Leia todos os Mil e uma

MIL E UMA 403 # INOVAÇÃO E CRIAÇÃO

O novo não é um valor porque é novo: a criação é necessária para constituí-lo. Como bem disse o poeta, chorar não basta para dignificar a tristeza; e inovar não é suficiente para instituir um valor. O verbo criar apresenta duas acepções importantes, uma delas muito mais expressiva do que a outra. Criar algo como se cria um filho, ou um fazendeiro cria gado, não tem o mesmo sentido da criação artística ou da inovação criadora. É preciso criar na acepção nobre do verbo, que pressupõe a manifestação da essência em forma concreta de existência. Em sentido humano, o criador não pode se limitar à inovação que deriva do ativismo radical de uma comunidade de formigas, nem pretender, no processo criativo, extrair tudo de dentro de si, como uma aranha ao produzir sua teia. O verdadeiro criador reconhece-se como hóspede da criação, como cunhou Steiner, e se encontra em algum ponto entre a produtividade lavoisieriana, que apenas combina e transforma o que transporta, e a criação divina, ex nihilo.

MIL E UMA 402 # DISCIPLINA É COMPETÊNCIA: O CASO DO TRIVIUM

O primeiro currículo na história do pensamento ocidental foi o TRIVIUM. Nele confluíam três disciplinas que constituíam as vias de acesso ao conhecimento: GRAMÁTICA, LÓGICA e RETÓRICA. Na formação greco-romana, o que todos os que estudavam tinham que aprender, o “trivial”, era o TRIVIUM, e era evidente a todos as competências pessoais que se desenvolviam por meio de tais disciplinas. A Gramática não era um fim em si mesmo, nem a Lógica, nem a Retórica; eram meios para a comunicação com os outros, para a construção de argumentações consistentes. Especialmente a Retórica, que hoje goza de má fama, era um instrumento essencial na escolha de modos de falar e de argumentar que favorecessem o convencimento. “Convencer” é um belo verbo: é vencer junto com os outros, é criar as condições para chegarmos juntos às mesmas conclusões. Hoje, as disciplinas escolares se multiplicaram e, algumas vezes, algumas delas parecem muito distantes dos interesses da nossa formação para uma vida em sociedade.

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MIL E UMA 401  #   TRADIÇÃO, TOLERÂNCIA, OPINIÃO, RESPEITO

No dia a dia, há um uso pré-conceitual, e muitas vezes preconceituoso, das palavras “tradição” e “tolerância”. Enquanto a primeira é considerada de maneira frequentemente negativa, a segunda circula com acepção nitidamente positiva. Mas nem sempre a tradição é ruim, e nem toda tolerância é boa. A ideia de “opinião” pode ilustrar tal fato. A liberdade de opinião é um fundamento da democracia. A ignorância parece intolerável, mas opinião não é conhecimento e é preciso ser tolerante com a diversidade de opiniões, o que nos leva de volta ao ponto de partida: a tradição é a opinião dos mortos. Cultivar sua presença é preservar a cultura. Fechando o círculo, a etimologia do verbo “respeitar” é iluminadora. Res + spectare significa, literalmente, olhar para trás. Somente é possível respeitar o que tem passado, e o fazemos olhando para trás. O novo nunca elimina o velho: ele o ressignifica. A recusa sistemática da tradição é sintoma de crise, de doença social, como bem registrou Hannah Arendt.

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MIL E UMA 400 # BILL GATES E AS PRIVADAS INTELIGENTES

Deu na mídia: a Fundação Bill e Melinda Gates anunciou a criação de uma privada tecnologicamente avançada, tendo em vista uma solução para o problema da carência do saneamento básico no mundo. Curiosamente, apesar de não recorrerem ao efeito de um sifão e de dispensarem completamente o uso da água, as novas privadas mantêm a forma usual. O processo de utilização, no entanto, é outro, transformando-se o excremento em material seco que pode ser usado como fertilizante. Inicialmente, o preço de cada unidade é muito alto, não se vislumbrando de imediato uma disseminação de seu uso. No entanto, como acontece em situações similares, o custo marginal tende a diminuir e os problemas crônicos do saneamento básico que atingem numerosos e populosos países, inclusive o Brasil, podem ser abordados em outra perspectiva. Depois de ter inovado no desenvolvimento de produtos relacionados com a inteligência humana, Gates agora abre os portões para o que está sendo chamado de “inteligência” das privadas.

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MIL E UMA 399 # QUEM ACREDITA NO INFINITO?

São demais os perigos do Infinito, para quem tem razão – e não quer perdê-la.
Como entender que existem:
tantos números naturais quantos são os números pares,
tantas frações quantos são os números naturais,
tantos números inteiros quanto são os naturais,
mais pontos na reta real do que no conjunto dos racionais,
tantos números irracionais quantos são os pontos da reta real,
tantos pontos na reta real quantos no intervalo ]0; 1[,
tantos pontos no segmento ]0; 1[ quantos em toda a reta real,
tantos pontos no quadrado de lado 1 quantos no segmento ]0; 1[,
tantos pontos no cubo de aresta 1 quantos no segmento ]0; 1[,
como aceitar todos esses resultados, tão contra intuitivos?
Como entender que a soma dos inversos de todos os números naturais (invertíveis) dá um resultado infinito, mas a soma dos quadrados dos inversos de todos os números naturais dá menos que 1?
Cantor demonstrou precisamente tudo isso, mas não se conteve, e afirmou: “Vejo, mas não creio…” É isso, o Infinito exige algum tipo de fé…

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MIL E UMA 398 # EU NÃO CREIO EM BRUXAS, MAS…

 

A Biometria está em alta. As impressões digitais, que eram recursos específicos na identificação de pessoas ou na investigação criminal, estão em todos os lugares. Os Bancos, as movimentações financeiras em geral, entraram no circuito. Os sistemas eleitorais também. A Biometria é cada vez mais presente. Alguns bancos recorrem a linhas da palma da mão para a identificação de seus clientes. Outros preferem as peculiaridades da íris. Curiosamente, no entanto, a Quirologia continua nas sombras da vida social, não se beneficiando do prestígio da prima rica. Não se discute que as linhas de nossas mãos, ou nossas impressões digitais, são absolutamente idiossincráticas, que nos identificam como animais biológicos. Também é fato conhecido que portadores da Síndrome de Down apresentam linhas das mãos peculiares, típicas. Até aí, tudo bem. Mas reconhecer que certas peculiaridades físicas tenham a ver com nosso caráter, nosso temperamento, nosso destino, aí, não: é absolutamente inaceitável. Será?

mil e uma # 397 Russell e as tarefas do Professor

Em texto seminal (The functions of a teacher, 1950), Bertrand Russell analisa o significado e a importância das ações docentes. Em sintonia com Weber, para quem a Ciência e a Política são distintas vocações, Russell pretende que os professores deveriam manter-se fora da política partidária. A eles caberia o permanente combate, no que diz respeito aos valores, a dois males que ameaçam a vida social: os partidários das narrativas unárias e os defensores das narrativas binárias.

Segundo Russell, os primeiros são a matriz dos dogmáticos, defensores da existência de uma narrativa única para dar sentido à vida – naturalmente, a que professam. Uma via de mão dupla conduz do dogmatismo ao fanatismo.

Os segundos são os fomentadores das disputas extremistas, que extraem seu veneno de oposições irredutíveis do tipo “ou nós, ou eles”, pregando a necessidade de uma decisão nítida dos participantes.

Combater com a palavra os fanatismos e os extremismos: eis aí uma bela síntese da missão do professor.

mil e uma # 396 Narrativas: do binário ao multifário

As narrativas infantis são binárias. Não se pode perguntar a uma criança se ela é a favor ou contra a eutanásia; na construção da consciência, os primeiros passos são escolhas simples entre o bem e o mal. Paulatinamente, na construção de valores, as crianças enfrentam situações envolvendo dilemas, em que o A e o não A parecem igualmente inaceitáveis; e agora?

A ultrapassagem de dilemas se dá pelo vislumbre de uma terceira posição B, que também será levada ao confronto com sua negação não B.

Na narrativa jurídica, por exemplo, normas surgem a partir de duas oposições fundamentais: proibir x não proibir, permitir x não permitir.

Naturalmente, a vida não se resume a fazer o que a lei permite e não fazer o que é proibido: o espaço do livre-arbítrio é fundamental. Narrativas humanas vão muito além da disputa entre dois pares de opostos, podendo envolver também C x não C, D x não D… Lidar com múltiplos pares de opostos é dinâmica fundamental no terreno multivariado das narrativas complexas.

 

mil e uma # 395 Ser Extremista

Há questões em que a resposta resulta da escolha de um entre dois extremos: um número natural é par ou é ímpar; um personagem de uma história infantil é do bem ou é do mal… A vida, no entanto, não se resume à matemática, com suas oposições binárias, que tudo reduzem ao par exclusivo Verdadeiro ou Falso, nem a um conto de fadas, povoado por heróis ou vilões, bruxas ou fadas, que representam nitidamente o Bem ou o Mal.

Ser extremista é acreditar que a vida é matemática, ou é um conto de fadas, o que ocorre por ingenuidade infantil ou mera ignorância. Num debate entre adultos, reduzir tudo à contraposição “quem não está comigo, está contra mim”, literalmente, é infantilizar a discussão. Na vida real, o bem e o mal passeiam de mãos dadas. Extrapolar oposições ou dilemas é um exercício fundamental para o crescimento pessoal e a semeadura da tolerância. De cada disputa entre A x não A nasce a possibilidade do novo, um B, que logo se pode confrontar com um provável não B. É a vida que segue.

mil e uma # 394 Ser Radical

O adjetivo “radical” costuma ter uma conotação negativa, sendo associado a uma forma de intolerância, ou a uma falta de flexibilidade teórica nas argumentações. Não é correta, nem é justa tal caracterização.

Ser radical é ir até a raiz dos problemas. Questões importantes apresentam camadas de microquestões superficiais que conduzem a desvios ou irrelevâncias. Manter o foco no que é fundamental é absolutamente necessário para uma reflexão consistente, e isso é ser radical. Uma reflexão filosófica é sempre radical, ou não será filosófica.

Nas raízes das questões relevantes encontram-se, no entanto, pares de ideias que se opõem. Elas parecem situar-se em extremos inconciliáveis: quem não está comigo, está contra mim. Aceitar tal visão simplória, que torna a escolha de um dos extremos aparentemente inevitável, é a origem infeliz dos extremismos. Ser radical é fundamental; ser extremista é apenas fruto da ignorância de quem não vê que entre o A e o não A existe um universo de possibilidades.