Máscara: pessoalidade, prosopopeia, hipocrisia, violência, pandemia…

Nílson José Machado

njmachad@usp.br

A palavra “máscara” tem uma etimologia interessante: persona, em latim, era a máscara usada pelos atores no teatro. Trata-se de uma palavra derivada de per + sonare, ou “soar através de”. Daí derivam palavras como “personagem”, “personalidade”, “pessoa”. Em sua origem, a ideia de pessoa está associada à representação de papéis. Uma máscara recobrindo a face era usada pelos atores, sempre do sexo masculino, que representavam inclusive o papel de mulheres.

 A ideia principal que sobrevive é a de que nos constituímos como pessoa representando papéis. O primeiro papel que representamos é o de “filho de…” Depois, crescemos à medida que ampliamos e enriquecemos o feixe de papéis que nos cabe representar, como parte da família, da sociedade, como cidadão e como pessoa. Em nossa formação pessoal, construímos uma personalidade que nos identifica como indivíduo com autenticidade: não existem duas pessoas iguais. Na vida social, somos identificados com o feixe de papéis que representamos, ainda que cada pessoa apresente um “fundo insubornável” absolutamente idiossincrático, como bem destacou Ortega y Gasset.

Dois registros circunstanciais: as máscaras sem pinturas, transparentes, sem cera, através das quais se veria a face do ator, estariam, segundo algumas fontes, associadas à ideia de sinceridade. Similarmente, os atores que roubavam os papéis construídos e já representados por outros, satisfazendo-se com a mera imitação, eram chamados de hipócritas.

A propósito de tal relação entre pessoalidade, sinceridade e hipocrisia, o poeta Raimundo Correia lavrou um expressivo soneto:

           MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Uma derivação agro-etimológica-metafórica interessante é a questão de se associar uma pessoa com uma cebola ou com uma alcachofra. Se uma pessoa fosse como uma cebola, pensando os papéis que representamos como as cascas, retirando, uma a uma, nada sobraria ao final, senão lágrimas, talvez. Por outro lado, associando os papéis às pétalas da alcachofra, após a última pétala resta o miolo da alcachofra, que representa o melhor e mais valioso de seu conteúdo. Ao contemplar certas pessoas em situação de abandono, dormindo nas ruas, somos, no entanto, muito mais tentados a pensar cada uma delas, a despeito da ausência quase absoluta de papéis relevantes, como uma alcachofra em potencial, depositária de um miolo valioso, indevidamente não aproveitado.

A palavra latina individuum tem uma etimologia muito mais simples: significa “aquilo que não se divide”. Em grego, a palavra correspondente é atomon, ou aquilo que não se divide, que não se apresenta em “tomos”. Certamente uma pessoa é um indivíduo, no sentido de que não pode ser cindida sem perder sua individualidade, ou mais adequadamente, sua personalidade. Mas certamente a indivisibilidade, que era a característica marcante do átomo na Grécia antiga, não existe mais nos dias de hoje, e certamente não é suficiente para a caracterização da ideia de pessoa como ser social.

Uma curiosidade natural nos conduz à questão de saber se existiria em grego uma palavra correspondente à ideia de pessoa em latim. A etimologia é tributária da cultura e pode nos pregar peças em tentativas de correspondência literal. A ideia de autoridade, por exemplo, auctoritas em latim, não tem correspondência direta em grego. O império romano tornou necessária tal ideia, associada às funções do senado, mas a cultura grega, com sua democracia de pouca extensão territorial passou ao largo de tal noção. No caso da ideia de pessoa, a palavra que mais se aproxima é prosopon, que seria a face de uma pessoa. A derivação mais conhecida é prosopopeia, que representa a associação de feições humanas a animais, como ocorre nas fábulas, por exemplo.

No senso comum, circula com frequência uma conotação negativa da máscara, ou do mascarado como uma pessoa fingida, dissimulada, o que lembra a já citada hipocrisia. O referencial junguiano aproxima-se um pouco da insuficiência ou da limitação da máscara: a ideia de persona se não é isso, é quase isso. No caso das histórias infantis, envolvendo super heróis, a máscara também desempenha um papel que se afasta um pouco da representação de papeis com os outros, para os outros, mesmo no caso dos afeitos aos monólogos, mas sem uma aderência suficiente com a ideia de pessoalidade como representação de papeis, e de personalidade como um feixe coerente de papeis socialmente comprometidos.

Uma análise especialmente interessante sobre a caracterização da pessoa como um complexo feixe de papeis sociais pode ser encontrado no livro Identidade e Violência, de Amartya Sen (2006). A ideia central do livro é generosamente apresentada da primeira à 4ª capa, em praticamente cada página do texto: a fonte de toda a violência no mundo seria, segundo Sen, a unidimensionalidade na caracterização de uma pessoa. A complexidade da pessoalidade exige a consideração do feixe de papeis, sendo a redução de uma pessoa a um dos papeis do feixe uma prerrogativa da própria pessoa, nunca podendo ser exercida pelo arbítrio de alguém, seja quem for. Ao proferir, a propósito de alguém frases como “é um negro”, “é uma mulher”, “é um muçulmano”, omitindo-se outros determinantes relativos aos papeis socialmente desempenhados, abre-se inexoravelmente as portas para a violência. E a aposta maior do autor é a de que toda a violência no mundo decorreria de tal derrapagem epistemológica.

A pandemia que assusta o mundo neste ano de 2020 tem conduzido por vias tortas a uma das ações consideradas quase consensuais: o uso da máscara para minimizar a possibilidade de contágio. A maior ou menor efetividade em tal mister não nos interessa discutir neste momento. Uma pulga atrás da orelha pode surgir no caso de prestarmos atenção a um cálculo realizado por diversos cientistas, inclusive o físico Fermi: a probabilidade de, em nosso próximo suspiro, encontrarmos pelo menos uma molécula do ar que o todo poderoso imperador César respirou, em seu último suspiro, após a brutalidade de que foi vítima é de 100%. Sim, é isso mesmo, não se trata de um engano; lembremos apenas que 100% de chance de ocorrência não quer dizer que o evento certamente ocorrerá, o que somente é válido em espaços amostrais finitos…

Nada disso preocupa, é somente uma curiosidade, uma brincadeira (séria). O que efetivamente incomoda nas máscaras atuais é a aparência de despersonalização, de perda ou limitação na identidade pessoal. Vagamos como zumbis, não acreditamos na maior parte das medidas que nos cerceiam, mas aceitamos trocar parte de nossa liberdade por uma putativa segurança. Assistimos a justificativas que invocam repetidas vezes o apoio da ciência, como se a racionalidade das ações pudesse ser completamente justificada por argumentos científicos, mas a evidência em cada passo é a de que ninguém sabe com sinceridade do que está falando, a expectativa ingênua é a de que os dados falem por si, e entre um isolamento vertical e outro horizontal é certo que não há certeza de coisa alguma. O terror se espalha, o medo fragiliza as reações conscientes, e em terreno tão pantanoso, o exercício do poder fascina, conduzindo sutilmente a uma quase falência do pensamento crítico. Como bem disse Benjamin Franklin, no entanto, “quem troca uma porção de sua liberdade essencial por uma garantia de um pouco mais de segurança, não merece nem uma coisa, nem outra…”

                                             *****29-05-2020

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