Conservação/Transformação: Desvios clássicos e omeletes

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                            Nílson José Machado           njmachad@usp.br  

SUMÁRIO______________________________________

1 – Educação: conservação/transformação

2 – A conservação negativa

3 – Quatro formas básicas de reacionarismo

4 – Tecnologias: fascínio e fastio

5 – Durabilidade e conservação

6 – Ortega e as massas

7 – Normas: duas fontes e um desvio

8 – O mistério da autoridade

9 – Totalitarismos antigos e modernos

10- Síndrome da omelete

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1 – Educação: conservação/transformação

A palavra “Educação” pode ser associada aos verbos latinos ducere (conduzir) e educere (conduzir para fora, extrair). Em todas as culturas, a Educação tem o sentido de acolher os mais jovens no quadro social existente, o que seria sua dimensão conservadora. Mas a Educação também significa dar a voz a quem chega, abrindo a possibilidade de transformações; sem tal abertura, a vida seria congelada e se estiolaria.

Embora a transformação e a conservação sejam inerentes à ação educacional, é comum um elogio automático a uma delas, e uma rejeição sistemática da outra. É como se a transformação fosse um valor em si, e a conservação, um mal a ser evitado.

Tais conotações são meros mal-entendidos. Em todos os âmbitos, o equilíbrio entre a transformação e a conservação é uma necessidade vital. Não começamos do zero a cada novo dia, nem é possível desconsiderar a necessidade de mudanças. A consciência sobre o que deve ser conservado e o que deve ser transformado é o objetivo maior do ato educativo. 

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2 – A conservação negativa

Um jogador erra uma jogada de efeito e é criticado pela torcida: “Não inventa!” Ao conduzir o filho à escola, o pai adverte: “No caminho, não fale com estranhos”. Uma sugestão para alterar uma rotina no trabalho é recusada pelo chefe: “Não se mexe em time que está ganhando”.

Nos casos citados, a melhor das intenções pode dar lugar às piores conotações do conservadorismo: limitar-se a fazer o mínimo exigido, não procurar conhecer mais do que já se conhece, acomodar-se ao que usualmente já se faz. Rigorosamente seguidas, tais recomendações levariam ao congelamento geral da vida.

Incentivar a criatividade, valorizar a abertura para o outro, manter sintonia fina com as circunstâncias, reconhecendo que a mudança pode ser necessária até para permanecermos no mesmo lugar, são contrapontos a tais supostas máximas.

A transformação ou a conservação não são intrinsecamente positivas ou negativas. E não nascemos com um “Manual do Fabricante”: o discernimento a respeito é construído na lida diária.

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3 – Quatro formas básicas de reacionarismo

Em A retórica da intransigência, Albert Hirschman caracteriza o que considera três vertentes principais do pensamento reacionário, ao longo da História, diante de uma perspectiva de mudança: a futilidade, a perversidade e a ameaça.

O argumento da futilidade considera que as mudanças não surtirão efeito algum; após algum tempo, tudo voltará a ser como antes. O argumento da perversidade garante que as transformações tornarão a situação ainda pior. O da ameaça sugere que as ações propostas poderão por em risco conquistas já realizadas.

Nos três casos, a retórica do reacionarismo conduz ao conformismo, que é muito distinto de uma conservação do statu quo  a partir de um juízo consciente sobre os méritos do que vige.

Uma quarta forma básica do pensamento reacionário manifesta-se quando, diante de uma proposta de mudança, afirma-se com pretensa sabedoria: “é interessante do ponto de vista teórico, mas na prática não funciona”. É quase impossível contra-argumentar sem parecer agressivo. Mas dá.

4 – Tecnologias: fascínio e fastio

A tecnologia é um poliedro de mil faces, algumas assustadoras, outras muito sedutoras. A cada dia um novo produto surge no cenário, com uma mensagem tão atraente quanto enganosa: “o novo é melhor que o velho”, “o novo é melhor que o velho”… Como se não fosse parte da cultura de onde emerge, a tecnologia renega o deus Janus e cultua apenas o futuro.

Ao aceitar o bônus da sedução, a tecnologia assume o ônus do inescapável risco: amor e ódio tangenciam-se, aqui e ali. Uma maioria de entusiastas convive com um grupo crescente de enfastiados e com o radicalismo de uns poucos que rejeitam as formidáveis ferramentas.

Nada parece mais extemporâneo, no entanto, do que a discussão sobre o uso ou a recusa da tecnologia. Como a técnica nos primórdios da civilização, a tecnologia encontra-se disseminada na sociedade. Sem qualquer melancolia, resta-nos avançar na consciência do significado de sua presença.  Se o fascínio automático é típico de neófitos, a recusa sistemática é, sem dúvida, patética.

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5 – Durabilidade e conservação

Como as pessoas, há palavras simpáticas e antipáticas. A ascensão da sustentabilidade ao pódio do politicamente correto tornou a durabilidade uma palavra simpática. O fascínio das tecnologias, da busca do novo a qualquer custo, fez da conservação uma palavra antipática. As duas, no entanto, mantêm laços estreitos.

Para clarear a questão, M. Oakeshott produziu um texto seminal: O que é ser conservador (1991). Afirma que “onde quer que exista uma identidade firme, é provável que exista uma disposição conservadora”. Associa a voracidade das mudanças e o esgarçamento dos laços sociais. Objetos rapidamente descartados, como celulares ou automóveis, refletem especularmente a fragilidade das crenças morais, das relações de amizade, das tradições mais caras, dos hábitos mais fecundos.

Destaca que o respeito às regras de um jogo é fundamental para sua constituição. É possível mudá-las, mas é preciso compostura e paciência: aí residiriam as principais diferenças entre ser ou não ser conservador.

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6 – Ortega e as massas

A crescente aglomeração humana é notada desde o início do século XX. As pessoas acumulam-se nas ruas, nos cinemas, nas lojas, nos aeroportos. Falar de multidões é pensar apenas a dimensão quantitativa do fenômeno. O aspecto crucial, de natureza sociológica, é a massificação.

Em A rebelião das massas (1926), Ortega y Gasset registra: massa é todo aquele que não valoriza a si mesmo, que se sente “como todo mundo”, e, entretanto, não se angustia, sente-se à vontade ao sentir-se idêntico aos demais. Massa não é uma classe social, mas um modo de ser do homem, ao trocar sua singularidade pelo conforto da média. Para Ortega, pelo modo de produzir, o homem de ciência atual é o protótipo do homem massa.

Naturalmente, a extensão para a totalidade da população de direitos que eram reservados a poucos deve ser louvada e cultivada. O problema a ser enfrentado é, segundo Ortega, o fato de que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem o denodo de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe por toda a parte.  

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7 – Normas: duas fontes e um desvio

A vida em sociedade pressupõe uma regulação por normas, diante das quais somos todos iguais. Duas são as fontes básicas de normas. Na primeira, o ponto de partida é um fato, que traduz um valor socialmente acordado e inspira uma norma para seu cultivo. Na segunda, o ponto de partida é um valor, que inspira uma norma, em busca da instauração de um fato. A tradição inspira normas do primeiro tipo; já o preceito “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos” constitui uma norma do segundo tipo.

Ao refletir sobre o direito numa perspectiva semiótica, Greimas sintetizou o nascimento de normas em termos do par prescrição/proscrição. Uma norma surge para promover ou para proibir uma ação; para consolidar um costume ou para instaurar uma prática. Os eixos prescrever/não prescrever e proscrever/não proscrever, no entanto, precisam ser independentes. A corrupção do sistema ocorre quando as circunstâncias são tais que uma prescrição disfarça uma proscrição, ou vice versa.

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   8 – O mistério da autoridade

A autoridade refere-se sempre a uma ação sobre os outros. Trata-se de uma coação legítima consentida. Sempre pressupõe o reconhecimento; sem ele, ela pode ter sido, mas já era. Explicitar o fundamento do consentimento, do reconhecimento é um imenso desafio teórico.

A autoridade não se funda na simetria da argumentação, nem é criada por regras de maioria. Eleições legitimam uma autoridade, não a instituem; se ela não existia antes, não existirá depois. Um acidente de percurso pode eleger um apedeuta, mas não o transformará em autoridade, se, ainda que misteriosa, ela já não existia, latente.

A autoridade não advém de um diploma, de uma certificação formal; se não se fundar numa competência efetiva, evanescerá, como um cartão de crédito sem fundos.

Como na Ética e na dádiva, a autoridade pressupõe o exercício da assimetria. Seu reconhecimento decorre de uma reciprocidade desnivelada, de uma ordenação não hierárquica. Em seu espaço sutil, é mais do que um conselho e menos do que uma ordem.

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                       9 – Totalitarismos antigos e modernos

A vida é feita de escolhas, algumas decisivas, cruciais, muitas inofensivas, veniais, todas constitutivas, pessoais.

Nos regimes democráticos, elegemos nossos governantes. Como cidadãos, tendo por base os valores socialmente acordados, valorizamos as diferenças pessoais, articulamos interesses pessoais e coletivos, partilhamos sonhos, cultivamos consensos, arquitetamos projetos.

Os regimes totalitários à moda antiga recorriam à força para destruir a unicidade da pessoa e padronizar o sentido das ações coletivas. Os totalitarismos modernos são mais sutis. A pessoalidade é minada por meio da limitação ou da extinção das escolhas cruciais, reservadas aos detentores do poder. Já as escolhas veniais, irrelevantes para o projeto coletivo, são convenientemente fomentadas: crédito facilitado, consumo de supérfluos, foco nas aparências, nos prazeres sensoriais etc.

Em tal cenário, a Ética torna-se um luxo, a mediocridade grassa, e chega a parecer ridículo ponderar sobre o sentido último da vida.

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10 – Síndrome da omelete

Em sentido humano, a vida é ação: ação que transforma, ação que conserva.

Continuamente enfrentamos situações que exigem discernimento entre o que deve ser mantido e o que deve ser mudado, tanto no que se refere a hábitos quanto em relação a normas que regulam a vida social.

Projetamos algo, mas a análise das ações necessárias nos paralisa. Buscamos o novo, mas não gostamos de abdicar do velho. Desejamos a transformação sem o desconforto da mudança. Queremos a omelete, mas resistimos a quebrar os ovos.

O fato, no entanto, é que não existe transformação sem conservação. O novo enraíza-se no velho, mesmo quando o nega ou transcende. Não existem projetos sem metas eleitas em cenário de valores, o que sempre traduz conservação.

Por outro lado, dado que a vida é chama, cada instante a ser vivido é sempre novo; consumimo-nos continuamente, a vida não se conserva.

Escapamos da síndrome da omelete a partir da consciência de que o ovo permanece na omelete: ela é a nova forma e o nome novo do ovo.

    ________________________________________________28/02/2013

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