Pandemia: Mudança, Revolução, Catástrofe, Metamorfose

Nílson José Machado/njmachad@usp.br

Um exercício intelectual interessante e necessário tem sido projetar como será o mundo após a atual pandemia provocada pelo coronavírus. O que resultará da sofrida experiência mundialmente vivenciada? Haverá uma mudança importante na organização social, política e econômica dos diversos países, ou as mudanças serão periféricas e voltaremos simplesmente à ordenação anterior? Mais especificamente, que ideia pode ser mais adequada para caracterizar o futuro que virá? A de uma mudança perfunctória, de uma revolução politicamente violenta, de uma catástrofe nos costumes, de uma metamorfose radical? Vagando por entre as contingências, seguem algumas considerações a respeito de tal questão.

Em cada esquina, Heráclito nos lembra: o rio da vida escorre entre nossos dedos, diverso, inexorável, irreversível. A rede realiza, concreta e metaforicamente, o permanente estado de atualização da vida. A mudança é a regra, a transformação é permanente. “Nada do que foi será/de novo do jeito que já foi um dia”, registra com sabedoria a canção popular. Da pandemia certamente resultarão mudanças.

Na realização das mudanças, há situações em que predominam a paciência e as reformas evolucionárias, logrando-se a transformação com a harmonia possível, e há outras, revolucionárias, em que não se resiste ao apelo à violência, destruindo-se uma ordenação para substituí-la por outra, considerada desejável. Tais revoluções não se estabilizam no tempo, funcionando como ruptura violenta, essencialmente não consensual na sociedade, para a instauração de nova ordem. Reforma ou revolução? Eis a questão tantas vezes já evocada ao longo da história. Um aumento significativo nos impulsos dadivosos, uma incidência maior de ações solidárias e misericordiosas, tudo isso será assimilado pelas ideias maiores que parecem permanecer inabaladas, ou provocará uma revolução, ou pelo menos uma transformação mais duradoura nos comportamentos sociais?

Como se sabe, cientificamente, as transformações revolucionárias sempre traduzem catástrofes do ponto de vista técnico, como bem caracterizou o matemático René Thom, com sua Teoria Matemática das Catástrofes. Arriscamos uma síntese sumaríssima de tal teoria, com a esperança de nos atermos às ideias fundamentais do tema. Tecnicamente, quando analisamos padrões de variação entre duas grandezas, uma catástrofe é uma ruptura com um padrão de variação, conduzindo imediatamente a outro padrão: a matemática que descreve padrões de regularidade na mudança de padrões é a teoria das catástrofes, formulada por Thom em 1972. Por exemplo, um pintinho cresce dentro do ovo, antes de nascer, obedecendo a determinado padrão; chegada a hora do nascimento, há a ruptura, o rompimento da casca do ovo, nasce o pintinho, que terá seu crescimento doravante regulado por outro padrão. A quebra da casca representa a mudança de um padrão de crescimento para outro, é uma catástrofe. Em outro contexto, as revoluções em sentido político – a Revolução Francesa, por exemplo – são também catástrofes no sentido de uma mudança no padrão, na ordem vigente. O nível de conhecimento necessário sobre o tema para se lograr não somente um reconhecimento de padrões, mas principalmente uma teoria, uma visão ampla sobre a dinâmica das transformações entre os diversos padrões praticamente nos afastam da caracterização das mudanças ocorridas com a atual pandemia como algo que possa ser inserido no âmbito das catástrofes estudadas por Thom.

Não parece justo, no entanto, situar as profecias pós-pandemias apenas no âmbito das mudanças evolucionárias. Há algo de muito profundo nas mudanças associadas ao mundo que prosseguirá, e que merece ser mais atentamente perscrutado. Para tanto, vamos seguir os passos do sociólogo Ulrich Beck, com seu fecundo livro intitulado Metamorfose (RJ, Zahar, 2028). Para traduzir a ideia de metamorfose, recorremos às palavras de Beck:

“Vivemos num mundo que não está apenas mudando, mas está se metamorfoseando. Mudança implica que algumas coisas mudam, porém outras permanecem iguais – o capitalismo muda, mas alguns aspectos do capitalismo continuam como sempre foram. A metamorfose implica uma transformação muito mais radical, em que as velhas certezas da sociedade moderna estão desaparecendo e algo inteiramente novo emerge.” (p.15)

Refletindo sobre o mundo pós-pandêmico a partir do insight de Beck, somos levados naturalmente a associar tal mundo a uma metamorfose do mundo atual, devendo ocorrer uma transformação radical em algumas das ideias capitais do mundo econômico instituído. Algumas das razões de tal associação são reunidas a seguir.

Consideremos, por exemplo, o fenômeno da dádiva. Ele não poderá restringir-se mais apenas aos impulsos generosos periféricos às ideias centrais do capitalismo vigente.  O motor da doação é permanente busca da criação de laços com os outros, não se limitando a eventuais alívios de consciências em crise, ou a motivações de natureza mercantil. Ou aprendemos tal fato com a pandemia, ou nada aprendemos de estrutural, de substancioso, e as transformações eventuais não ultrapassam o nível das mudanças contingenciais.

Outro ponto importante é o fato de que a ciência, ou o conhecimento científico, ter tido seu nome repetido muitas vezes em vão, sem uma compreensão mínima dos fundamentos da ciência, da ideia de verdade a ela associada, que envolve a experimentação descritiva, o manejo de dados, mas não pode se eximir de considerações éticas que ultrapassam em muito o nível das descrições. À ciência não é possível eximir-se de dividir a responsabilidade com a ética pelas recomendações e pelas prescrições. O fato subjacente mais notável é a transformação do conhecimento no principal fator de produção, com as limitações inerentes de seu tratamento como mercadoria em sentido industrial, especialmente no que tange à indústria farmacêutica.

A transformação mais incisiva ainda nas mudanças estruturais que a pandemia ajudou a explicitar, especialmente na consideração do trabalho das equipes de profissionais da saúde, sem distinções hierárquicas, do mais eminente médico ao mais humilde dos auxiliares de enfermagem, é o renascimento de uma robusta ideia de profissionalismo. Em tal tarefa, é fundamental reconhecer e desenvolver duas dimensões especiais de tal questão: a distinção fundamental para todo trabalhador entre salário e renda, que, absolutamente, não são sinônimos. De alguém que vive do próprio salário não se diz que “vive de rendas”. Viver de rendas é viver de fazer dinheiro fazer mais dinheiro, como no mercado de capitais. O Imposto de Renda em países como o Brasil é, essencialmente, um imposto de salários.

Outra dimensão especial da transformação estrutural no caminho da caracterização da metamorfose do mundo atual catalisada pela pandemia é o fato de que a metamorfose do mundo está visceralmente associada à metamorfose do trabalho. Se o conhecimento se transformou, como é amplamente reconhecido, no principal fator de produção, urge reconhecer que tal valor não pode ser “distribuído” por decreto, mas apenas pela Educação. Como dizia um cantor popular nordestino, “mas doutor, uma esmola/para um homem que é são/ou o mata de vergonha/ou vicia o cidadão”. Esta, a meu ver, seria a dimensão primordial da transformação estrutural que caracteriza uma possível metamorfose no mundo capitalista: a metamorfose do trabalho, que deveria ser especialmente valorizado em todas as suas manifestações, das mais humildes às tecnicamente mais avançadas. As diferenças salariais precisariam ser reduzidas, garantindo-se um valor mínimo suficiente para uma vida com dignidade em qualquer nível de participação na produção de bens e valores. A mitigação das desigualdades escandalosas na distribuição da riqueza produzida deveria ser realizada essencialmente por meio da valorização do trabalho, e não pela distribuição de benefícios tópicos, que “viciam o cidadão”, como propõe o poeta popular. Os serviços de assistência médica deveriam, naturalmente, prover os carentes de saúde de todos os meios de tratamento de modo absolutamente gratuito, respeitando-se também aqui o insight do poeta nordestino…

                                            ******01-06-2020

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