Significado e Realidade: Universos/Multiversos

Nílson José Machado                                               

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1 – Universo/Multiverso

Uma das armadilhas frequentes na busca do significado da vida é a ideia da unicidade do Universo. Vivemos em múltiplos universos de significações. A Arte e a Ciência descortinam diferentes realidades: em cada vertente, um universo específico. A realidade indiscutível da luz é-nos apresentada pelas teorias científicas ora como ondas que passeiam no espaço-tempo, ora como fótons que desfilam de modo caoticamente ordenado, ora como ínfimas cordas vibrantes, que criam partículas tal como um violão gera as notas musicais. A própria Matemática nos apresenta uma multiplicidade de geometrias, que desafiam a percepção imediata e seduzem a imaginação. Se conhecer é conhecer o significado, como buscar uma resposta única para as questões cosmológicas, quando a multiplicidade de sistemas de significações é a regra básica? Não seria o caso de buscarmos uma compreensão mais ampla do que é isso, o Universo, assimilando-o a um harmonioso coral de versões? Não seria mais adequado chamá-lo de Multiverso? 

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2 – Corinthians, Palmeiras, Platão, Aristóteles

A discussão é antiga: as idéias matemáticas são uma criação humana, a partir da realidade empírica, ou sempre existiram em um universo ideal, sendo descobertas pelos matemáticos? Entre tais extremos debatem-se Aristóteles e Platão, respectivamente.

Quando associamos os dez dedos das mãos à criação do sistema decimal de numeração, tendemos a ser aristotélicos. Entretanto, quando notamos que, independentemente da ação humana, em qualquer circunferência, não importa se grande ou pequena, a razão entre seu comprimento e seu diâmetro é sempre igual a cerca de 3,14, sentimo-nos descobrindo um fato que sempre existiu, mesmo que nunca fosse notado: o número p nos aproxima de Platão.

Em Matemática, há muitas situações que nos aproximam das construções aristotélicas, e muitas outras que nos levam aos braços da revelação platônica.

É impossível decidir-se racionalmente pelo time de Aristóteles ou pelo time de Platão, tal como não há razão que explique o fato de sermos corinthianos ou palmeirenses.

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3 – Construtivistas, e daí?

No que se refere ao conhecimento, o rótulo de “construtivista” há muito perdeu a cor. Desde o debate entre Piaget e Chomsky (Paris, 1975, Centre Royaumont), publicado em 1983 no livro Teorias da Linguagem/Teorias da Aprendizagem, todos somos construtivistas.

Não se trata de igualar as perspectivas em confronto, que são diferentes formas de compreender como conhecemos. O mérito do debate foi o deslocamento das atenções para o que realmente importa, que é o modo como o conhecimento é construído. Para Piaget, haveria um isomorfismo entre a organização das ações e a organização das ideias; para Chomsky, as ações seriam fundamentais, mas seu papel seria como o do motor de partida do automóvel, nada tendo de similar com um motor a explosão – a mente humana.

Cada forma sistemática de conceber como se constroem significações corresponde a uma imagem do universo. Não podemos prescindir de tais construções. Nas Ciências, nas Artes ou na Cultura, o grande desafio é promover um diálogo entre elas.

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4 – A Gênese segundo Italo Calvino

Em As cosmicômicas, Calvino propõe com argúcia e ironia uma interessante cosmologia. O Universo seria fruto de um contínuo jogo em que um ser de nome impronunciável (Qfwfq) perscruta o futuro e aposta na novidade, na transformação, contra o acomodado (k)yK, o decano, que representa o passado, a inércia, a falta de imaginação. Na origem, ambos abdicam dos números inteiros, considerados muito complicados, e recorrem apenas aos números e e π, os mais “simples”, que representariam a variação e a constância, a transformação e a eqüidistância, respectivamente. A lógica da criação do mundo e da vida não teria por base cadeias de O e 1, tudo ou nada, ser ou não ser, mas seria binária em outro sentido, fundada em séries de pares retroações/ações, contrações gravitacionais e expansões/explosões nucleares.

Um dos aspectos mais instigantes de tal cosmologia é a caracterização do presente como uma bolha homogênea em que convivem harmoniosamente o passado e o futuro, a conservação e a transformação. 

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5 – Goodman e os Modos de fazer mundos

A resposta de Nelson Goodman (1906-1998) à disputa platônico-aristotélica sobre a natureza da realidade é radical e inspiradora: o mundo é o que compreendemos dele, universos são tanto construídos quanto descobertos, a compreensão e a criação andam juntas. O que importa são os modos de fazer mundos, que é o título de um de seus livros mais originais.

Entre os modos de fabricação, ele destaca:

– a composição/decomposição do que existe (os fatos), o que dá origem a novos objetos ou configurações, ao que é imaginado (os fictos);

– a enfatização de certos elementos, o que pode conduzir à deformação intencional, e à complementação ou supressão do que se considera relevante ou irrelevante;

– a ordenação do que já se registrou e destacou, com a construção de uma narrativa, o que introduz a temporalidade, possibilita a fixação e favorece a extrapolação.

Dividir, combinar, imaginar, destacar, suprimir, completar, ordenar, extrapolar seriam, então, verbos fundamentais para a construção de mundos.

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6 – O significado e a História

A História é fundamental para a construção do conhecimento. Conhecer é sempre conhecer o significado, e este somente se constrói por meio de narrativas. Uma boa aula é uma história bem contada e a fonte básica para a construção de narrativas é a História. Somente um enredo bem arquitetado pode fixar significados, impedindo que uma coleção de informações relevantes dissolva-se no tempo.

Mas o significado não se constrói de uma vez para sempre: ele está em permanente estado de atualização. Continuamente, algumas de suas relações constitutivas perdem a relevância e são substituídas por outras. A idéia de número não é construída pelas mesmas relações na escola básica e na universidade; o conceito de cidadania não é o mesmo na Grécia antiga ou nos dias atuais.

O conhecimento exige uma permanente atenção à História. Os significados mudam, mas não se transformam caleidoscopicamente. Na História, buscamos apreender o significado das transformações, ou o significado das mudanças de significado.

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7 – O problema realmente importante: o significado

As ciências consideram crucial a questão “O que é isso, a consciência?” Em The really hard problem (MIT, 2007), Flanagan coloca em foco o problema realmente decisivo: a atribuição de significado aos eventos do mundo material, que faz com que nossas vidas individuais tenham propósito e relevância. Sugere que o par Ciência/Religião é insuficiente para pensar tal questão e nos remete ao que chama de “Espaço do Significado no Início do Século XXI”, formado por três eixos de tensões: Arte/Ciência, Política/Tecnologia, Ética/Espiritualidade.

O eixo Arte/Ciência seria o lugar da expressão harmoniosa e da construção da racionalidade; no eixo Política/Tecnologia buscar-se-iam as relações entre a coerência e a utilidade; ao eixo Ética/Espiritualidade estariam reservadas as pretensões de justiça e de harmonia entre os seres humanos e o cosmos. 

Na construção do significado, tais eixos podem traduzir uma clássica combinatória de valores: Belo/Verdadeiro, Verdadeiro/Bom e Bom/Belo, respectivamente. 

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8 – Ciência, Religião, Esquemas

Em The construction of reality (1986), MichaelArbib (ateu convicto) e Mary Hesse (anglicana confessa) examinam a natureza da realidade a partir do par Ciência/Religião. O conceito chave a que recorrem para tal compreensão é o de esquema. Na indiscutível realidade de seres e objetos, os significados seriam construídos por meio de esquemas, isto é, unidades de ação, de interação ou de representação. A mente seria constituída por uma complexa rede de tais esquemas, que incluiriam as preensões/sucções do bebê, esquemas perceptuais simples, e também esquemas simbólicos de representação, que iriam das palavras, dos números, às linguagens em geral. Além disso, as ideologias e as religiões também constituiriam sistemas de representação da realidade, por meio dos quais as significações seriam construídas.

Escrito a quatro mãos, o percurso do livro é compatível com as visões científica e religiosa do mundo. Ao final, no entanto, somos levados a uma bifurcação radical entre as duas perspectivas. 

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 9 – Verdade e transcendência

Se a ideia de verdade é simples no senso comum, não o é na Ciência. Dizer-se que uma sentença é verdadeira se corresponde aos fatos não resolve: se não existem critérios claros para a associação entre frases de uma linguagem e fenômenos do mundo real, como falar de verdade como correspondência?

A solução proposta por Tarski parece simples: a verdade da proposição p de uma linguagem L somente pode ser afirmada recorrendo-se a uma linguagem L´, que tenha como objetos as sentenças de L. A verdade de p não pode ser afirmada no âmbito de L, mas apenas quando aprendemos a falar sobre p, o que exige certa consciência sobre o que se fala.

O prestígio científico da saída de Tarski não elide duas de suas lacunas básicas. A primeira é o fato de a verdade abandonar o mundo dos fatos e se cingir ao universo de uma linguagem. A segunda é a inextricável relação entre verdade e transcendência: não podemos falar da verdade de uma sentença senão quando ultrapassamos os limites da linguagem que utilizamos. 

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10 – Pluralismo e relativismo

O risco inerente à convivência entre múltiplos universos de significações é o absoluto relativismo: a ideia de verdade é esmaecida e instala-se um vale-tudo epistemológico. Mas a pluralidade de versões de mundos não elimina a necessidade de discernir as que são aceitáveis das que não o são.

A extrema dificuldade na formulação de critérios de admissibilidade é um problema crucial. A verdade não é suficiente para fundamentar a aceitabilidade nem mesmo no âmbito das linguagens formais, que dirá em universos como a música ou a pintura.

Goodman propõe a noção da correção, entendida como uma coerência, um ajustamento, ou uma harmonia radical entre os elementos envolvidos. O nó da questão é o fato de que os mesmos argumentos que nos levam ao pluralismo das versões de mundo também conduzem à multiplicidade de critérios de correção.

A existência do que seriam alguns invariantes em tais critérios, como as ideias do Bom, do Belo e do Verdadeiro, oferece uma luz no fim do túnel. É pegar ou largar.

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11 – Bom, Belo, Verdadeiro: Universais tácitos?

A sensação é partilhada por muitos: intuitivamente, gostamos ou não de algo, simpatizamos ou não com uma pessoa, consideramos justo ou injusto o resultado de um julgamento; as razões para isso vêm-nos depois. A percepção de uma imagem, a compreensão do que sentimos, o vislumbre do certo e do errado nos chegam de modo integrado.

As tentativas de fixação a priori decritérios de beleza, de verdade ou de justiça não têm frutificado. Controvérsias colossais abrangem territórios da Arte, do Direito, da Ciência. Intuímos que os múltiplos universos de significação não são igualmente aceitáveis, mas não sabemos explicitar nosso desconforto diante de algumas de suas formulações.

O problema talvez resida na insistência em explicitar critérios. Ao que tudo indica, discernimos tacitamente o Belo, o Bom, o Verdadeiro mesmo sem encontrar palavras para expressar o que sentimos; tais ideias situam-se no coração de cada um de nós. Trata-se de uma aposta otimista no ser humano? Sem dúvida. Qual é a sua?

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*****Nilson/março-2010

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