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ÉTICA E ESPELHOS

Nílson José Machado

 1 – Sobre espelhos, rostos e crenças

Ver para crer é uma máxima ambígua: também se poderia afirmar que é preciso crer para ver.

Nada traduz mais legitimamente a identidade de uma pessoa do que seu rosto. Não duvidamos de sua existência e até concordamos: os traços fisionômicos revelam a alma, os sentimentos mais profundos. Mas ninguém pode ver diretamente o próprio rosto, como observamos nossas mãos ou nossos pés; só temos acesso a ele recorrendo a intermediários, como fotos ou espelhos.

Muitos objetos científicos somente podem ser estudados de modo indireto, com a ajuda de instrumentos que registram suas presenças por meio de determinados efeitos; os reflexos que determinam em outros objetos são considerados suficientes para caracterizar sua existência.

Situações análogas ocorrem em questões atinentes à espiritualidade e à religiosidade. Nas complexas relações entre o humano e o divino, entre o sagrado e o profano, nem sempre nos damos conta das mensagens indiretas, ou de como a natureza funciona como um espelho de Deus.

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 2 – Ética, Talião e o juiz de futebol

A tentação é forte: fazer aos outros o que eles nos fazem. Bateu, levou. Olho por olho, dente por dente. Lei de Talião. Espelho.

A aparente consonância com a Regra de Ouro – Não faça aos outros aquilo que não gostaríeis que fizessem a ti – serve de conforto. Mas a simetria não conduz à Ética. Mesmo que todo mundo roube, isto não se tornará justo. A Ética pressupõe a decisão unilateral, a assimetria. Uma pessoa íntegra não altera seus juízos, mesmo entre lobos. Em regimes democráticos, o recurso à desobediência civil é o último reduto da integridade pessoal.

Uma situação indiciária é a das leis que não consideramos justas, mas das quais procuramos tirar proveito porque “temos direito”. Quotas, aposentadorias, variados benefícios legais, mesmo rejeitados no nível do discurso, são reivindicados na prática. A Ética se esvai em conveniências.

Como dizia mestre José Mário Azanha, o juiz de futebol não é desonesto apenas quando favorece nosso adversário: também o é quando rouba para nosso time.

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3 – Palavras espelhadas: Autoridade e responsabilidade

Em alguns contextos, é difícil argumentar sobre a necessidade da autoridade para viabilizar a vida em comum. A associação frequente e indevida entre autoridade e autoritarismo é imediatamente ativada, contaminando o discurso e inibindo a assertividade em certos temas.

Um antídoto para tal contaminação é a lembrança de que não existem duas palavras mais inextricavelmente ligadas do que autoridade e responsabilidade. Adentra-se o cenário de um discurso competente sobre a autoridade mais facilmente pela porta da responsabilidade. Quem reluta em assumir a responsabilidade pelas ações de outros nunca poderá exercer qualquer autoridade sobre eles.

A ideia de responsabilidade é um recurso especular absolutamente consistente, uma vez que não existe “autoridade irresponsável”: um descolamento entre as duas noções provoca automaticamente uma destruição mútua.

Uma reflexão sobre a função da autoridade, em qualquer nível, pressupõe, pois, um debruçar-se necessário sobre a responsabilidade inerente.

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4 – Palavras espelhadas: Dádiva e laço

O alerta foi dado por Mauss, em seu seminal Ensaio sobre a Dádiva (1927): a despeito da crescente mercantilização das relações sociais, certos “bens” precisam continuar a circular de forma dadivosa. A vida, a palavra, o voto, a confiança são valores que não circulam por meio de relações de compra e venda. O conhecimento também é reconhecido como um valor que não se deixa apreender completamente pelas relações mercantis.

Mas o elogio da dádiva é visto de modo enviesado pelos defensores do mercado: um discurso sobre o tema parece antiquado ou restrito ao terreno religioso.

Uma especular porta de entrada para um discurso sobre a dádiva pode ser o tema da criação de enlaces humanos, inerentes às relações dadivosas. O motor da dádiva é a criação de laços com os outros: um presente simboliza tal busca e é impossível conceber um ser humano sem vínculos de qualquer natureza. 

Sem dúvida, é mais fácil falar sobre laços do que sobre doações materiais, frequentemente corrompidas pelo deus mercado.

___________________________________Nílson 18/nov/2014

Máscara: pessoalidade, prosopopeia, hipocrisia, violência, pandemia…

Nílson José Machado

njmachad@usp.br

A palavra “máscara” tem uma etimologia interessante: persona, em latim, era a máscara usada pelos atores no teatro. Trata-se de uma palavra derivada de per + sonare, ou “soar através de”. Daí derivam palavras como “personagem”, “personalidade”, “pessoa”. Em sua origem, a ideia de pessoa está associada à representação de papéis. Uma máscara recobrindo a face era usada pelos atores, sempre do sexo masculino, que representavam inclusive o papel de mulheres.

 A ideia principal que sobrevive é a de que nos constituímos como pessoa representando papéis. O primeiro papel que representamos é o de “filho de…” Depois, crescemos à medida que ampliamos e enriquecemos o feixe de papéis que nos cabe representar, como parte da família, da sociedade, como cidadão e como pessoa. Em nossa formação pessoal, construímos uma personalidade que nos identifica como indivíduo com autenticidade: não existem duas pessoas iguais. Na vida social, somos identificados com o feixe de papéis que representamos, ainda que cada pessoa apresente um “fundo insubornável” absolutamente idiossincrático, como bem destacou Ortega y Gasset.

Dois registros circunstanciais: as máscaras sem pinturas, transparentes, sem cera, através das quais se veria a face do ator, estariam, segundo algumas fontes, associadas à ideia de sinceridade. Similarmente, os atores que roubavam os papéis construídos e já representados por outros, satisfazendo-se com a mera imitação, eram chamados de hipócritas.

A propósito de tal relação entre pessoalidade, sinceridade e hipocrisia, o poeta Raimundo Correia lavrou um expressivo soneto:

           MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Uma derivação agro-etimológica-metafórica interessante é a questão de se associar uma pessoa com uma cebola ou com uma alcachofra. Se uma pessoa fosse como uma cebola, pensando os papéis que representamos como as cascas, retirando, uma a uma, nada sobraria ao final, senão lágrimas, talvez. Por outro lado, associando os papéis às pétalas da alcachofra, após a última pétala resta o miolo da alcachofra, que representa o melhor e mais valioso de seu conteúdo. Ao contemplar certas pessoas em situação de abandono, dormindo nas ruas, somos, no entanto, muito mais tentados a pensar cada uma delas, a despeito da ausência quase absoluta de papéis relevantes, como uma alcachofra em potencial, depositária de um miolo valioso, indevidamente não aproveitado.

A palavra latina individuum tem uma etimologia muito mais simples: significa “aquilo que não se divide”. Em grego, a palavra correspondente é atomon, ou aquilo que não se divide, que não se apresenta em “tomos”. Certamente uma pessoa é um indivíduo, no sentido de que não pode ser cindida sem perder sua individualidade, ou mais adequadamente, sua personalidade. Mas certamente a indivisibilidade, que era a característica marcante do átomo na Grécia antiga, não existe mais nos dias de hoje, e certamente não é suficiente para a caracterização da ideia de pessoa como ser social.

Uma curiosidade natural nos conduz à questão de saber se existiria em grego uma palavra correspondente à ideia de pessoa em latim. A etimologia é tributária da cultura e pode nos pregar peças em tentativas de correspondência literal. A ideia de autoridade, por exemplo, auctoritas em latim, não tem correspondência direta em grego. O império romano tornou necessária tal ideia, associada às funções do senado, mas a cultura grega, com sua democracia de pouca extensão territorial passou ao largo de tal noção. No caso da ideia de pessoa, a palavra que mais se aproxima é prosopon, que seria a face de uma pessoa. A derivação mais conhecida é prosopopeia, que representa a associação de feições humanas a animais, como ocorre nas fábulas, por exemplo.

No senso comum, circula com frequência uma conotação negativa da máscara, ou do mascarado como uma pessoa fingida, dissimulada, o que lembra a já citada hipocrisia. O referencial junguiano aproxima-se um pouco da insuficiência ou da limitação da máscara: a ideia de persona se não é isso, é quase isso. No caso das histórias infantis, envolvendo super heróis, a máscara também desempenha um papel que se afasta um pouco da representação de papeis com os outros, para os outros, mesmo no caso dos afeitos aos monólogos, mas sem uma aderência suficiente com a ideia de pessoalidade como representação de papeis, e de personalidade como um feixe coerente de papeis socialmente comprometidos.

Uma análise especialmente interessante sobre a caracterização da pessoa como um complexo feixe de papeis sociais pode ser encontrado no livro Identidade e Violência, de Amartya Sen (2006). A ideia central do livro é generosamente apresentada da primeira à 4ª capa, em praticamente cada página do texto: a fonte de toda a violência no mundo seria, segundo Sen, a unidimensionalidade na caracterização de uma pessoa. A complexidade da pessoalidade exige a consideração do feixe de papeis, sendo a redução de uma pessoa a um dos papeis do feixe uma prerrogativa da própria pessoa, nunca podendo ser exercida pelo arbítrio de alguém, seja quem for. Ao proferir, a propósito de alguém frases como “é um negro”, “é uma mulher”, “é um muçulmano”, omitindo-se outros determinantes relativos aos papeis socialmente desempenhados, abre-se inexoravelmente as portas para a violência. E a aposta maior do autor é a de que toda a violência no mundo decorreria de tal derrapagem epistemológica.

A pandemia que assusta o mundo neste ano de 2020 tem conduzido por vias tortas a uma das ações consideradas quase consensuais: o uso da máscara para minimizar a possibilidade de contágio. A maior ou menor efetividade em tal mister não nos interessa discutir neste momento. Uma pulga atrás da orelha pode surgir no caso de prestarmos atenção a um cálculo realizado por diversos cientistas, inclusive o físico Fermi: a probabilidade de, em nosso próximo suspiro, encontrarmos pelo menos uma molécula do ar que o todo poderoso imperador César respirou, em seu último suspiro, após a brutalidade de que foi vítima é de 100%. Sim, é isso mesmo, não se trata de um engano; lembremos apenas que 100% de chance de ocorrência não quer dizer que o evento certamente ocorrerá, o que somente é válido em espaços amostrais finitos…

Nada disso preocupa, é somente uma curiosidade, uma brincadeira (séria). O que efetivamente incomoda nas máscaras atuais é a aparência de despersonalização, de perda ou limitação na identidade pessoal. Vagamos como zumbis, não acreditamos na maior parte das medidas que nos cerceiam, mas aceitamos trocar parte de nossa liberdade por uma putativa segurança. Assistimos a justificativas que invocam repetidas vezes o apoio da ciência, como se a racionalidade das ações pudesse ser completamente justificada por argumentos científicos, mas a evidência em cada passo é a de que ninguém sabe com sinceridade do que está falando, a expectativa ingênua é a de que os dados falem por si, e entre um isolamento vertical e outro horizontal é certo que não há certeza de coisa alguma. O terror se espalha, o medo fragiliza as reações conscientes, e em terreno tão pantanoso, o exercício do poder fascina, conduzindo sutilmente a uma quase falência do pensamento crítico. Como bem disse Benjamin Franklin, no entanto, “quem troca uma porção de sua liberdade essencial por uma garantia de um pouco mais de segurança, não merece nem uma coisa, nem outra…”

                                             *****29-05-2020

SOBRE ALGUNS DESEQUILÍBRIOS NA APRESENTAÇÃO DA MATEMÁTICA BÁSICA

Nílson José Machado

www.nilsonmachado.net

Resumo

Da noção de número até os fundamentos do cálculo, dos algoritmos computacionais aos conceitos estatísticos, as ideias matemáticas alimentam-se permanentemente de pares de fontes complementares, como os acima mencionados. Entretanto, existe um desequilíbrio patente na
apresentação dos mesmos na escola básica,com uma notável subestimação de alguns dos elementos dos pares referidos. A presença da ideia de aleatoriedade nos currículos certamente não é proporcional a sua importância. Argumentar sobre a necessidade da busca do equilíbrio em
cada um dos casos citados, particularmente no que se refere ao par determinístico/aleatório, é o tema do presente seminário.

Rascunho de Notas

  1. O conhecimento, em todas as áreas, constrói-se a partir de pares conceituais aparentemente antagônicos, como verdadeiro/falso, ordem/desordem, vida/morte, concreto/abstrato, para citar apenas alguns. Em cada caso, a questão fundamental não é a escolha de um dos elementos do par, em detrimento do outro, mas a situação do referidos elementos em determinado contexto, o que nos leva a assumir posições, ou a tomada de decisões em cada circunstância específica. Em geral, em cada contexto, as posições ou decisões decorrem da interseção de várias aparentes dicotomias, e não apenas de uma delas.
  • A própria vida constitui-se a partir da aparente dicotomia Jogo/Projeto: entre a sedutora irresponsabilidade do jogo e a tentação controladora do projeto, obramos, vivemos, fazemos a nossa parte, e entregamos o resto ao determinismo do destino, ao fatalismo da sorte, ou a desígnios de diferentes tipos. Na verdade, o cálculo estratégico e o risco são inerentes tanto ao jogo quanto ao projeto: um projeto “condenado” ao sucesso não é um projeto em sentido próprio, assim como não o é um jogo cujo resultado é totalmente independente das ações estratégicas do jogador. (COMENTAR)
  •  Na Matemática, são fundamentais pares conceituais como discreto/contínuo, finito/infinito, exato/aproximado, determinístico/aleatório, entre outros. Cada um deles encontra-se diretamente relacionado à construção do conhecimento matemático, dos mais elementares aos mais avançados, da noção de número aos fundamentos do cálculo, da geometria elementar aos conceitos topológicos, da combinatória aos conceitos estatísticos.  Avançando um pouco mais nesse diagnóstico, René Thom (1985) chega mesmo a afirmar que “todo o esforço de constituição de uma disciplina estaria ligado à resolução de uma aporia fundadora: preencher o buraco escancarado, objetivo da pregnância constitutiva, com objetos derivados, fruto do acaso histórico, dos riscos da descoberta… “ No caso da Matemática, a aporia fundadora seria “reconciliar a intuição imediata do contínuo com a generatividade – necessariamente discreta – das operações…”    (COMENTAR)
  •  A toda hora, todos os dias, vivemos o embate do par determinístico/aleatório, em nossas ações mais ordinárias. Da previsão do tempo às notícias sobre o trânsito, passando pelas cotações da Bolsa e pelas variações de nossos humores, o modo como tomamos algumas das decisões mais importantes de nossas vidas (namorar ou casar, por exemplo) encontra-se frequentemente impregnado pelo acaso. A Estatística surge como recurso para a projeção em situações onde o acaso predomina, mas a domesticação do acaso não significa, em hipótese alguma, a aniquilação do mesmo.
  • A Estatística ocupa, na Escola Básica, um lugar muito menos destacado do que aquele que sua importância teórica deveria determinar. Nos documentos curriculares oficiais, fala-se com freqüência em “Tratamento da Informação”, o que corresponde a abrir-se pequenas janelas para alguns conteúdos de Estatística. Na verdade, no entanto, todos os conteúdos disciplinares da Escola Básica poderiam – e deveriam, a nosso ver – ser considerados “tratamento da informação”, uma vez que a escola é, fundamentalmente, um espaço para a transformação da informação em conhecimento. (COMENTAR)
  • Os meios de comunicação em geral, e especialmente os computadores, são tributários de uma Teoria Matemática da Informação (Shannon, 1948), inteiramente fundada em conceitos estatísticos. A medida da quantidade de informação de uma mensagem em bits, por exemplo, constitui um tema especialmente interessante para a apresentação de noções como média, esperança matemática, entropia de um repertório. Somente tal fato já justificaria plenamente uma apresentação das idéias básicas de probabilidades e estatística na Escola Básica. (COMENTAR)
  • De modo geral, na Escola Básica, o discreto, o infinito, as aproximações e o aleatório deveriam ocupar um lugar muito mais destacado do que aquele que usualmente ocupam, uma vez que é a tensão entre os pólos dos pares aparentemente antagônicos, mas efetivamente complementares, constitutivos das “aporias fundadoras” reconhecidas por Thom, é o motor que impulsiona a construção do conhecimento matemático, em todas as suas vertentes. (COMENTAR)

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BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA

ATLAN, Henri – O Livro do Conhecimento (V. I – As centelhas do acaso e a vida; V. II – As centelhas do acaso – Ateísmo das Escrituras). Lisboa: Instituto Piaget, 2005.

___________ – Entre o cristal e a fumaça. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992.

CALVINO, Italo – As cosmicômicas. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

MACHADO, N. J. e MACEDO, L. – Jogo e Projeto. São Paulo: Summus Editora, 2006.

SHANNON, E. e WEAVER, W. – The mathematical theory of communication. Urbana: The University of Illinois Press, 1964 (1948).

THOM, René – A aporia fundadora das Matemáticas. In: Enciclopédia EINAUDI, V.43. Porto: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 2001.

___________ – Parábolas e Catástrofes. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.

O perigo das “Evidências”

Nilson José Machado

Quando as certezas se liquefazem e os argumentos se diluem, o recurso às evidências parece o caminho natural para se evitar os riscos de mudança de opinião, inerentes a um debate amplo e rigoroso. Defender um ponto de vista por meio apenas de uma interjeição do tipo “É evidente!”: é aí que mora o perigo.

Uma autoridade educacional declarou recentemente (FSP, 30-12-2018) que, “no campo da educação, há muita evidência daquilo que funciona e traz os melhores resultados”. Em decorrência, anuncia que o Ministério da Educação liderou a criação de uma “Rede de Evidências Educacionais”, composta por “universidades, organismos multilaterais, organizações do terceiro setor e especialistas reconhecidos na área de evidências para a educação”.

A presunção da iniciativa não pode ser nem minimamente disfarçada: além de um uso frágil da palavra “evidência”, proclama-se, como se vê, a existência de “especialistas reconhecidos na área de evidências educacionais”. A caracterização mais bondosa de tal discurso é a de uma enfatuação científica, ingênua como todo cientismo. Nenhuma indicação de exemplos de tais evidências é oferecida ao leitor, a não ser a afirmação, supostamente auto evidente, de que o foco nas evidências representaria um combate aos “achismos”. Ao tentar explicitar mais suas ideias, o autor sugere que evidências decorreriam da possibilidade de um recurso a um adequado banco de dados. Cita, então, um estatístico que teria cometido a pérola seguinte: “sem dados, você é só mais uma pessoa com uma opinião”. Com um só golpe, produz duas anomalias: – reduz-se a ideia de criação, a um mero dar a palavra aos dados e acreditar na “evidência” de que “os dados falam por si”; – pressupõe que é o banco de dados que dá vida às pessoas, e não o oposto. Seria risível, se não tratasse de um tema tão sério.

  A simplificação exacerbada da ideia de “evidência” beira o grotesco. O que é evidente? O que todos estão vendo, não carecendo de qualquer consideração adicional. Mas o que cada um está vendo? Como, afinal, convergem os diversos pontos de vista? Como se fundem os horizontes, para viabilizar o diálogo entre as diferentes visões? Afinal, “theoria” é uma palavra grega que quer dizer justamente “visão”; é a visão que não se resume à mera contemplação, que significa compreensão, apreensão das relações constitutivas do fenômeno observado, aproximando-nos da verdade. Mas a verdade não se confunde com a evidência: muitas coisas verdadeiras não são evidentes, e outras tantas são evidentes, mas não são verdadeiras. Um pequeno poema de Antonio Machado pode traduzir tal fato:

 “En mi soledad

  He visto cosas muy claras

  Que no son verdad.”

A ideia de verdade, no entanto, passa muito longe das análises do autor, que a identifica, ao que tudo indica, ao desvelamento platônico, em total falta de sintonia com as tendências estatísticas anteriormente louvadas.

Baixando a bola ao chão da realidade educacional, parece uma evidência o fato de que faltam professores bem formados para disciplinas do ensino médio como matemática, física etc., mas, por mais que os bancos de dados garantam isso, não é essa a realidade. O fato a ser enfrentado pelas políticas públicas na área da educação é que condições de trabalho inadequadas afastam os professores competentes existentes. Ao longo de décadas, eles foram abdicando das salas de aulas e se ocupando de tarefas mais bem remuneradas em outros espaços do mercado.  Mantidas tais condições de trabalho atuais, quanto mais vem formado é um professor, mais corremos o risco de ele fugir da sala de aula da escola básica. Por outro lado, alterando significativamente tais condições, além de atrair bons alunos universitários para a docência, seguramente propiciaremos o retorno à sala de aula de grande parte daqueles que dela se afastaram por anos a fio.

O ponto nevrálgico, no entanto, de nossa discordância crucial do ingênuo discurso das “evidências”, é o fato de que elas se pretendem conceituais, científicas, mas não passam de ideias preconcebidas, situando-se na antessala dos conceitos. No fato de se recorrer a elas como se fossem conceitos reside o perigo fatal: não tememos ideias preconcebidas, mas quando elas se travestem de conceitos, tornam-se perigosas ou detestáveis, como todos os preconceitos.

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O Conhecimento como um valor: Oito pontos

Nílson José Machado

A crise mundial atual somente aparentemente é causada pelo novo vírus. O cerne da questão é a transformação do conhecimento em mercadoria em sentido industrial. Ninguém sabe mais com nitidez determinar o PIB de um país. O conhecimento é um ativo que posso dar, vender ou trocar sem ficar sem ele.  É um bem que quanto mais uso, mais novo ele fica; é uma commodity da qual não se pode determinar o estoque. É um valor que, diferentemente de bens materiais, não se pode distribuir por decreto: o único meio de partilhar conhecimento é a Educação.

Oito pontos principais a serem lembrados, numa reconstrução da ideia de conhecimento como um valor:

  1. Salário não é renda, não deveria sê-lo.

De quem vive de salário não se diz que “vive de rendas”. Viver de rendas é viver de dinheiro produzido por dinheiro, como no caso das aplicações financeiras. Pode ser economicamente justo fazer dinheiro render dinheiro, mas é significativamente diferente de viver de seu salário, fruto de seu trabalho.

  • Renda não é tudo

Em diversos países do mundo, os juros oferecidos ao capital são muito baixos; em alguns casos, os juros são negativos, ou seja, paga-se ao capital empregado nominalmente menos do que se custou seu empréstimo, desde que ele seja utilizado para produzir empregos, para semear atividades socialmente relevantes.

  • O Mercado é fundamental, mas não basta.

Em todo o mundo, relações dadivosas entrelaçam-se com relações mercantis. Não vivemos apenas de compras e vendas de mercadorias em sentido industrial. As relações mercantis convivem com as relações dadivosas, que buscam o laço com os outros. O mercado mais agressivo não sobrevive sem uma estrutura de dádivas simuladas, de presentes dissimulados, como tão bem explicita o calendário anual de vendas, em que sobrelevam datas como “dia das mães”, “dia dos pais”, “dia das crianças” etc.

  • A utilidade, paulatinamente, dá lugar ao significado.

Um poema não é útil: ele expressa, significa, nos faz sentir. De modo geral, a arte significa, e as movimentações produzidas pelo mercado da arte não passam de uma pálida ideia do significado da arte. No mundo do trabalho, ainda que se busque continuamente uma articulação entre o prazer no que se realiza e o sucesso financeiro, o significado das ações que realizamos é mais importante do que os bens materiais delas derivados. Platão caracterizava o escravo como alguém que não tem projetos, que vive para realizar o projeto dos outros. Na Grécia antiga, os escravos não tinham salário; atualmente, ter ou não ter salário é um pormenor.

  • A integração entre os universos do Conhecimento e da Economia é total

No período industrial (1750-1950), a marca das relações entre o mundo do conhecimento e o da economia era a aplicabilidade: estudar matérias era fundamental para aplicá-las ao mundo do trabalho. Tal período foi ponte de passagem para a transformação do conhecimento em mercadoria em sentido industrial. Hoje, vivemos na antessala de um novo período, em que o conhecimento é o principal fator de produção: o grande desafio é não identificar as noções de valor e de preço, ou a ideia de valor em sentido econômico e no terreno da Ética.

  • O futuro do Trabalho é a Educação

Na Grécia antiga, um pai não diria ao filho “estudar para garantir um bom emprego”: os universos do Trabalho e da Educação eram desconectados. Hoje, a integração entre os universos do conhecimento e do trabalho conduz ao fato de que aprendemos continuamente, toda formação é uma formação inicial. À Escola compete fornecer uma formação básica em competências gerais como capacidade de análise, de síntese, de argumentação para a tomada de decisões, de articulação entre a realidade e a imaginação. A aprendizagem do manuseio de ferramentas tecnológicas específicas dar-se-á cada vez mais no universo do trabalho, ainda que muitas empresas ainda ensaiem reclamar de que os alunos seriam carentes de tal formação. Soa um pouco cínica a ideia de que uma universidade tenha como função ensinar o uso específico de tais ou quais equipamentos: decisivamente, isso se aprende no trabalho.    

  • Na relação com a Tecnologia, o ser humano é o valor fim.

Sobretudo no que se refere à repartição do tempo, aos novos ritmos de ação/atuação, não é possível tergiversar: as tecnologias são e serão sempre da ordem dos meios: o valor fim será sempre o ser humano. Se seu coração está batendo cada vez mais rapidamente, não pense que estaria tendo um upgrade, uma melhoria no chip… busque um médico. Meu computador não tem, e nunca terá, grilos existenciais associados a perturbações em seu “projeto de vida” pelo simples fato de que ele não tem projeto, nem vida.

  • Não é possível ignorar o renascimento da ideia de profissionalismo.

Em todo o mundo, renasce a ideia simples de que a vida junto com os outros não pode prescindir, na organização social da noção de profissionalismo. Um profissional é membro de um tipo de ocupação, vital para a vida social, que não pode ser regulada inteiramente pelo mercado, nem pelo Estado: são os profissionais. A marca do profissionalismo é a existência necessária de instâncias de autorregulação entre o mercado e o Estado. Em momentos de crise social como a que vivemos atualmente, em termos ideais, sobressaem profissões como bombeiros, médicos, enfermeiros, políticos, entre outras, caracterizando espaços de ação em que a competência técnica se alia ao compromisso público, ao assumir as responsabilidades inerentes às ações realizadas.

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LeR, EscreverR e ContaR: Os três “R”s revisitados

Microensaios

Nílson José Machado

                       SUMÁRIO

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1 – Competências ontem e hoje: duas vias

2 – A leitura, a escrita, o luxo

3 – Ler o mundo

4 – A leitura, a escrita e os genes

5 -A leitura, a escrita e o estrogonofe

6 – Conhecer e/é narrar

7 – Escrever, contar

8 – Cadeias, redes, narrativas

9 –  Sobre a leitura

10 – Ler, escrever

11- Livros, mundos, macacos, espelhos

12- Ler, escrever, contar revisitados

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1 – Competências ontem e hoje: duas vias

Estudamos muitas matérias, na escola: a fragmentação disciplinar é uma marca de nossos tempos. A perda do sentido decorrente conduziu o discurso pedagógico ao elogio das competências. As disciplinas são meios; as competências pessoais são a meta. Durante muito tempo, uma boa formação escolar significava saber ler, escrever e contar. Hoje, as competências básicas precisam ser atualizadas.

Duas vias podem ser percorridas, com esse objetivo. Numa delas, a antiga tríade é substituída por pares como expressão/compreensão, argumentação/decisão, contextuação/imaginação. Competente é quem se expressa bem, mas compreende o outro; argumenta com  capacidade analítica, mas é capaz de elaborar sínteses e tomar decisões; refere o que aprende na escola a múltiplos contextos, mas tem uma imaginação vigorosa, capaz de extrapolar todos os contextos.

Outra via seria uma reinterpretação dos termos da tríade ler/escrever/contar. Afinal, cada uma dessas competências, hoje, tem um significado muito mais amplo.

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          2 – A leitura, a escrita, o luxo

Ler, escrever e contar é o que deveria resultar dos estudos escolares, diziam antigamente. No antigo Egito, a leitura era ensinada a todos, mas o ensino do cálculo não era generalizado e a escrita era destinada apenas aos filhos das classes dominantes. Em Roma, os escravos que conduziam tais crianças à escola eram chamados “pedagogos”. Em latim, paidòs é criança, e agogòs, condutor. Os pedagogos aprendiam a escrita para poder ajudar as crianças em seu aprendizado.

Hoje, é incompreensível uma dissociação entre a leitura e a escrita. A expressão de si e a compreensão do outro são competências complementares. Ler é fundamental para seguir regras com consciência, mas a expressão pessoal é vital, e a escrita é essencial para isso. A oralidade esvanece, a escrita permanece. Animais comunicam-se oralmente; a peculiaridade do ser humano reside na escrita. 

É preciso ler e compreender o mundo, mas, na escola da vida, temos que assinar o livro de presença. Decididamente, a escrita não é um luxo.

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3 – Ler o mundo

Para nossos avós, era simples assim: estudamos muitas matérias, mas precisamos sair da escola sabendo leR, escreveR e contaR. Tínhamos que demonstrar competência nos chamados três “R”s.

Hoje, os tempos são outros e os três “R”s já não parecem bastar. Antigamente, podíamos ser apenas analfabetos na língua materna; hoje, podemos ser polianalfabetos: em informática, em ciências, em política, em economia…

Diante da multiplicidade de conteúdos disciplinares apresentados na escola, teorias sobre competências buscam uma nova tríade, uma visão sintética das competências pessoais para substituir os três “R”s, que teriam caducado.

Uma brecha pode ser aberta em tal análise: não seria o caso de buscarmos uma revitalização das antigas competências? No fundo, tudo o que buscamos na escola é aprender a ler, escrever e contar; ocorre que, hoje, são outros os significados de tais ações. É preciso ser capaz de mais do que ler um texto; na expressão de Paulo Freire, estudamos para aprender a ler o mundo.

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       4 – A leitura, a escrita e os genes

A expectativa da ciência biológica é decifrar o código genético e produzir remédios decisivos para manter a vida, e, quem sabe, criá-la. Com muita euforia, há uma década, foi anunciado um esquema inicial para a leitura de cadeias de DNA, complexos textos com bilhões de “letras” químicas. Atualmente, as instituições de pesquisa armazenam mais de 270 bilhões de pares de bases de DNA. Descobriu-se ainda que, no universo das dezenas de milhares de genes que codificam as proteínas, existem múltiplos modos de leitura para cada conjunto de letras. E ainda estamos no terreno da leitura.

A produção de remédios e a interferência direta nos processos vitais exigem mais do que a decifração, ainda longe de ser completada: elas dependem muito mais da capacidade de expressão escrita nesse complexo código. Quanto a isso, permanecemos como os escravos, a quem era permitido aprender a ler para bem cumprir ordens. As ambiciosas metas anunciadas pela ciência biológica dependem de engenho e arte na escrita.

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        5 – A leitura, a escrita e o strogonoff

Certa vez li um texto jornalístico intitulado “Os juros, as exportações e o futebol”. Li com atenção até o final, acompanhando a argumentação do autor sobre as correlações entre os dois primeiros elementos do título. Não percebi, explícita ou tacitamente, qualquer referência ao futebol. Imediatamente, reli o texto, e voltei a lê-lo uma terceira vez, e nada do ludopédio. Por vias tortas, compreendi que o autor me pregara uma peça retórica, ao nomear o texto: o futebol não deveria ter sido levado a sério.

São múltiplas as funções de uma palavra em um texto: denotar, conotar, reforçar, sugerir, dissimular, conectar, emocionar, atrair, disfarçar, distrair, entre outras. A atenção do leitor é o fim de todos os esforços. Quem escreve quer ser lido. Não vale ser hipócrita. Não valem o descompromisso com a verdade, a falta de integridade. Vale muito buscar construir a visualidade em dupla mão: da imaginação ao papel, do papel à imaginação.

A retórica é importante, quando não é apenas retórica.

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6 – Conhecer e(é) narrar

Ignaro é uma palavra de nosso léxico, com o significado de sem instrução, que nada sabe, mas os dicionários não registram o que seria seu antônimo, gnaro. Na raiz de ambas está gnósis (grego), que dá origem a gnose (conhecimento, ato de conhecer). Ignorante, prognóstico, diagnóstico, agnóstico são derivações conhecidas e utilizadas. Derivações de gnaro também são muito conhecidas, mesmo sem a indicação da origem. De gnarus e gnare  derivam narrare e narrar. Em diversos sentidos, o ato de conhecer está associado a narrar.

De fato, conhecer é construir o significado e o modo canônico de construção de significados é a articulação de narrativas. Em A Cultura da Educação, Jerome Bruner registra que, na formação pessoal e na construção do conhecimento em geral, é apenas no modo narrativo que um indivíduo pode criar uma identidade e encontrar um lugar na sociedade; o próprio processo de fazer ciência é narrativo.

Conhecer, significar, narrar: eis o tripé a sustentar a trama e o sentido da vida.

7 – Escrever, contar

Em quase todas as línguas, o verbo contar tem dupla acepção: enumerar ou narrar. Ao contarmos uma estória, a sucessão dos eventos é decisiva para seu significado. As mesmas frases em diferentes ordens produzem narrativas diferentes:

Estória 1                                                                     Estória 2

 “João faltou à escola.                         “A professora repreendeu João.

A professora repreendeu João.”         João faltou à escola.”       

Existe, pois, um paralelismo entre enumerar e narrar. A História é uma matriz básica para a elaboração de narrativas significativas. Conhecer é construir o significado, o que somente se dá por meio de narrativas. Um professor competente é um bom contador de estórias, e boas estórias são enraizadas um contexto, de onde extraem viço e vigor.

Uma razão decisiva para o sucesso de Paulo Freire na educação de adultos é o fato de que ele nunca subestimou a importância das histórias de vida dos educandos, extraindo delas elementos para a construção de narrativas significativas.

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8 – Cadeias, redes, narrativas

As imagens de encadeamentos lógicos e de redes de significações são muito frequentes na construção do conhecimento. Quase sempre as acompanha uma visão caricata do ato de encadear e um elogio fácil da ideia de tecer, enredar. Uma vaga ideia de complexidade contribui para tornar as redes objetos do desejo e alimentar slogans ingênuos contra encadeamentos. 

Para equilibrar o jogo entre cadeias e redes, cresce a cada dia a força e a importância da ideia de narrativa. Toda narrativa é uma trama bem tecida que instaura uma temporalidade rigorosamente fundada no encadeamento. “A economia perdeu o rumo. O presidente renunciou ao cargo. A crise instalou-se no país”, ou “A crise instalou-se no país. O presidente renunciou ao cargo. A economia perdeu o rumo” são duas narrativas com significados distintos.

As narrativas são como fecundas sínteses entre as ideias de cadeia e de rede. Expulsas como intrusas do baile das redes, as cadeias ressurgem, sedutoras como sereias, nos braços das narrativas.

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 9 – Sobre a leitura

Muito cedo aprendemos a falar: ler, escrever e contar são competências que desenvolvemos na escola.

 A oralidade nos introduz no mundo das conversas com interlocutores fisicamente presentes: a leitura amplia nossos horizontes, possibilitando a interação com quem está longe, ou até já se foi. A escrita confronta a evanescência da fala, criando condições para a consciência e a reflexão crítica. O contar se expande, das enumerações ao faz de conta, das cronologias às narrativas portadoras de significados. As tecnologias criam novos sistemas de proximidades, novas espécies de conversação, novos parâmetros para a leitura, a escrita, a contagem/narrativa. Hoje, os textos flutuam na tela, as imagens são móveis, os sons, que apenas imaginávamos, explicitam-se.

Em todos os lugares, imagens, palavras, sons, sensações entrelaçam-se e alimentam-se mutuamente. O mundo transformou-se em um imenso texto, um complexo hipertexto, desafiador como uma esfinge. Decifrá-lo é tarefa reservada a bons leitores.

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10 – Ler, escrever

Em geral, aprendemos a ler antes de aprender a escrever e lemos um texto que não escrevemos. Apreciamos a expressão do outro antes de aprendermos a nos expressar por escrito. No antigo Egito, a leitura era ensinada a todos, mas a escrita era destinada apenas aos filhos das classes dominantes. Hoje, escrever e ler são competências complementares. Escrever é expressão de si; ler é compreensão do outro.

As tecnologias amplificam as possibilidades da leitura e da escrita: é preciso saber explorá-las. Tal como a forma soneto, criada por Petrarca, no Renascimento, não eliminou os grandes poemas, recursos sintetizadores da escrita como emails, tweets etc são formas de expressão que favorecem a compreensão, quando a alma não é pequena.

Uma atualização do significado da escrita deve situá-la como par complementar da leitura, na construção do modo dialógico de ser. Na perspectiva de Paulo Freire, o diálogo é constituinte do modo de ser do ser humano. Aprender a escrever é, então, aprender a ser.

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      11 – Livros, mundos, macacos, espelhos

Livros são janelas abertas para o mundo: mundo dos fatos, dos factos, do que já foi feito, e mundo dos fictos, do imaginado, do que buscamos realizar. Limitar-se à realidade imediata é entregar-se ao fatalismo; entregar-se ao universo ficcional é fugir da realidade. Realidade e ficção interconectam-se, interpenetram-se e integram-se continuamente no universo dos livros. São como duas pernas a nos fazerem caminhar.

A leitura é sempre estimulante, e qualquer livro é melhor do que nenhum livro. A incompreensão da importância dos livros e da leitura na formação pessoal revela apenas as limitações de quem a exibe. A leitura não dá sono, ela nos desperta, ela amplifica a capacidade de sonhar.

Com ironia, diz-se que os livros não transformam o mundo, transformam apenas as pessoas; as pessoas é que transformam o mundo. O poder de um livro, no entanto, reflete apenas a força de seus leitores: como bem ressaltou Lichtenberg, se um macaco nele se debruça, não pode ver refletida a imagem de um anjo.

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12 – Ler, escrever, contar revisitados

A tecnologia é onipresente e a escola tem incorporado cada vez mais seus recursos, mas as competências básicas que nela desenvolvemos ainda podem ser bem representadas pela tríade ler, escrever e contar, devidamente reinterpretada.

Ler é mais do que compreender um texto, que é o primeiro outro que se põe diante de nós: é ler o mundo, compreender fenômenos de modo geral, sejam eles naturais, sociais, econômicos, históricos, geográficos etc.

Escrever é mais do que redigir um texto com o próprio punho: é ser capaz de expressar-se em diferentes linguagens, buscando permanentemente a comunicação e o diálogo, o que nos torna efetivamente humanos.

Contar é mais do que enumerar ou fazer contas; é ser capaz de construir narrativas significativas: dos cases aos “causos, elas constituem a arquitetura básica do conhecimento em todas as áreas.

Como educador competente, Paulo Freire aponta, em sua obra, para tal ampliação de horizontes; em decorrência, seu pensamento permanece mais vivo do que nunca.

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Referências Bibliográficas

BURNS, James H. – The new 3Rs in Education: Respect, Responsibility and Relationships. Booksurge Publishing, 2008 (kindle edition)

SMITH, Daniel – Reading, wRiting and aRithm3tic. Mastering the three Rs of an old-fashioned way.London: Michael O´Mara Books Limited, 2013

****** SP/maio2013

Vírus na Biologia e vírus do Computador

BIOLOGIA: UM VÍRUS É UM PARASITA

Um vírus é um reles pedaço de molécula, é menos do que uma célula. Segundo a maioria absoluta das definições, não constitui um ser vivo, não é sequer uma bactéria. Seu diâmetro é da ordem de nanômetros (10-9m): um ser humano é, em média, 10 milhões de vezes maior do que cada um deles. Se um vírus fosse do tamanho de uma bola de tênis, um ser humano teria uma altura aproximada de 800 km.

Vírus não são seres vivos porque não se alimentam, não respiram, não se locomovem, não se reproduzem sozinhos: precisam de um hospedeiro para nele se alojar. São minúsculos oportunistas, misteriosos, invisíveis, solertes, traiçoeiros, dissimulados, ínfimos, mas podem ser fatais. Ao capturarem o hospedeiro que os viabilizam como seres vivos, não colaboram com ele, mas sim o corrompem, submetem-no a seus desígnios, agindo como verdadeiros parasitas.

Em momentos de crise como a que vivemos, a dimensão trágica das epidemias e/ou pandemias pode sublinhar possíveis lições epistemológicas ou filosóficas associadas aos processos virais, mas não pode mitigar minimamente a lição maior: vírus não colaboram, parasitam, corrompem, servem-se do outro de maneira predatória.

Nas relações humanas, não nos completamos sem o outro, mas colaborar, cooperar, partilhar projetos e valores são instâncias decisivas, muito distintas dos processos virais. Encontros entre seres humanos em que um dos lados não apresenta as marcas de um ser vivo, em que o completamento do invasor é absolutamente oportunista são doentios, são geradores de endemias. Na vida em sociedade, a existência de parasitas oportunistas, que submetem as configurações do hospedeiro aos desígnios viróticos é a maior das pragas a ser evitada.   

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O VÍRUS NA BIOLOGIA E O VÍRUS DE COMPUTADOR

O vírus na Biologia é um elemento oportunista que não tem vida própria, invadindo um ser vivo, o hospedeiro, que é absolutamente corrompido em sua natureza e passa a servir aos desígnios viróticos. Um vírus de computador não é um programa, mas invade programas em funcionamento, corrompendo a execução da tarefa que previsivelmente realizava. No que segue, vamos tentar explicitar a relação entre as duas acepções, que praticamente torna uma delas uma metáfora da outra.

Ao longo do período industrial, uma máquina é um instrumento que transforma energia de um tipo em outro: energia elétrica em mecânica, mecânica em elétrica, térmica em mecânica, química em elétrica, e assim por diante. Um computador é uma máquina em sentido distinto do período industrial: ele opera transformando mensagens. A mensagem de entrada é introduzida por um programador; ela traduz em linguagem de máquina algum tipo de questão. Após as operações realizadas, obtemos uma mensagem de saída que, adequadamente interpretada, nos informa sobre a questão inicialmente proposta. A mensagem de entrada é a tradução na linguagem formal da máquina de uma questão expressa na linguagem corrente. Traduzir a linguagem ordinária para a linguagem da máquina é uma tarefa realizada por um programador, que precisa decompor o significado da questão em etapas simples, binárias, logicamente encadeadas, compondo o que se chama um algoritmo. Existem diferenças fundamentais entre a linguagem ordinária e a linguagem na qual a mensagem será introduzida no computador. A língua nossa de cada dia é ambígua, imprecisa, rica em conotações, aberta a múltiplas interpretações. A linguagem a ser utilizada pelo programador, por sua vez, deve ser precisa, sem ambiguidade ou conotações. Programar um computador significa traduzir uma questão expressa na linguagem ordinária em uma sequência de comandos encadeados logicamente. Cada comando a ser executado deve resultar de uma escolha entre duas possíveis, e somente duas, em cada passo. Em outras palavras, a linguagem da programação é binária; em cada passo a dúvida no encadeamento é a correspondente a uma escolha do tipo Sim ou Não, Zero ou Um, Verdadeiro ou Falso, e assim por diante. Um programa bem construído não deixa espaço, em seus degraus de comando, para uma terceira possibilidade, não pode permitir aberturas ou interpretações que extrapolem escolhas binárias prefiguradas.

Ocorre que a linguagem ordinária, a língua nossa de cada dia não é binária, mas sim multivariada, o que revela, ao mesmo tempo, riqueza para os apreciadores da língua, e imprecisão para os que buscam a rigidez e a assepsia da linguagem de programação. Se afirmo que “Tudo o que é barato é raro, tudo o que é raro é caro, logo, tudo o que é barato é caro”, então temos uma brincadeira que pode ser interessante como piada, mas que é irrelevante do ponto de vista lógico.

De modo geral, a ciência costuma fundar-se na linguagem binária da lógica, desprezando as curiosas aberturas proporcionadas pela polissemia da linguagem ordinária. Apesar de se tratar de fato científico a impossibilidade da redução a um algoritmo, ou seja, a uma sequência estruturada de pequenas tarefas binárias, na programação de computadores, uma suposição presunçosa é a da possibilidade de tradução de qualquer questão da linguagem ordinária nas estruturas da lógica binária. Um programa bem construído não pode deixar espaço para tergiversações na passagem de uma linha da programação para a linha seguinte. Tal presunção, naturalmente, pode falhar, aqui ou ali, e é justamente aí que reside a possibilidade da criação de um vírus de computador.

De fato, um programador competente, que sabe explorar as ambiguidades e a riqueza da linguagem ordinária, pode ser capaz de reconhecer, em dada etapa da linguagem de programação, uma sutil abertura na presunção binária, vislumbrando a possibilidade de inserir um comando alternativo em um local em que o par binário V ou F não seja suficiente para conter o significado da questão proposta. Um tal comando pode provocar, então, um desvio, remetendo a sequência de comandos para outros caminhos, dali para a frente. O pequeno comando alternativo não constitui um programa, tanto quanto um vírus não é uma célula, mas associado ao programa original passa a constituir um novo programa, que pode ser devastador no que respeita às intenções do programa original. O comando associado a tal pequeno desvio é chamado de vírus de computador, justamente em decorrência de sua similaridade com a corrupção de um programa biológico que um vírus stricto sensu representa.

A criação de um vírus de computador é considerada uma prova de competência do programador, que mantém um consciência plena da complexidade da linguagem ordinária, sendo capaz de reconhecer sua riqueza, ou a impossibilidade de redução da formulação de qualquer tarefa no formato de uma sequência micro tarefas binárias, ou seja, a redução de qualquer tarefa a um algoritmo. Uma prova disso é o fato de que, em alguns cursos de ciências da computação, para concluir o curso e mostrar que está formado, um aluno precisa demonstrar que é capaz de criar um vírus pra chamar de seu…

                          *****nílsonjosémachado 28-04-2020       

Pandemia e Educação: o busílis da questão

Vivemos uma crise civilizatória profunda, explicitada pelo novo coronavírus, mas sugerida ou anunciada já há alguns anos por diversos indícios, em diferentes contextos.

Um exemplo notável de tais indícios, associado ao uso crescente das redes informacionais, é uma identificação indevida entre as noções de links e de laços, bem como uma crescente promiscuidade nas relações entre o público e o privado, com naturais implicações de natureza ética., especialmente no terreno da vergonha,

Outro indício eloquente de crise sistêmica é o desequilíbrio crescente na distribuição de bens e serviços, o que tem provocado em quase todos os lugares uma desvalorização do trabalho humano e um aumento indecente na desigualdade econômica.

 Uma busca acrítica e desesperada pelo crescimento econômico e pela inovação a qualquer custo, como se o novo constituísse um valor em si, e uma expectativa de sustentabilidade absolutamente irreal, uma vez que, de modo geral, a vida não é sustentável, e um crescimento tumoral nunca é desejável. 

Com o advento do coronavírus, essas e outras questões se entrelaçam e a crise latente se agiganta e parece conduzir ao desespero; os problemas básicos, no entanto, já estavam aí, bem nítidos, diante de nossos olhos.

Para sobreviver à crise ampla e irrestrita, alimentamos a expectativa de que tudo vai passar, tudo vai voltar ao normal, mas o caminho não parece ser por aí.

Voltar simplesmente à situação anterior ao vírus é pouco, é inserir-se na velha trama e esperar pela eclosão de nova crise, que inevitavelmente virá, quem sabe, com um novíssimo vírus a ser decifrado. Não podemos perder a oportunidade de aprender com a profunda crise, de articular elementos para construir um novo “normal”; restabelecer as relações que já vivenciávamos no passado recente não parece aceitável, é contentar-se com muito pouco.

Uma consciência mínima sobre a natureza da crise atual aponta para a transformação do conhecimento com principal fator de produção, o que traz implicações profundas na compreensão das relações entre Ética, Economia e Educação.

De fato, a crise mundial atual somente aparentemente é causada pelo novo vírus. O cerne da questão é a transformação do conhecimento em mercadoria em sentido industrial. Ninguém sabe mais com nitidez determinar o PIB de um país. O conhecimento é um ativo que posso dar, vender ou trocar sem ficar sem ele.  É um bem que quanto mais uso, mais novo ele fica; é uma commodity da qual não se pode determinar o estoque. É um valor que, diferentemente de bens materiais, não se pode distribuir por decreto: o único meio de partilhar conhecimento é a Educação.

Algumas lições aprendidas ao longo da crise atual precisam articular-se e ganhar consistência no novo cenário que poderá advir. Sobre algumas delas serão esboçadas algumas referências a seguir. Oito pontos principais a serem lembrados; não por acaso, cada um deles tem a ver com uma reconstrução da ideia de conhecimento como um valor:

  1. A integração entre os universos do Conhecimento e da Economia é total

No período industrial (1750-1950), a marca das relações entre o mundo do conhecimento e o da economia era a aplicabilidade: estudar matérias era fundamental para aplicá-las ao mundo do trabalho. Tal período foi ponte de passagem para a transformação do conhecimento em mercadoria em sentido industrial. Hoje, vivemos na antessala de um novo período, em que o conhecimento é o principal fator de produção: o grande desafio é não identificar as noções de valor e de preço, ou a ideia de valor em sentido econômico e no terreno da Ética.

  • O futuro do Trabalho é a Educação

Na Grécia antiga, um pai não diria ao filho “estudar para garantir um bom emprego”: os universos do Trabalho e da Educação eram desconectados. Hoje, a integração entre os universos do conhecimento e do trabalho conduz ao fato de que aprendemos continuamente, toda formação é uma formação inicial. À Escola compete fornecer uma formação básica em competências gerais como capacidade de análise, de síntese, de argumentação para a tomada de decisões, de articulação entre a realidade e a imaginação. A aprendizagem do manuseio de ferramentas tecnológicas específicas dar-se-á cada vez mais no universo do trabalho, ainda que muitas empresas ainda ensaiem reclamar de que os alunos seriam carentes de tal formação. Soa um pouco cínica a ideia de que uma universidade tenha como função ensinar o uso específico de tais ou quais equipamentos: decisivamente, isso se aprende no trabalho.   

  • A utilidade, paulatinamente, dá lugar ao significado.

Um poema não é útil: ele expressa, significa, nos faz sentir. De modo geral, a arte significa, e as movimentações produzidas pelo mercado da arte não passam de uma pálida ideia do significado da arte. No mundo do trabalho, ainda que se busque continuamente uma articulação entre o prazer no que se realiza e o sucesso financeiro, o significado das ações que realizamos é mais importante do que os bens materiais delas derivados. Platão caracterizava o escravo como alguém que não tem projetos, que vive para realizar o projeto dos outros. Na Grécia antiga, os escravos não tinham salário; atualmente, ter ou não ter salário é um pormenor.

  • Valorizar o conhecimento é valorizar o trabalho.

Em todas as suas formas, o trabalho é o motor da ação humana, é o meio principal de construir o significado da vida. Entre outros problemas, a concepção de trabalho tem mantido uma relação promíscua com a ideia de renda. Uma questão a ser considerada é o fato de que trabalho não é renda: de quem vive de salário não se diz que “vive de rendas”. Viver de rendas é viver de dinheiro produzido por dinheiro, como no caso das aplicações financeiras. Pode ser economicamente justo fazer dinheiro render dinheiro, mas é significativamente diferente de viver de seu salário, fruto de seu trabalho.

  • Renda não é tudo

Em diversos países do mundo, os juros oferecidos ao capital são muito baixos; em alguns casos, os juros são negativos, ou seja, paga-se ao capital empregado nominalmente menos do que se custou seu empréstimo, desde que ele seja utilizado para produzir empregos, para semear atividades socialmente relevantes.

  • O Mercado é fundamental, mas não basta.

Em todo o mundo, relações dadivosas entrelaçam-se com relações mercantis. Não vivemos apenas de compras e vendas de mercadorias em sentido industrial. As relações mercantis convivem com as relações dadivosas, que buscam o laço com os outros. O mercado mais agressivo não sobrevive sem uma estrutura de dádivas simuladas, de presentes dissimulados, como tão bem explicita o calendário anual de vendas, em que sobrelevam datas como “dia das mães”, “dia dos pais”, “dia das crianças” etc.

  • Na relação com a Tecnologia, o ser humano é o valor fim.

Sobretudo no que se refere à repartição do tempo, aos novos ritmos de ação/atuação, não é possível tergiversar: as tecnologias são e serão sempre da ordem dos meios: o valor fim será sempre o ser humano. Se seu coração está batendo cada vez mais rapidamente, não pense que estaria tendo um upgrade, uma melhoria no chip… busque um médico. Meu computador não tem, e nunca terá, grilos existenciais associados a perturbações em seu “projeto de vida” pelo simples fato de que ele não tem projeto, nem vida.

  • Não é possível ignorar o renascimento da ideia de profissionalismo.

Em todo o mundo, renasce a ideia simples de que a vida junto com os outros não pode prescindir, na organização social da noção de profissionalismo. Um profissional é membro de um tipo de ocupação, vital para a vida social, que não pode ser regulada inteiramente pelo mercado, nem pelo Estado: são os profissionais. A marca do profissionalismo é a existência necessária de instâncias de autorregulação entre o mercado e o Estado. Em momentos de crise social como a que vivemos atualmente, em termos ideais, sobressaem profissões como bombeiros, médicos, enfermeiros, políticos, entre outras, caracterizando espaços de ação em que a competência técnica se alia ao compromisso público, ao assumir as responsabilidades inerentes às ações realizadas.

SEED/SEMA 1ºsemestre 2020

Data
SEED 14h-16h
TEMAS

SEMA 16H30-18h
TEMAS
27/marçoNílson José Machado
Locke, Leibniz, web: sobre usos e abusos das palavras
Paulo Bedaque
Das lentes astigmáticas às perfeitamente estigmáticas: de descobridor a plagiador
03/abrilLuís Carlos de Menezes
Ética da Aventura
Nílson José Machado
Língua, Lógica, Matemática: entrelaçamentos
FERIADO
17/abrilSocorro Sarkis
Ética do Mérito
Hugo Rojas
Reflexões sobre a Formação do Professor de Matemática
24/abrilMárcio Simões
Determinismo e Liberdade em Spinoza, Hume e Nietzsche
Mário Almeida
Complexidade: A linguagem funcional e o fechamento algébrico (ou Edgar Morin na prática da sala de aula
01/maioFERIADO
08/maioHugo Rojas
Metáforas e Alegorias na sala de aula
DEBATE
Matemática: Área do Conhecimento ou Disciplina?
15/maioLívia Deodato
Escambo de Talentos: Balanço de uma experiência
Valdemar W. Setzer
A Máquina de Turing e o que os computadores podem e não podem fazer
22/maioMarisa Ortegoza da Cunha
George Steiner e as Lições dos Mestres
DEBATE
Amostras, Certezas, Incertezas, Estatísticas
29/maioEdsel P. Diebe/Lucas S. Cobello
"Penso, logo existo" é um círculo vicioso? O raciocínio dedutivo em Descartes
Hideo Kumayama/Fabiano Siqueira/Jozami Ferreira
Poliedros Regulares Platônicos: Novas ideias sobre o Origami
05/junhoValdemar W. Setzer
Uma introdução ao livro "A Filosofia da Liberdade", de Rudolf Steiner
Cristiane Pavolaro
A Plataforma Arduíno na Educação: potencialidades
EMENDA DE FERIADO
19/junhoPaulo Bedaque
Poseidon: o deus dos sete mares
José Luiz Pastore Mello/Elivelton Santos Souza
Google, computadores, emprego: o que devemos ensinar em Matemática?
26/junhoRicardo Tescarolo
A Energia Espiritual de Henri Bergson
CONFRATERNIZAÇÃO
FREQUÊNCIA LIVRENÃO É NECESSÁRIA INSCRIÇÃO PRÉVIATEXTOS/INFORMAÇÕES NO SITE
www.nilsonjosemachado.net

KURSK

Como no princípio,

Uma explosão gerou a ordem:

Salve-se quem puder.

Quem poderia?

Ocupados como estávamos

Cansados de fazer tão nada,

Mas tanto, mas tanto, quem poderia?

Não fora a explosão, quem notaria

Nossa cotidiana clausura?

Que fazíamos nós naqueles mares frios?

Que buscávamos?

Como na vida, apenas lá estávamos

No ventre de escura baleia,

Feia, rígida, mórbida, sinistra.

Sem a alegoria hígida de Jonas

Singrávamos mares sombrios

Em busca, meu Deus, de quê?

De repente, o ruído e a luz,

Tudo muito rápido, breve como o átimo

Entre a chegada e a partida, breve como a vida.

A chegada, ah, a chegada!

A luz também se fez na chegada,

Não foi tão diferente.

Também foi breve o brilho e a explosão

Na transição entre os escuros mares

De onde viemos e onde mergulhamos.

No fundo, a luz foi como na partida

Que nos levou à vida, ao pé na estrada

E ao fundo, a esta símile chegada

Antes, depois e no meio, houve densa escuridão…

Agora, pelo menos não estamos sós,

Estamos cercados de amigos

Pouco mais de cem, quem precisa de mais?

Alguns já não falam mais conosco,

Têm os olhos fixos, baços, duros,

Ou mansamente fechados.

Coniventes com tantos desequilíbrios,

Não partilham mais suas esperanças.

Alguns estão mortos, e daí?

Fora desta imensa baleia,

Lá em cima, à luz do sol e da lua,

Também há muitos mortos,

Caminhando celeremente,

Como clones de tantos falsos ídolos.

Lá fora, lá em cima, lutam contra o tempo,

Correm por nós, choram por nós,

Contam as horam, fazem contas,

Mas o tempo todo nós fazemos contas,

Corremos sempre, os relógios nos espreitam,

Regulando o ócio, faturando o tempo…

O que mudou com a explosão?

Sim, estamos presos, acuados, limitados,

O ar nos falta, morremos lentamente.

Mas é assim mesmo, morremos lentamente,

Não gostamos da traição da morte súbita.

E tantas vezes nos sentimos acuados,

Limitados, presos, sufocados,

Tantas vezes, tantas vezes, por que o espanto agora?

Lá fora, choram por nós,

Emocionados, todos querem ajudar, sofrem conosco.

Não tanto por nós (afinal quem somos nós?)

Quanto pela própria sensação de impotência

Ao se reconhecerem, todos, como marujos

Sem mapas, sem rumo, sem saída

Sem metas, sem valores, sem projetos,

Vivendo de migalhas de sentidos…

Estamos mortos ou morreremos em uma semana ou menos,

Mas que diferença faz uma semana ou um bilhão de anos

Quando não se tem por que viver?

Quando tudo está determinado, tecido combinado,

Quando nos faltam o consolo da nesga, da mínima fresta?

Ainda que a luz nos cegue ou sejamos inundados

Há algo na explosão que não nos desagrada completamente.

Agora, todos querem nos salvar,

Mas quem nos salvará a todos,

A cada um de nós, dentro ou fora da baleia?

Torcemos por soluções vindas de fora,

Mas não há salvação vinda de fora.

Ainda que oremos a cada minuto, todo o tempo,

Ainda que obremos sem cansaço, todo o espaço,

Não há salvação vinda de fora.

Estamos todos no mesmo barco: não há dentro, nem fora.

Agora, aqui no fundo, descobrimos o que sempre soubemos.

Todos os caminhos nos conduzem a nós mesmos,

O fim é sempre o mesmo,

O tempo e o espaço são meros pormenores.

Passado o espanto, encomendadas nossas almas,

Tudo voltará à calma, descansaremos em paz.

Talvez encontrem culpados, é sempre de bom alvitre.

Mas não existem culpados, por mais que os encontrem,

Não existem culpados fora de cada um de nós, existimos nós,

E, sintomaticamente, existimos é presente e é passado…

Estamos todos juntos, não chorem, pois, por nós.

Olhem bem para si, orem por si, orem por nós,

Mas sem nutrir a tristeza.

Uma pequena baleia se for, fomos com ela

Como bactérias de uma grande bactéria.

No ventre da baleia, somos todos Jonas,

No marasmo do mundo, estamos todos juntos.

No fundo do mar e de nossos corações,

A viva explosão espanta a morte!

Que viva a explosão, que viva a vida!

********NILSON 20-8-2000