. Narrativas ficcionais que exploram a expectativa de imortalidade desaguam em situações de desconforto especulares em relação às da morte física. Highlander e seu tema (Who wants to live forever?) constitui apenas um entre numerosos exemplos.

Mil e uma # 391 Sentido, significado, crença

Em nossas ações ordinárias, o que não é sentido não faz sentido, mas tal sentido é pessoal, idiossincrático. Assistimos todos ao mesmo filme e cada um capta uma narrativa diferente, em sintonia com o repertório e a história de vida. Mas a vida não é uma selva, não se trata de cada um ver as coisas de seu jeito e fim. Vivemos a cada dia a busca da partilha de sentimentos, de sentidos, e o significado do que se vive é o que há de partilhável na diversidade de sentidos. A Educação traduz um esforço social para a construção da consciência pessoal, o que viabiliza a construção de significados, ou uma partilha de sentidos.

Há quem pretenda que a diversidade de sentidos teria uma interseção vazia, inviabilizando toda expectativa de racionalidade nas ações coletivas. Tal descrença não é absurda, e, às vezes, pode parecer conveniente, mas é um luxo de minorias. Acreditar na possibilidade da construção de uma “consciência coletiva” é um ato de fé na humanidade, essencial para nos mantermos vivos.

Mil e uma # 390 Os sentidos da vida

Para Jaspers, o homem não é sério se não se questiona sobre o sentido da vida; segundo Freud, no entanto, quem faz essa pergunta padece, no mínimo, de uma neurose.

Uma tomada de posição exige o discernimento dos diversos sentidos de tal questão. Ao formulá-la, podemos estar buscando as razões para a realização de uma ação imediata, ou as justificativas de projetos mais duradouros; inquirindo sobre o sentido de nossa vida particular, ou sobre o da existência humana de maneira geral; alinhando argumentos para levantar da cama e enfrentar a labuta, ou inventariando razões mais profundas para estarmos vivos.

Uma dificuldade adicional resulta do fato de que a busca do sentido pode ser associada ao pleno exercício da razão, uma negação da hipótese do mero absurdo da vida; por outro lado, somente o afrouxamento da racionalidade estrita, abrindo-se a porta para algum tipo de fé, não necessariamente religiosa, poderia conduzir a uma resposta positiva à busca do sentido da vida.

E aí, como ficamos?

Mil e uma # 386 Direito e Poesia

O Direito é o lugar das leis que regulam a vida em sociedade e nos coagem a todos. Trata-se de uma coação consentida porque legítima. Diante de uma lei, ou se cumpre o prescrito, ou se recorre a instrumentos legais para mudá-la. A vida na pólis não pode prescindir de leis. Da Constituição até os Códigos mais específicos, o elenco de leis de um País constitui um imenso mapa, que norteia a vida junto com os outros. O fato mais fundamental da vida social é que todos somos iguais perante as leis, ou seja, o mapa legal é uma representação do mundo diante da qual somos todos iguais.

O inverso ocorre com a Poesia, como nos lembra Sousa Santos, em Crítica da razão indolente. Um bom poema também nos oferece uma representação do mundo, pelo olhar do poeta. A distinção crucial, no entanto, é o fato de que, diante de um poema, somos todos diferentes. A Poesia nos propicia representações idiossincráticas vitais para o dia a dia.

Que vivam a igualdade e a diferença, que vivam o Direito e a Poesia.

 

Mil e uma # 389 Direitos e Deveres

O Estado legitimamente constituído é um Estado de Direito; daí para o elogio puro e simples da reivindicação dos direitos do cidadão é apenas um passo. Mas não é possível falar-se de direitos onde não existem deveres inerentes. A garantia dos direitos do cidadão é o dever do Estado, mas é direito do Estado que cada cidadão cumpra seus deveres. A justiça não se faz apenas com a garantia de direitos, mas também com a cobrança de deveres.

Após a II Guerra Mundial, um importante documento foi escrito: a Declaração Universal de Direitos Humanos (1948). O contexto explica a fixação do texto na lista dos direitos, mas é fundamental reconhecer que o mundo carece de uma Declaração dos Deveres Humanos.

Um acordo a respeito pode advir do fato de que uma dívida gera deveres. Ao nascer, todos recebemos a vida como uma dádiva, a maior de todas as elas, o maior de todos os valores. Seria natural, portanto, nos sentirmos em débito, desde então, e levarmos mais a sério a questão dos deveres do cidadão.