O “homem comum”: perspectivas

 

                      Nílson José Machado           njmachad@usp.br  

Sumário                                               

1- Animais, pessoas, massas

2- O hábito, o monge, a massa

3- Meio, médio, medíocre

4- Totalitarismos antigos e modernos

5- Democracia e Educação

6- Voto: direito ou dever?

7- O homem “comum”

8- Ortega e as massas

9- Canetti e as massas

10- Consciente, inconsciente, massa

11- O anonimato e a massa

12- Elite e massa

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1 – Animais, pessoas, massas  

O animal satisfaz suas vontades imediatas; os seres humanos buscam a construção de uma consciência moral, uma vontade de ter certas vontades e não outras. A consciência pessoal é o final de um percurso que se inicia na heteronomia, na obediência a normas estabelecidas por outros, e que culmina com a autonomia, a obediência a normas que criamos, ou que aceitamos como nossas por considerarmos legítimas.

A reunião de muitas pessoas com metas racionalmente difusas, unidas apenas por emoções ou paixões coletivas, revela que a multipessoalidade transmuta-se facilmente em multidão, e a pessoalidade regride para a heteronomia: está constituído o fenômeno da massa. As massas são naturalmente heterônomas: basta um grito, uma incitação e a explosão é decretada.

 Quaisquer que sejam seus componentes, as massas não articulam as consciências pessoais, mas agregam as animalidades. Anestesiada a consciência pessoal, uma assembléia de sábios ou uma reunião de imbecis pode conduzir aos mesmos resultados.

 2 – O hábito, o monge, a massa

O hábito não faz o monge, mas ternos ou vestidos longos não são convenientes para a praia, nem sungas ou biquínis para as salas de aula. Certos ambientes sugerem vestimentas e comportamentos adequados, ou se instala uma dissonância. Se o tema é regulado por normas, quem as viola deve ser responsabilizado; sem normas explícitas, o dissonante deve ser alertado sobre o significado de seu ato, na expectativa do restabelecimento da harmonia.

Imaginemos que vestes inadequadas de um(a) aluno(a) provoquem uma dissonância na escola. Não se justificam, em hipótese alguma, nem a agressão dos colegas, nem reações extremadas da instituição. Xingamentos ou linchamentos são próprios das massas ignaras, não são compatíveis com ações civilizadas. Educação é construção da consciência pessoal, que é o oposto da massificação. Se a instituição de ensino reprime violentamente manifestações pessoais, mesmo as dissonantes, é porque abdicou da autoridade educacional e desistiu da Educação: sobrou a Inquisição.

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3 – Meio, médio, medíocre  

           Aristóteles cunhou a máxima “A virtude está no meio”; mais de dois mil anos depois, Whitehead afirmou: “A virtude encontra-se entre dois vícios”. O preceito básico no budismo é “o caminho do meio”. No senso comum, a ideia de que os extremos e os extremistas não são virtuosos tem fácil guarida. Não se pode, no entanto, deduzir daí um elogio desequilibrado da média ou do morno, que podem ser sinônimos de parar no meio, ou de simples mediocridade.

A média é o motor da estatística e tudo o que dela muito discrepa não é levado a sério. Mas, tal como os cisnes negros, mesmo situando-se nos extremos da Curva Normal, os eventos raros são tão reais quanto os cortejadores da média.

Na ação humana, tanto quanto aos extremos, o meio também se opõe ao fim, sendo mero coadjuvante do mesmo. Esquecer-se do fim, ou tornar meta o que é apenas um meio, é a forma básica da mediocridade. Os meios de subsistência não podem substituir nossos projetos: tal ocorrência é o real significado de uma vida medíocre.

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4 – Totalitarismos antigos e modernos

A vida é feita de escolhas, algumas decisivas, cruciais, muitas inofensivas, veniais, todas constitutivas, pessoais.

Nos regimes democráticos, elegemos nossos governantes. Como cidadãos, tendo por base os valores socialmente acordados, valorizamos as diferenças pessoais, articulamos interesses pessoais e coletivos, partilhamos sonhos, cultivamos consensos, arquitetamos projetos.

Os regimes totalitários à moda antiga recorriam à força para destruir a unicidade da pessoa e padronizar o sentido das ações coletivas. Os totalitarismos modernos são mais sutis. A pessoalidade é minada por meio da limitação ou da extinção das escolhas cruciais, reservadas aos detentores do poder. Já as escolhas veniais, irrelevantes para o projeto coletivo, são convenientemente fomentadas: crédito facilitado, consumo de supérfluos, foco nas aparências, nos prazeres sensoriais etc.

Em tal cenário, a Ética torna-se um luxo, a mediocridade grassa, e chega a parecer ridículo ponderar sobre o sentido último da vida.     

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5 –  Democracia e Educação    

Dewey (1916) já alertara: sufrágio universal e universalização da educação básica de qualidade são condições inextricáveis da vida civilizada. Não é possível imaginar uma democracia plena no universo infantil, ou em espaços de convivência carentes de consciência pessoal, fruto de uma educação efetiva, formal ou informal.

Mortimer Adler, em sua Paideia(1985), já sublinhara com ênfase: o não atendimento conjunto ou o cumprimento parcial de tais condições corrompe as ideias de democracia e de educação. Educação sem liberdade de expressão, sem participação nos projetos, sem comunhão de valores, não pode ser de qualidade e é tão indesejável quanto a simples escravidão. Mas o sufrágio universal sempre pressupõe a consciência pessoal e a responsabilidade, frutos de uma boa educação.

A nenhum ser humano deveria ser negada a vivência plena das duas condições deweyanas. Privar alguém de uma delas é como aliviar de uma das penas de morte quem fora condenado independentemente a duas de tais penas.

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6 – Voto: direito ou dever

Há direitos que são inerentes a certos deveres. O direito ao voto parece ser dessa estirpe. Ele é um nobre instrumento por meio do qual o poder político é transferido temporariamente do povo a seus representantes. Assim como a palavra, o voto não deve ser comprado ou vendido. Para ser fiel a seu desígnio, deve circular de modo dadivoso, como uma manifestação de confiança, tecendo a imensa e vital rede de laços sociais.

Em sintonia com tal fato, o voto não deveria ser obrigatório. O índice de abstenção nas eleições é o primeiro e mais importante sintoma da saúde civil de uma sociedade. A consciência do valor do direito ao voto seria mais que suficiente para constranger cada cidadão a cumprir seu dever.

Observando os carros nas ruas, notamos que a livre escolha pessoal faz com que quase 90% deles sejam das cores preta, prata, cinza ou branca. Se, no entanto, uma lei nos proibir de escolher outra cor, muitos protestarão. De modo similar, a obrigação de votar também gera certo desconforto.

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7 – O homem “comum”   

Cada ser humano é único, singular; como falar, então, em homem “comum”? Três são os sentidos principais.

Em primeiro lugar, “comum” é o universal em sentido ontológico: homo laborans, homo faber, homo loquens, homo ludens, homo sapiens, homo ridens,  zoon racionalis, zoon politicus etc. Nesse sentido, “comum” advém da racionalidade lógica e denota o genérico, o essencial.

Em segundo lugar, “comum” é o que é tornado uniforme em sentido econômico: a internacionalização da produção conduz à padronização nos gostos, à submissão ao “deus” mercado. Nesse sentido, o “comum” origina-se na operacionalidade do sistema produtivo.

Em terceiro lugar, “comum” é o que partilhamos com os outros por exigências políticas da vida em comunidade. Nesse sentido, o “comum” aponta para o coletivo e nasce da oposição entre o público e o privado.  

  Quando o logos é ditado pelo econômico, o uniforme impõe-se como universal, o público sufoca o privado e o homem “comum” pode tornar-se um monstro frankensteiniano.

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8 – Ortega e as massas  

A crescente aglomeração humana é notada desde o início do século XX. As pessoas acumulam-se nas ruas, nos cinemas, nas lojas, nos aeroportos. Falar de multidões é pensar apenas a dimensão quantitativa do fenômeno. O aspecto crucial, de natureza sociológica, é a massificação.

Em A rebelião das massas (1926), Ortega y Gasset registra: massa é todo aquele que não valoriza a si mesmo, que se sente “como todo mundo”, e, entretanto, não se angustia, sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. Massa não é uma classe social, mas um modo de ser do homem, ao trocar sua singularidade pelo conforto da média. Para Ortega, pelo modo de produzir, o homem de ciência atual é o protótipo do homem massa.

Naturalmente, a extensão para a totalidade da população de direitos que eram reservados a poucos deve ser louvada e cultivada. O problema a ser enfrentado é, segundo Ortega, o fato de que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe por toda a parte.  

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9 – Canetti e as massas  

Para examinar as relações sugeridas pelo título (Massa e Poder, 1960) do que seria sua obra prima, Elias Canetti alinha quatro características principais da ideia de massa:

A massa quer crescer sempre. Assim como dinheiro não assume ares de capital senão quando assimila a vocação básica para o crescimento, uma aglomeração não se caracteriza como uma massa se não apresentar tal inexorável tendência;

No interior da massa reina a igualdade absoluta. Massificação significa abdicação da individualidade. Nenhuma diversidade é levada em conta e consciência pessoal é inexistente.

A massa busca permanentemente a densidade.  O crescimento da massa não é apenas um espraiamento horizontal, mas é sempre acompanhado de uma progressiva densificação, em que as identidades são cada vez mais indiferenciadas.

A massa necessita de uma direção. Ainda que a heteronomia seja tácita, a massa é sempre suscetível a obedecer acriticamente palavras de ordem externas.

Eis aí, então, os perigos da massificação.

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10 – Consciente, inconsciente, massa 

O fenômeno da consciência é um problema fundamental para filósofos e estudiosos da neurociência. Normalmente, falamos de um “indivíduo consciente”, ou da “consciência pessoal”. Na Psicanálise, as ideias de consciente e de inconsciente estão associadas primordialmente aos indivíduos. O inconsciente é o lugar das lembranças pessoais reprimidas, dos impulsos socialmente inaceitáveis.

Com Jung, a noção de inconsciente transcendeu o nível individual. O inconsciente coletivo constitui a camada mais profunda da psique humana. Seu conteúdo são materiais arquetípicos, padrões socialmente herdados, comuns a diferentes épocas e culturas.

Não existem, no entanto, abordagens teóricas que associem à consciência um caráter coletivo. Como negação da individualidade, a massificação consiste justamente na abdicação da consciência pessoal, sem a contrapartida da emergência de uma “consciência coletiva”. A ideia de uma “massa consciente” é o exemplo mais patente de uma contradição de termos, de um oximoro.

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11 – O anonimato e a massa

No início do século XX, diversos autores chamaram a atenção para o fenômeno das massas, em que a renúncia à individualidade anula ou amortece a consciência pessoal. Bem antes disso, a história registra uma oscilação ancestral entre o desafio da construção da autonomia e a conveniência e o conforto da heteronomia.

Segundo Michael Oakeshott (2000), o século XII talvez tenha sido o ápice do anonimato do homem comum. Do século XIII em diante, sobretudo na Itália, a valorização da singularidade iniciou um percurso que conduziria à Revolução Inglesa do século XVII, e à Revolução Francesa no século XVIII. A individualidade tornou-se, então, um ingrediente fundamental da felicidade pessoal.

Desde o século XVI, no entanto, há registros na Europa da existência de indivíduos que não se sentem confortáveis em assumir as responsabilidades pelo seu destino. Quando tal resistência tácita torna-se uma negação explícita do valor da autonomia, estão criadas as condições para a emergência do homem massa.

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12 – Elite e massa 

A oposição elite/massa parece tão ingênua quanto sua irmã gêmea, a identidade/diferença. Iguais como cidadãos, somos diferentes como pessoas, e não há nisso nada de complexo ou paradoxal.

Em todas as épocas e culturas, é possível distinguir uma minoria dirigente e uma maioria de cidadãos. Limitado pelas demandas do cotidiano, o homem comum tem participação limitada pelo sistema de representação, abdicando do exercício direto do poder político.

Há diferentes critérios para a caracterização das elites, e todos podem ser facilmente corrompidos: a elite política, pela massificação dos partidos; a elite intelectual, pela tecnocracia; a elite econômica, pelo poder de compra do dinheiro.

A existência de uma democracia não está associada à inexistência de elites, mas sim ao modo como ascendem ao poder.  Ao longo da História, as Revoluções conduziram apenas à substituição de uma elite dirigente por outra.

Das mais temerárias é a elite de funcionários públicos, controladores da burocracia estatal._

                                                ******* novembro2010

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