Category Archives: Diário de Perdidos e Achados

EDUCAÇÃO: PROJETOS E VALORES

Nilson José Machado

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  1. Educação é a construção da consciência nas ações: ações que conservam, ações que transformam, ações que não se conformam.
  2. Como animais, a cada ação corresponde uma reação de mesma intensidade e em sentido oposto.
  3. No terreno da Ética, a simetria ação/reação não nos permite ir além da Lei de Talião: Olho por olho, dente por dente.
  4. Como seres humanos, a cada ação deve corresponder uma resposta, que é uma nova ação, impregnada de responsabilidade.
  5. A ação consciente é a ação projetada, o fazer com a palavra, com propósito, com metas sustentadas por uma arquitetura de valores.
  6. Ter projetos é ter objetivos que são antecipações de ações a serem realizadas, sem coação: não se pode ter projetos pelos outros.
  7. Uma característica fundamental da ação projetada é a convivência com o risco; nesse ponto, a interface jogo/projeto é muito fecunda.
  8. Viver como se a vida fosse apenas um jogo é irresponsabilidade; pretender projetar tudo o que realizamos é arrogância.
  9. A realização de qualquer projeto é alimentada à montante pelas nossas ilusões, esperanças, utopias…
  10. ..  mas é determinada à jusante pelo planejamento, pela avaliação, pelas trajetórias que representam nossos interesses pessoais.
  11.  Viver é projetar, é jogar, é correr riscos; o espaço do risco é o mesmo da criação, que me permite fazer as coisas do meu jeito.
  12.  Ser é pretender ser, quem está vivo está se lançando em busca de algo, viver é um contínuo projetar; quem não pretende, já não é.
  13. Projetos pressupõem uma arquitetura de valores que sustentam os objetivos; projetos sem valores podem ser coisas monstruosas.
  14.  Viver é viver com propósito, é viver de propósito; sem propósito, somos escravos ou, já partimos.
  15. Platão registrou que escravo é quem não tem projetos, que vive para realizar os projetos dos outros: Vida com propósito ou morte!
  16. Em sentido invertido, é preciso considerar a circunstância do morrer de propósito, como no suicídio ou no terrorismo.
  17. Outro aspecto é a morte súbita; morrer de repente soa como traição, viver de repente é coisa de poeta, ou de repentista.
  18. Envelhecer com propósito é morrer um pouco a cada noite e renascer a cada dia – ou vice-versa…
  19. Partimos do fato de que a vida é o valor maior, que recebemos ao nascer; retribuir tal mega dádiva é o dever nosso de cada dia.
  20. Tal concepção inspira na cultura japonesa uma Ética do Débito; no entanto, como em todos os valores, é necessário equilíbrio.

                                                *****07092021

Presença de Alfredo Bosi

MESTRE

ALFREDO BOSI:                                                                                        

Um olhar eloquente, uma assertividade serena

            Prólogo

Que dizer de Mestre Alfredo Bosi, de quem não posso falar senão na perspectiva do aluno, continuamente por ele alimentado, ainda que de modo tácito, sem vínculos formais?

 Trabalhei intensamente, sob sua coordenação, entre 1991 e 1994, no Programa Educação para a Cidadania, criado por ele no IEAUSP. Em tal Programa, que coordenava como um maestro, foram gestadas propostas relevantes para a revisão da Constituição Federal realizada em 1993.

Fundada apenas em sua excepcional competência, sua autoridade era exercida de modo absolutamente tranquilo, com uma sutil expressão corporal, um delicado movimento no olhar. Quando baixava discretamente o olhar, a gente se perguntava: “onde foi que erramos?”  

Com ele aprendemos, a cada atividade realizada, muitas coisas simples,

simples como a água e o pão, como o céu refletido nas pupilas de um cão”,

segundo versos da lavra do saudoso José Paulo Paes, com quem Mestre Bosi manteve fecundos laços poéticos, como veremos mais adiante.

Desde muito cedo mestre Bosi nos mostrou que, para cumprir sua função formadora, ou de conscientização, a crítica não precisava ser ácida, cítrica. Aprendemos que, assim como a consciência se constitui como uma meta vontade, ou uma vontade de ter certas vontades e não outras, quando a crítica emana da humildade que somente a sabedoria provê, ela se transforma em pura literatura, em meta literatura: na maior parte dos textos do Mestre tal característica salta aos olhos.

 Aprendemos que, tal como a igualdade se relaciona simbioticamente com a diferença, a verdade é parceira da tolerância, e, ainda que cortejada por todos, a verdade não tem dono. Aprendemos que a vida não é um conto de fadas, que o bem e o mal passeiam de mão dadas, e que assumir posições nítidas no que se refere aos valores fundamentais não nos obriga a ser binários, ou extremistas.

Aprendemos ainda que o centro de gravidade de uma Universidade com alma jamais poderia se afastar do universo da Cultura, mesmo quando atraída pelas mais sedutoras tecnicidades, ou pela ideia de formação profissional em sentido mais estrito… entre tantas outras lições…

Bosi e a Educação

…Em meio a tantas lições, dimensões e qualidades da figura ímpar que foi Mestre Bosi, buscar aqui o inaudito parece até um absurdo; tentemos apenas, apesar do deleite da reiteração, não ser demasiadamente repetitivos.

Restringindo-nos apenas ao terreno da Educação, dois aspectos da personalidade de Mestre Bosi sobressaem: a eloquência do olhar e a serenidade assertiva, ou a assertividade serena.

A expressividade do olhar do mestre animava tacitamente nossos projetos, temperando os mais afoitos com humildade e cultura. Especificamente sobre o olhar no texto machadiano, escreveu um livro particularmente interessante (Machado de Assis – O enigma do olhar), que poderia ser visto com um talvez involuntário, mas inevitável sentido autobiográfico. Arriscamos a conjecturar que o olhar de Machado teria muito a ver com o olhar de Mestre Bosi, mas não é este o ponto que queremos aqui considerar.

O que ora nos interessa destacar, numa perspectiva educacional, na obra de Mestre Bosi, é o fato de que o olhar de que o mestre nos fala está em singular sintonia com uma das mais fecundas ideias do filósofo Hans-Georg Gadamer (1900-2002). De fato, em Verdade e Método, Gadamer elabora a noção de “fusão de horizontes”, que se refere a uma busca de sintonia, de uma racionalidade comum a diferentes pontos de vista. Não se trata da busca de unidade de pontos de vista, nem mesmo da unidade de olhares, que expressam vida em seus movimentos. Trata-se de reinstalar a trilha que conduz da doxa à episteme, da tentativa de conversão à conversa amistosa, da busca do convencimento à ideia de vencer juntos. A fusão de horizontes em Gadamer representa, talvez, a mais efetiva concepção de que dispomos para semear o entendimento entre as pessoas e combater a violência no mundo.

Bosi e Gadamer

Algumas linhas da lavra de Mestre Bosi em seu enigma machadiano podem contribuir para clarear a aproximação Bosi/Gadamer, acima arriscada:

Olhar tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, do ponto de vista. O olhar é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo e, no limite, definidor, ora é emotivo ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento.”

Como se vê, em Bosi, é a mobilidade do olhar que o distingue visceralmente da perspectiva estática do ponto de vista. O olhar está para um filme assim como um ponto de vista está para uma foto, ou mesmo um mapa. Ao tratar das redes de significados, respondendo a críticas sobre o caráter estático dos mapas de relevâncias construídos sobre as redes, Pierre Lévy sugeriu a ideia de cinemapas, ou de mapas em permanente estado de atualização, que funcionariam como protofilmes, na antessala das narrativas. A tecnologia, se, por um lado, transformou e fragmentou o tempo e as narrativas, por outro, busca reconstruir no olhar o controle da identidade, dos espaços e dos tempos das pessoas.   

Ao tratar da articulação dos significados, na construção do conhecimento, partindo dos pontos de vista dos sujeitos, Gadamer explora o fato de que dois pontos de vista sobre um mesmo objeto, percebidos por duas pessoas diferentes, são geralmente expressos a partir de duas linhas de horizonte, ou duas racionalidades distintas. O que se vê, numa ou noutra perspectiva, são imagens distintas do mesmo objeto. Não se trata, educacionalmente falando, de procurar confrontar as imagens, tendo em vista reduzi-las a uma só percepção visual: temos visões diferentes e gostamos disso. Trata-se, isto sim, de reduzir as duas linhas do horizonte a uma só: as duas racionalidades devem convergir. Continuam, no entanto, a produzir duas imagens distintas do mesmo objeto. A linha de horizonte comum nasce de uma fusão entre as duas linhas individuais; o processo é nomeado de “fusão de horizontes”. Na realização de tal fusão, o processo pode parecer complexo, ou mesmo incompreensível, pelo menos se pensamos apenas na rigidez das diferentes perspectivas. Quando se pensa, no entanto, no movimento do olhar, pode-se deslizar suavemente as duas linhas de horizonte iniciais, ajustando tais linhas até fundi-las, sem confundi-las, garantindo-se uma racionalidade comum, na partilha de perspectivas e de sentidos, na construção dos significados.

Bosi e a simbiose Descartes/Vico

            No terreno da Educação, uma fecundação fundamental realizada por Mestre Bosi foi a consideração das ideias de Vico na construção do conhecimento. Ao situarmos a língua materna em tal cenário, destaca-se a irrelevância a ela atribuída por Descartes, em contraposição ao papel absolutamente decisivo a ela reservado por Vico. Como se sabe, para Descartes, a Matemática era a “língua natural” da Ciência, enquanto a língua seria o lugar das imprecisões, das ambiguidades, das incertezas. Vico reconhece as limitações, ou mais sensatamente, as características “negativas” apontadas por Descartes, mas caminha na mesma direção em sentido oposto. Tendo por base uma inspirada concepção de História, Vico considera que, para fazer Ciência, é necessário partir daquilo que a língua nos oferece, cultivando as características de expressividade e de compreensão, com a consciência crescente dos desvios e das armadilhas infra lógicas, mas sem retroceder um milímetro na proclamação da importância da língua materna na construção do conhecimento. Com suavidade, como de costume, mas com reiterada explicitação em diferentes contextos, particularmente no último capítulo de O Ser e o Tempo da Poesia, Mestre Bosi semeia uma epistemologia que tem as ideias de Vico como fundamento, cultivando uma simbiose possível – e necessária – com aspectos importantes do pensamento cartesiano.

            Bosi e Paes

            A comunhão de ideias estéticas, éticas e políticas, associadas a uma amizade e um profundo respeito pessoal uniram Mestre Bosi e o poeta José Paulo Paes, incluindo-se a convivência contínua, nos anos iniciais da década de 1990, no período em que o poeta foi Professor Visitante no IEAUSP. Um pequeno exemplo que pode representar concretamente os efeitos da simbiose Vico/Descartes nas poéticas de Mestre Bosi e de José Paulo Paes é o poema Pavloviana, publicado por Paes no livro Um por todos, prefaciado por Mestre Bosi:

PAVLOVIANA

a comida, a sineta, a saliva

a sineta, a saliva, a saliva

a saliva, a saliva, a saliva

o mistério, o rito, a igreja

o rito, a igreja, a igreja

a igreja, a igreja, a igreja

a revolta, a doutrina, o partido

a doutrina, o partido, o partido

o partido, o partido, o partido

a emoção, a ideia, a palavra

a ideia, a palavra, a palavra

a palavra, a palavra, A PALAVRA

            Pois é, poesia. Nada mais cartesiano, nada menos cartesiano, com muito viço, com muito Vico.

            A assertividade de Bosi

Com sensibilidade literária, Mestre Bosi nos mostra a cada olhar como mobilizar a força e a suavidade de seu universo de crítico, para convergir simbioticamente e articular-se naturalmente com o rigor das articulações de Gadamer, na busca da verdade com método. Assim, na conversa que não quer, em princípio, nem converter, nem convencer, mas apenas partilhar, a fusão de horizontes parece o instrumento teórico por excelência para promover a aproximação entre as pessoas, na busca de um sentido para a vida.

Reiteremos, pois, que, o olhar entendido como uma dinâmica de perspectivas, como uma possibilidade de vida e movimento, associado à assertividade suave, que não busca o conforto da zona cinzenta, mas não produz marolas desnecessárias entre visões extremistas aproxima Mestre Bosi do pensamento rigoroso de Gadamer. A serenidade assertiva e a humildade sincera, a máscara sem cera que traduz a transparência possível em territórios de integridade e de civilidade, sem transigência, mas sem extremismos, conduz a obra do Mestre, na alimentação de seus inúmeros alunos.

Reiteremos aqui o que pode parecer um pormenor, mas é um indício definidor da personalidade do mestre que nos deixou: Mestre Bosi nunca semeou franco atiradores. Com seu exemplo de vida nos ensinou continuamente a criar espaços de resistência impregnados de afetividade, como bem o ilustra o fecundo espaço do IEAUSP. Por tudo isso, Mestre Alfredo Bosi é o intelectual que representa com mais rigor e com mais vigor o espírito de uma universidade viva e produtiva, mas com alma.

Coda: Bosi, a fragmentação e os metavalores

Caminhando para uma conclusão, tentemos situar Mestre Bosi no cenário atual de excessiva fragmentação das disciplinas, com a consequente diluição dos significados e dos valores. Mesmo redigidos antes da aurora da internet, os textos de Mestre Bosi registram amplamente seu desconforto com tal fragmentação. Alguns exemplos eloquentes são apresentados a seguir, todos extraídos de sua obra prima Dialética da Colonização (1992).

 Com extrema humildade, afirma que:

 A massa de bits disponíveis sobre um número alto de matérias exploráveis gera um cogumelamento de sub-áreas de especialização. Folhear uma revista de difusão científica, o catálogo de uma grande editora americana ou francesa, ou o elenco de disciplinas e eventos de uma universidade moderna produz vertigens e depressões cognitivas.

Com a autoridade que emana de sua competência, dá um pequeno desconto em sua serenidade assertiva e registra que:

 Há teses universitárias que são fieiras de alusões e citações: as melhores, padecem de uma erudição turística e carente de nexos lógicos; as piores fazem concorrência ao samba do crioulo doido.

Com espírito crítico criador, ensaia um diagnóstico para ir além da denúncia:

O discurso sobre esse saber em migalhas e sobre as fraturas que cortam o terreno da cultura superior levou-nos a contemplar uma situação espiritual de descentramento que se poderia chamar também de recusa da totalidade. Essa atitude tende, pela sua repetição tantas vezes inconsciente, a virar monotonia ideológica.

E anuncia uma luz no fim do túnel ao explicitar que:

O que motiva o trabalho do conhecimento é a vontade de valor. Só o que vale, vale a pena…Os in-formes em si e por si mesmos não produziriam uma teoria nova do real, ou daquela zona do real que interessa a alguém perscrutar. Só o sentimento do valor guia o esforço de compreender os homens e as coisas, elege temas, bebe na fonte dos dados originais…E, para que a ciência resultante não regrida a simples máscara do interesse que a motivou, faz-se ainda necessária a vigência de um metavalor, a vontade de verdade, que torna o sujeito honesto em face do seu objeto.

De alguém que transpirava valores em suas ações ordinárias, não se esperava menos do que isso. A consciência sobre os valores conduz naturalmente aos metavalores, e a vontade de verdade é um deles. Nas obras do Mestre Bosi outros metavalores são onipresentes, como a fé, a integridade, o equilíbrio. Por tudo isso, é muito pouco dizer ao mundo, a um tempo, de sua permanência em nosso pensamento, e da imensa falta que ele nos faz.                                              

                                                ******25/08/21

A hora é agora

Um dia a gente acorda

E descobre que o tempo

Passou, de repente

Como bem disse o poeta.

Como bem disse o poeta

A festa acabou

A luz apagou

O povo sumiu

E agora?

Alguns dos amigos

Mais caros se foram

Outros se tornaram

Assim meio raros

Sentimos sua falta

Mas ordeiramente

Cordeiramente

Seguimos em frente

Cheios de afazeres

Os meios mais sedutores

Ocupam nossas mentes

E transformam-se em fins

Mediocre-mente

E por falar em fim

Por que não me avisaram

Do tempo que me restava

Para concluir minha fala?

Mas quem o faria?

Quem alimentaria

A doce ilusão

Da razão sentida

No coração?

Quem aceitaria

Que ninguém conhece

O estoque de tempo

De que dispõe?

Quem acordaria

Que é chegada a hora

De viver a vida

Aqui e agora?

Quem enfrentaria

Sem perder a razão

Que não existe conclusão

De fala alguma?

Existe fim!

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Integração de Saberes Parte I

INTEGRAÇÃO DE SABERES

Considerações, Constelações

Nílson José Machado

PARTE I

São Paulo, dezembro de 2018

Sumário

Apresentação: a Fragmentação do Conhecimento e do Significado

I. “Considerações”: Astrologia, Fusão de Horizontes, Constelações

II. Teorias, Constelações, Fusão de Horizontes

III. Raul Seixas, Adorno, Teorias, Constelações

IV. O Aleph e a Eternidade: Fusão de Horizontes e Ministério do Tempo

V. A Pós-Modernidade, as Fake News e o Cálculo Diferencial

VI. Conceitos, Esquemas

VII. Pressentimento e Preconceito

VIII. Ciência e Religião: Conceitos e Preconceitos

IX. Eça de Queiroz, Machado de Assis e o Jornal: Um Bem? Um Mal?

X. Democracia: as visões de Dewey e Tarde

XI. As crianças na Caverna, a Falácia Utilitarista e as Olimpíadas Zoológicas

XII. O Público, O Privado e a Prosopopeia do Mercado

XIII. A Desigualdade de Renda, a Febre Amarela e o Big Bang

XIV. Gravidez não é Doença, e Salário não é Renda…

XV. Bill Gates e as Privadas Inteligentes

XVI. O Capim, o Leite, o Estrume e a Flor

XVII. Excrementos no Everest e nas Redes Sociais

XVIII. O Mar e a Bússola: A Fragmentação e as Ideias Fundamentais

XIX. Disciplina é Competência: o caso do Trivium

XX. Habilidades socioemocionais, Nietzsche, o carioquinha e o velho chinês

XXI. Competência: Rasa ou Profunda?

XXII. Mito ou Verdade?

XXIII. Verdades e Mentiras sobre a Verdade e a Mentira

XXIV. Tradição, Tolerância, Opinião, Respeito

XXV. Conversar e Convencer

XXVI. Comemoração, Esquecimento, Perdão

XXVII. Vontade, Consciência, Consenso

XXVIII. Herrar é Umano

XXIX. Curtir o consertar é só começar…

XXX. Razão, Sentimento, Emoção

XXXI. Adeus às Armas e Fé nas FARC…

XXXII.  Crer, Ver, Querer

XXXIII. Eu não creio em Bruxas, mas…

XXXIV. Esperança e Vida: o Dito, o Fato, o Inesperado

XXXV. O Fato, a Negação, o Oposto

XXXVI. A Álgebra, o Conselheiro Acácio e a Consciência

XXXVII. O Pantógrafo, a Impressora 3D e o Princípio de Cavalieri

XXXVIII. Algoritmos: Inércia da Repetição ou Antessala da Criação?

XXXIX. Inovação e Criação

XL. Antonio Machado, Keith Devlin e as Mentiras Fracionárias

XLI. Números Redondos na Mídia, no Comércio e na Política

XLII. Quem acredita no Infinito?

XLIII. O valor de π é 3, é 80, ou é 180? Um flash da Bíblia até hoje

XLIV. Notas sobre Direitos e Deveres

XLV. Notas sobre Ética no Meio Acadêmico

XLVI. Notas sobre Nicolau de Cusa e a Douta Ignorância

XLVII. Notas sobre o Conteúdo e a Forma na Ação/Formação do Professor

XLVIII. Notas sobre Tecnologias na Escola

LXIX. Notas sobre a Ideia de Representação

L. O Infinito, a Fé e o Sentido da Vida em 30 Bullets

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APRESENTAÇÃO  

A Fragmentação do Conhecimento e do Significado

O conhecimento escolar tanto na escola básica quanto no ensino superior, apresenta-se atualmente de modo excessivamente fragmentado, dissociado em muitas disciplinas que interagem fracamente umas com as outras. Além disso, novas disciplinas encontram-se em permanente estágio de gestação. Mal um subtema disciplinar se torna especialmente relevante, seus estudiosos buscam constituir algo como uma intradisciplina, com seus novos especialistas. Com lupas poderosas explorando propriedades de pontos/objetos cada vez menores, perdemos, pouco a pouco, a visão mais abrangente da foto que constituem. A consequência mais imediata é o correspondente esfacelamento do significado do que se estuda. No mundo inteiro, busca-se uma maior integração entre as disciplinas, um conhecimento mais integrado dos fenômenos. Não parece haver mais lugar para um especialista no sentido chapliniano, tão bem registrado no filme Tempos modernos, o que não significa que o caminho seja a formação de um generalista que seja um especialista em tudo, o que não passa de mera caricatura. Precisamos, sim, de especialistas, mas que sejam capazes de ver a foto inteira, que saibam mobilizar seu conhecimento em temas específicos no sentido da solução de problemas gerais, quase sempre de natureza transdisciplinar.

É neste contexto que se inserem os textos desta coletânea. Os temas tratados nascem em territórios disciplinares, mas transbordam seus limites, favorecendo uma aproximação mais efetiva entre as ideias fundamentais de cada disciplina. Incluem cenários da Ética, da Política, da Filosofia, da Ciência, da Religião, da Tecnologia, e de outros mais, sempre em busca de um insight unificador, de uma visão sintética, de uma visão teórica da prática efetiva.

Os textos são curtos e dialogam uns com os outros, podendo ser lidos em qualquer ordem. O preço que se paga pela relativa independência dos textos é a ocorrência de certa reiteração de temas e afirmações, aqui e ali, o que se coaduna com o gênero ensaio, pretendido em cada passo. Intencionalmente – e humildemente -, buscamos situar cada um dos textos no território fecundo do ensaio, tão magistralmente explorado por pensadores maiúsculos como Adorno e Montaigne. Segundo eles, o ensaio se situa estrategicamente entre a absoluta pessoalidade da poesia e o rigor absoluto do texto científico. As elaborações decorrentes da leitura serão, então, mais diretamente resultantes da sintonia entre ideias e opiniões, partilhadas em uma conversa entre cidadãos educados, do que de categóricas demonstrações lógico-formais. É verdade que o conhecimento não pode se limitar ao terreno das opiniões, mas tanto no terreno da política quanto no das relações pessoais, o espaço da conversa, da troca de opiniões certamente deve anteceder o terreno das certezas absolutas, das demonstrações, cabais, da busca do convencimento.

  1. “Considerações”: Astrologia, Fusão de Horizontes, Constelações

O significado mais frequente da palavra “considerar” está associado a verbos como meditar, refletir, ponderar, estimar, ter em grande conta, examinar criticamente todas as circunstâncias de um ato, tendo em vista a tomada de uma decisão. Etimologicamente, no entanto, a raiz mais funda da palavra encontra-se na astrologiana observação dos astros (sidera), tendo em vista a orientação das ações em empreendimentos futuros, como se pode conferir no Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, de Silveira Bueno.

Como se sabe, na Roma antiga, os métodos de antecipação do futuro cunhados pela astrologia eram muito populares. Atualmente, salvo no que tange à previsão do tempo, gozam de pouco prestígio, ou seja, caprichosamente, não são levados em consideração. O significado principal da palavra “consideração” teria sofrido uma radical transformação. Renegando explicitamente sua origem etimológica, ele não mais remeteria, nem mesmo tacitamente, aos astros. É o que parece, mas arrisco afirmar que o que parece não é.

De fato, duas das noções mais fecundas e atuais da epistemologia apontariam no sentido de uma reinterpretação e uma revitalização dos astros, não mais como logos, mas como alegoria, na busca de uma compreensão da condição humana. refiro-me às ideias de “fusão de horizontes”, apresentada por Gadamer em seu seminal livro Verdade e Método, e de “constelação”, da lavra de Adorno, no denso Dialética Negativa. Nos dois casos, a inspiração nos astros como alegoria é bastante evidente. Algumas poucas palavras a seguir têm apenas a intenção de introduzir a questão.

Conhecer é conhecer o significado, e o significado somente se constrói por meio do sentido, ou dos sentidos. O que não é sentido, não faz sentido. Mas os sentidos são pessoais, idiossincráticos; cada visão é um ponto de vista, referido a um cenário específico, a um horizonte pessoal. A educação consiste na construção dos significados, que representam a parte partilhável dos sentidos, o que somente pode ocorrer por meio de uma fusão dos horizontes pessoais. Nas palavras de Gadamer, “o intérprete e o texto possuem cada qual seu próprio horizonte e todo compreender representa uma fusão desses horizontes.” Como fica claro em seu trabalho, a referida fusão não significa uma unificação das visões, que eram distintas e permanecem distintas, mas sim a inserção das visões em uma linha do horizonte comum, o que viabilizaria o logos, o diálogo, a tolerância, a compreensão. Não me parece existir frase mais adequada como síntese das produções da Escola de Frankfurt do que a busca da construção de um horizonte comum para a interação entre as diferentes visões de mundo dos participantes do discurso, regulado pela razão comunicativa. Retornando ao início destas considerações, a busca de um lugar para viabilizar uma visão comum certamente deve nos deslocar de polarizações terrenas, como as perspectivas ocidental e oriental, ou outras, derivadas de grupos de países representativos de diferentes concepções político-econômicas, passando a situar nos astros o centro de nossos olhares. Assim, ter os astros para orientar as ações, ou seja, tecer considerações, transformar-se-ia não buscar as justamente desprestigiadas correlações astrais, mas sim um ponto de vista que possibilitasse uma visão comum para todos nós, habitantes deste pequeno planeta Terra.

Em outro sentido, complementar ao anterior, o conceito adorniano de constelação pode estar contribuindo para uma revitalização de sua associação inicial de consideração com os astros. ideia de constelação oferece uma perspectiva extremamente interessante para os descrentes na razão iluminista, muitas vezes associada a uma razão formal, fundada em “conceitos”. Distinguindo o uso ordinário da palavra conceito, como sinônimo de ideia ou noção, de seu uso teoricamente denso, associado aos quatro pilares definição, classificação, ordenamento e causalidade, o que se percebe é que, na vida cotidiana, incluindo-se a vivência na escola básica, pouco utilizamos conceitos em sentido técnico, com suas hierarquias categóricas. Não conhecemos o conceito de verdade, o conceito de tempo, o conceito de consciência, ou de vida em sentido humano, e vivemos bem, apesar disso. Lidamos quase o tempo todo com noções preconceituais, esquemas de percepção ou de ação; vivemos na antessala dos conceitos. Temos um consenso quase absoluto em língua portuguesa na atribuição de um sentido negativo ao “preconceito”, que parece sempre detestável. E o é, efetivamente, na medida em que se trata de uma ideia preconceitual que se pretende um conceito. É aí que mora o perigo.

Com a ideia de constelação, Adorno nos lembra de como podemos viver bem sem se submeter a uma razão iluminista simplificada, sem pressupor que trabalhamos apenas com conceitos em sentido filosófico, distinguindo com nitidez a razão e a sombra, o bem e o mal. Ao apresentar sua “dialética negativa”, ele afirma que “não se progride a partir de conceitos e por etapas até o conceito superior mais universal, mas esses conceitos entram em constelação. Essa constelação ilumina o que há de específico no objeto e que é indiferente ou um peso para o procedimento classificatório.” A possibilidade de uma razão ampliada, que incorpore infra-lógicas em terrenos em que a formalização seja inviável ou demonstradamente impossível é que conduziu à ideia de constelação. Afinal, em vez de um conceitual sistema solar, a nos indicar nitidamente o objeto iluminado, e até mesmo denegando a importância do que a sombra esconde, um conjunto de estrelas com múltiplos focos, iluminando de forma aparentemente desordenada as múltiplas perspectivas de observação – ou seja, uma constelação – pode constituir uma alegoria muito mais interessante, muito mais representativa da vida em sentido humano.

  1. Teorias, Constelações, Fusão de Horizontes

Em sentido formal, as teorias são constituídas por conceitos, que operam como focos concentrados de luz, iluminando racionalmente as ações. A realidade, no entanto, não se deixa apreender facilmente, ou mesmo se representar apropriadamente por teorias formais. No exercício cotidiano da linguagem, na comunicação entre as pessoas, a maleabilidade das noções, a plasticidade dos esquemas preconceituais opera muito mais eficazmente do que o pretenso (e muitas vezes precoce) rigor conceitual, quase sempre manejado de modo ingênuo ou imprudente.

Ocorre, no entanto, que instrumentos preconceituais, como os esquemas, raramente são reconhecidos como instrumentos prestigiosos. O risco de desandarem em elementos anárquicos ou desestruturados, com a consequente perda de poder explicativo, encontra-se presente, ao lado do risco similar de serem vaidosamente extrapolados os limites de sua eficácia: assumindo-se como se fossem conceitos eles acabam, assim, por se converter em detestáveis preconceitos.

Uma contribuição efetiva à valorização das noções e dos esquemas decorre da ideia de “constelação”, da lavra de Adorno, em seu importante trabalho Dialética Negativa, obra de referência da chamada Escola de Frankfurth.  O modo de operar de uma constelação pode ser associado ao funcionamento da linguagem ordinária, que não define rigorosamente o que denomina, construindo, em vez disso, uma rede de relações entre o termo novo, cujo significado se constrói, e outros termos de significados já conhecidos. As palavras se esclarecem mutuamente, por meio de tais conexões mútuas. As noções ou os esquemas preconceituais articulam-se em diversos focos de luz, que se entrecruzam sem a eficácia da concentrada razão iluminista, mas que colaboram para revelar o que vai além do foco, os elementos coadjuvantes ou mesmo figurantes, que, de outro modo, seriam deixados à sombra. A própria ideia de verdade é mais facilmente construída por meio de uma constelação do que a partir em uma única concepção, no âmbito de determinada teoria. Assim, colaborativamente, operam as constelações.

Gadamer, outro  eminente frankfurthiano, em sintonia tácita com Adorno, produziu uma ideia especialmente fecunda no que se refere à construção do significado. Ela se compõe perfeitamente com a noção de constelação: trata-se da noção de “fusão de horizontes”. Como se sabe, as percepções pessoais dão sentido às palavras e às coisas, mas a construção do conhecimento pressupõe a possibilidade de partilha de tais sentidos, o que corresponde à construção do significado que se apreende. O significado constitui a parte partilhável dos sentidos. Apesar de idiossincráticos, é possível encontrar na multidão de sentidos elementos comuns, no mínimo como o são resquícios naturais da língua e da cultura. Sem tal possibilidade de partilha, a imensa diversidade dos sentidos tornaria a vida uma selva: cada sentido corresponde a um ponto de vista. A questão que naturalmente se coloca é: como vislumbrar tais elementos de partilha? Como explorar a riqueza da diversidade de pontos de vista sem a violência do confronto direto? Para Gadamer, não é o caso de se pretender reduzir a uma só visão o que originariamente são duas: é possível manter duas visões distintas, mas é imprescindível fundir os dois horizontes em um só. Não reduzimos dois pensamentos, duas visões, duas teorias a uma só perspectiva, mas o cenário que se descortina, o contexto em que tais visões se constituem deve passar a ser o mesmo. O instrumento fundamental para tal convergência é a razão comunicativa, Eis aí uma sublime noção de tolerância.

  1. Raul Seixas, Adorno, Teorias, Constelações

Não vivemos conceitualmente. Conceitos como os de tempo, de consciência, de pessoa, de liberdade, de dignidade, de vida, esvaem-se entre nossos dedos, e isto não chega a ser um mal. A vida vivida conceitualmente seria muito chata. Vivemos e nos alimentamos das ideias que temos ou construímos sobre todos os temas, e somente algumas poucas dessas ideias conseguimos explorar no nível dos conceitos. Conceitos são definidos precisamente, determinam classes de equivalência, ordenam o universo correlato, inspiram relações de causalidade. Quando perguntamos a uma pessoa “Como está?” dificilmente buscamos ou apreciamos uma resposta conceitual.

Naturalmente, a palavra “conceito” costuma ser utilizada em sentido mais leve, como sinônimo de “noção”, “ideia” ou até mesmo “opinião”. Em várias de suas músicas, Raul Seixas faz menção a uma rejeição à vida conceitual referindo-se, explícita ou tacitamente ao peso do conceito: “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Todos temos opiniões a respeito de quase tudo. Conversamos, trocamos opiniões, argumentamos para defender as que temos, mas somente algumas dessas opiniões avançam um pouco no vasto, difícil, fecundo e sedutor terreno das noções pré-conceituais, e somente um pequeno número delas atinge o nível dos conceitos. Um elemento complicador no esclarecimento das relações entre o pré-conceitual e o conceitual é o fato de que os conceitos se estruturam em teorias, inicialmente ingênuas ou locais, mas sempre ávidas por formalizações, extensões e/ou generalizações.

A passagem do pré-conceitual ao nível do conceito é sutil, é não trivial, envolvendo riscos e apostas. A afoiteza e/ou a precipitação em tal intento podem nos levar a derrapar em cascas de banana e dar origem à negatividade da noção de pré-conceito. O cuidado para evitar tal derrapagem, no entanto, não pode nos paralisar, nem nos fazer rejeitar in limine a viagem em busca do conceito. Entre filósofos importantes da Escola de Frankfurt, como Adorno, Gadamer ou Horkheimer, a palavra “pré-conceito” não apresenta apenas sua conotação negativa, significando também os esquemas anteriores aos conceitos, fundamentais para a orientação da ação. São como uma luz um tanto dispersa, não focalizada como a razão iluminista pressupõe, mas, ainda assim, esclarecedora. Evitar sistematicamente a busca do conceito seria uma forma de pré-conceito, certamente negativo.

É aqui, justamente, que um insight muito interessante da lavra de Adorno pode fazer par com a rejeição sistemática de Seixas a teorias que representam “opiniões formadas sobre tudo”: trata-se da noção de constelação. Adorno restaura da etimologia a ideia mais geral de teoria como visão, destacando que um conceito, por mais que alimentado pela estrutura de uma teoria, é insuficiente como recurso para iluminar o objeto que se deseja conhecer. Para tanto, seria sempre conveniente o recurso a uma constelação, a uma reunião de elementos que, a despeito de serem pré-conceituais, constituem uma configuração em que se apoiam mutuamente, iluminando, mesmo difusamente, os objetos que estão sendo estudados.

Resumindo, nós, humanos, podemos viver muito bem, mesmo sem o conceito de vida ou de tempo, ou de ser humano… Vivemos buscando por tudo isso: pela consciência, pela felicidade, pelo significado da vida, mas não nos sentimos paralisados pela eventual ausência de conceitos a respeito de temas tão complexos. Reunimos luzes difusas, com foco disperso, e buscamos iluminar nossos passos com uma teoria mínima, como nos sugere Adorno, com os aforismos de sua inspiradora Minima Moralia.

É quase automática a lembrança de outra música de Raul Seixas:

“Quem não tem colírio, usa óculos escuros…”

  1. O Aleph e a Eternidade: Fusão de Horizontes e Ministério do Tempo

Há um texto de Jorge Luís Borges em que se apresenta um lugar especial, denominado Aleph, situado no sótão de uma casa sombria, de onde todos os lugares do mundo poderiam ser vistos de uma só vez, em todas as perspectivas e sob todos os pontos de vista possíveis. A singularidade de tal local traduziria a expectativa utópica de uma visão totalizadora do mundo, de onde poderia advir uma compreensão mais adequada do outro, uma partilha instantânea, fraterna e generosa de pontos de vista. Diversas variações místicas na concepção de um lugar como o Aleph podem ter levado alguns autores a distorções ou apequenamentos de tal constructo, mas a ficção de Borges é ímpar, e continua, sem dúvida, fascinante e inspiradora, especialmente no que tange à caracterização de um espaço social tão impregnado de tecnologias.

Alguns roteiros cinematográficos têm-se inspirado em questões similares no que se refere ao tempo, oferecendo uma perspectiva integrada da tripartição passado, presente e futuro. Um exemplo interessante é a série espanhola intitulada Ministério do Tempo, que apresenta situações em que personagens do presente podem conviver com outros do passado, por meio de portas de acesso a outros universos temporais. O vigilante Ministério do Tempo seria uma instituição governamental criada com a finalidade específica de enviar pessoas para outros tempos e lugares, tendo em vista evitar desvios, ou ocorrências fortuitas que comprometeriam o futuro; no caso, o futuro do passado, que é o presente. A dissolução da tripartição passado / presente / futuro corresponderia a uma compreensão do tempo numa perspectiva de Eternidade.

As duas situações apresentadas congeminam-se perfeitamente: a eternidade está para o tempo assim como o Aleph está para o espaço.

Um passo modesto, mas extremamente fecundo no sentido da construção de uma visão integradora do espaço, do tempo, do espaço/tempo, é a ideia de Fusão de Horizontes, da lavra de Gadamer, em sua densa obra Verdade e Método. Segundo Gadamer, o conhecimento sempre se constrói a partir de visões/percepções pessoais, idiossincráticas. Duas pessoas diferentes assistem ao mesmo filme e apresentam visões distintas, compreensões diversas; isso pode ser muito bom, mas é preciso cuidar dos horizontes diversos em que tais visões se inserem. Não se trata de unificar as visões, de buscar uma perspectiva única; a questão que se põe é a de construir dialogicamente, argumentativamente, narrativamente, uma única linha de horizonte, na qual as duas visões se inserem. As visões/perspectivas continuarão distintas, mas somente a construção de um horizonte comum viabiliza a vida numa sociedade democrática.

  • A Pós-Modernidade, as Fake News e o Cálculo Diferencial

Primeiro veio a Pós-Modernidade, que reduziu as certezas da razão iluminista a pó, e colocou sob suspeita toda tentativa de caracterização de uma verdade em sentido absoluto. Da relativa ingenuidade da busca de tal verdade, fomos conduzidos à verdade como coerência em sentido lógico, e daí a uma relativização de tal ideia, que passaria a ser, necessariamente, tributária de um contexto. A multiplicidade de contextos conduziu paulatinamente a uma aparente relativização da noção de verdade. Mas a imensa diversidade de contextos não significa um esvaziamento da verdade, que precisa permanecer no horizonte de toda argumentação bem intencionada. É certo que ser ou não ser verdade é uma questão complexa, e ganhou espaço certa flexibilização das fronteiras entre ser ou parecer. Mas não podemos nos contentar com a identificação da ideia de verdade com a de uma narrativa consistente. Seria como se, na reconstituição de um crime, conduzida pela polícia, a coerência da narrativa fosse suficiente para a garantia da culpabilidade do suspeito. Diante de tais dificuldades conceituais, um justo enfraquecimento da razão estritamente formal não pode conduzir a um terreno minado em que as opiniões passem a predominar sobre as demonstrações, e a distinção entre verdades e crenças não justificadas não se faça necessária.

Uma nova acrobacia, especialmente arriscada, é, agora, ensaiada.  Da relatividade absoluta, passa-se agora à proclamação  da inexistência da verdade. Extrapolando-se o ceticismo da pós-modernidade, pretende-se, agora, uma caracterização do que seria uma pós-verdade. Em tal cenário, a aparência substitui a essência, o parecer ocupa o lugar do ser, a coerência torna-se sinônimo de verdade. E os meios de comunicação, especialmente os eletrônicos, abrem espaços generosos para as chamadas fake news. A sintonia entre o divulgado e o que pensamos não pode dispensar o cuidado com a verificação das fontes. Um juiz de futebol não é desonesto apenas quando intencionalmente favorece nosso adversário, mas também quando nos favorece.

Reiteramos, no entanto, que a existência da verdade permanece no horizonte, tanto de uma  descomprometida conversa, que busca uma partilha ou troca de opiniões, quanto de uma argumentação sincera, bem intencionada, em que se pretende justificar proposições, fundamentar escolhas.

Para explicitar tal posição, consideremos a afirmação “Não existem retas no mundo”. Certamente, poder-se-ia discutir o que seria uma reta: o caminho mais curto entre dois pontos? a trajetória da luz no vácuo? uma geodésica? A dificuldade, no entanto, está em definir-se o que é uma reta, mas todos têm uma ideia do que seria a retidão. Mesmo sem definições precisas, somos capazes de distinguir retas de não retas, no dia a dia. E compreendemos que as curvas, das mais simples às mais complexas, podem ser aproximadas por retas de maneira sugestiva e proveitosa nas proximidades de um ponto.  As retas tangentes são especialmente interessantes na aproximação local de curvas por retas. Não existe uma reta única, absoluta, que aproxima satisfatoriamente dada curva, em toda sua extensão, mas, localmente, em cada contexto, existe uma reta que mais bem representa a curva referida.

Algo similar ocorre quando pensamos sobre a ideia de verdade. Mesmo sem definições precisas, distinguimos a retidão da verdade e a complexidade da não verdade, nos mais diversos contextos. Quando se pretende a inexistência de uma verdade absoluta, é como se se registrasse que não existe uma reta única que traduz a complexidade da curva/narrativa em toda sua extensão, mas, localmente, em cada ponto, em cada contexto, existe a possibilidade de retificação, de referência à verdadeira retidão.

Naturalmente, não se está insinuando, nem de longe, que tal aproximação local de uma curva genérica por uma reta seria imediata e trivial: é preciso estudo e dedicação para compreender isso. Uma aproximação dos elementos teóricos de tal estudo pode ser encontrada no Cálculo Diferencial…

  • Conceitos, Esquemas

Uma das palavras cujo uso se aproxima de um abuso é “conceito”. Na linguagem corrente, frequentemente identifica-se com palavras como “ideia”, “noção”, “significado”. No discurso educacional, são fartos os registros da busca do ensino de conceitos para alunos da escola básica, ou mesmo para crianças. Na realidade, no entanto, vivemos na antessala dos conceitos. Ensinamos às crianças noções fundamentais de muitos temas importantes para a vida, sem a pretensão, no entanto, de uma apresentação conceitual em sentido filosófico. Podemos falar sobre a vida, o ser humano, a verdade, ou o tempo, mas não lidamos ordinariamente com o conceito de vida, o conceito de ser humano, o conceito de verdade, o conceito de tempo, e isto não nos faz falta. A ideia que temos de tais noções nos parece suficiente. Uma reflexão mais funda sobre tais conceitos parece ser da responsabilidade dos filósofos. Há até os que pretendem que a centralidade das atenções no ensino de conceitos seria o objeto específico da Filosofia. Os conteúdos que usualmente ensinamos, no âmbito das diversas disciplinas, seriam constituídos essencialmente de noções, de ideias, de significados. Imprescindível a todas as disciplinas seria o significado do que se ensina, mas nem sempre dizer “significado” quer dizer “conceito”.

Uma palavra que pode servir de ponte entre uma abordagem conceitual de um tema e outra, aparentemente anárquica, dos significados, é a ideia de esquema. Um esquema é uma unidade de ação ou representação, na construção dos significados. Piaget explorou de modo especialmente fecundo os esquemas das crianças, nas fases iniciais da aprendizagem. Partindo de esquemas simples, como os de preensão ou de sucção, avançou até os esquemas sensório-motores, como unidades de ação, avançando, a partir daí, numa sequência de estágios pré-operatórios e concretamente operatórios, até o período das operações formais, na antessala dos conceitos. Peirce explorou a noção de hábito, que apresenta uma conexão direta com a ideia de esquema, mas foi a dupla de pesquisadores Arbib e Hesse, em um livro fundamental intitulado The construction ou reality (1986) que produziu uma síntese exploratória brilhante da ideia de esquema, um material especialmente valioso na constituição da dignidade e da relevância que, a nosso ver, tal ideia merece ter.

Partindo das ideias de Piaget, os referidos pesquisadores deslocaram o foco das atenções para a aprendizagem da língua, passando suavemente dos esquemas sensório-motores à palavra como unidade de ação/significação, ou seja, como um esquema. A viagem prosseguiu, sempre de maneira gradual e compreensiva, passando-se da palavra às metáforas como germes de esquemas, daí às micro-narrativas, às narrativas, até a ideia da língua como um grande esquema simbólico. Um percurso paralelo especialmente importante ao longo do livro é o que explora as ideologias e as religiões como macro-esquemas como macro esquemas de ação.

Um fato notável a quem tem olhos para ver: o livro de Arbib e Hesse apresenta uma densidade filosófica indiscutível, sem recorrer, em qualquer momento, à palavra “conceito”.

  • Pressentimento e Preconceito

Continuamente, múltiplas sensações e percepções nos alcançam por meio dos órgãos dos sentidos. Elas são, simultaneamente, vitais e insuficientes para nos guiar adequadamente na construção do conhecimento. É fundamental filtrar as sensações e buscar o que há de partilhável na diversidade de sentidos, ou seja, o significado do que se percebe. Conhecer é conhecer o significado, e, decididamente, o que não é sentido, não faz sentido, e nada pode significar. Duas filtragens adicionais merecem especial registro,  nos processos cognitivos. Por um lado, anteriormente ao sentido, há o intuído, o pressentido. Não podemos ignorar tais ocorrências, nem nos entregar acriticamente a elas. Os pressentimentos não podem ser considerados numa perspectiva apenas lógica, nem podem ter ignorados seus elementos mínimos, representados por sintomas, por indícios. Pressentimentos podem ser descabidos, mas também podem constituir premonições inspiradoras, e somente o futuro poderá avaliá-los. Por outro lado, dos sentidos extraímos os significados, que são socialmente partilháveis por meio das palavras, e que são, frequentemente, ambiciosos na busca da construção de conceitos. Entretanto, toda palavra é portadora de significados, mas apenas uma parte ínfima do universo verbal é constituída por conceitos. Na quase totalidade das situações, na escola básica ou na vida social, vivemos na antessala dos conceitos. A formulação de um conceito exige certa categorização, com definições precisas, classificações, organizações, expectativas de causalidade. De um ponto de vista técnico, não vivenciamos na linguagem e na vida cotidiana um conceito de tempo, de homem, de pessoa, de sociedade: partilhamos noções, ideias de tempo, homem, pessoa, sociedade, temos opiniões a respeito de tais temas, mas nos situamos bem longe do terreno conceitual, salvo em situações formais extremamente específicas – e raras. Vivemos e agimos na antessala dos conceitos, em terrenos preconceituais. Conversamos para fazer circular e eventualmente trocarmos  opiniões, mas poucas vezes operamos no nível estrito dos conceitos. De modo geral, entendemo-nos bem assim, e somente corremos o risco de, por excesso de autoconfiança, como se fosse um tipo de hybris, tratar noções preconceituais de modo rigoroso, como se fossem conceitos: tecnicamente, elas passariam a constituir os sempre abomináveis preconceitos. Um preconceito é precisamente isso: uma noção preconceitual que se arvora de conceito. Não parece prudente nem ignorar completamente as intuições, os pressentimentos, nem se deixar guiar por meros preconceitos. Uma pessoa comum vive a maior parte do tempo buscando, aqui ou ali, um ou outro conceito, mas respeitando os pressentimentos tanto quanto as previsões meteorológicas: o fato de, às vezes, se mostrarem erradas não significa que não fazem qualquer sentido…

  • Ciência e Religião: Conceitos e Preconceitos

O senso comum mais aligeirado associará duas a duas as quatro palavras referidas no título numa ordem que parece natural: acostumamo-nos a pensar na Ciência como o lugar dos conceitos, e são comuns as associações entre o terreno das Religiões e o dos preconceitos. Parece-me, no entanto, que tais associações traduzem uma visão simplificada – e preconceituosa – em relação a ambos os temas. A associação que considero absolutamente natural é a que se dá entre a Ciência e os preconceitos, o que buscaremos justificar a seguir. Vivemos continuamente em busca de um significado para nossas ações mais ordinárias: conhecer é conhecer o significado. Tal significado é continuamente construído por meio de um feixe de relações estabelecidas entre as ideias já conhecidas e as noções emergentes. As ideias, as noções, as opiniões que construímos aspiram ao estatuto dos conceitos, que são significados consolidados em teorias, expressos em definições precisas, em classificações, em organizações hierárquicas que inspiram relações causais. Na grande maioria dos casos, no entanto, não logramos atingir tal nível dos conceitos. Como bem nos lembrou Santo Agostinho, vivemos a noção de tempo, partilhamos com os outros nossas cronologias e nossas narrativas, mas poucos de nós podem afirmar que têm um conceito de tempo bem definido. Não se trata de uma exceção fortuita: também não temos um conceito nítido de ser humano, de humanidade, de pessoa, de vida em sentido humano, por mais educados que sejamos. Vivemos a maior parte de nossas vidas, mesmo quando tratamos de ideias científicas,  na antessala dos conceitos, em terreno reconhecidamente preconceitual. Somos movidos por esquemas sensório-motores, por metáforas inspiradoras, por associações simbólicas aparentemente arbitrárias. Não se trata de um defeito de fabricação, mas sim de nossa condição humana. Nossas realizações estritamente conceituais são puntiformes, são circunstanciais: o preconceitual é nossa praia. Não compreender tal fato é sintoma da persistente hybris que busca nos elevar até o nível dos deuses que não somos. A tragédia humana não resulta dessa nossa natural limitação, mas sim da ilusão do tratamento das ideias preconceituais, dos esquemas sensoriais ou verbais como se fossem conceitos. O mal não está na aceitação do preconceitual como conhecimento legítimo, mas sim no tratamento do preconceitual como conceito, o que caracteriza um preconceito. Espasmos de arrogância conduzem a Ciência a tratar ideias simples e inspiradoras, mas frágeis como um ser humano, como conceitos bem estabelecidos, como se emanassem de deuses poderosos. Pecados desse tipo são muito comuns na Ciência, em todas as suas vertentes. As Religiões também revelam um pecado similar: o tratamento de metáforas inspiradoras, de alegorias poderosas como se pudessem ser traduzidas em sentido literal. O paralelismo me parece perfeito: tratar o preconceitual como conceito é descabido, é a doença da Ciência; traduzir o metafórico, o alegórico das narrativas religiosas em sentido literal também é sintoma da mais pura insanidade.

  1. Eça de Queiroz, Machado de Assis e o Jornal: Um Bem? Um Mal?

Poucos anos separam dois diagnósticos opostos sobre a função do jornal, da lavra de dois notáveis escritores. Em meados do século XIX, Machado de Assis publicou um artigo no jornal Correio Mercantil, intitulado O jornal e o livro, em que arrisca uma previsão sobre a inevitável derrota do livro, diante da agilidade da publicação dos jornais. Destaca a força do instrumento que considera adequado às demandas políticas da época e afirma, sem meias palavras, que o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia.

Poucos anos separam uma previsão não menos incisiva sobre o tema, da lavra de Eça de Queiroz. Numa das cartas publicadas no livro A correspondência de Fradique Mendes (“A Bento S.”), Eça exara uma opinião absolutamente distinta do otimismo machadiano. Em carta encaminhada a Bento S., Mendes, que era o pseudônimo utilizado por Eça em seus escritos poéticos, critica a intenção do amigo de criar um jornal, registrando as seguintes considerações:

“A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável… Tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juízos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerância. Juízos ligeiros, Vaidade e Intolerância – eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma sociedade!”

É praticamente impossível não reconhecer que Eça e Machado foram atropelados pelas tecnologias informáticas, que surgiriam mais de cem anos depois, e que assumiriam o protagonismo tanto na agilidade na circulação de informações, quanto na exacerbação das características negativas referidas, associadas ao funcionamento de instrumentos como a rede www, nas chamadas redes sociais. A transformação das funções exercidas pelos jornais, atualmente, é notável: buscamos suas páginas não mais para recolher as notícias fresquinhas, disponíveis continuamente na rede, mas cada vez mais para apreciar as análises de comentaristas confiáveis, nas diversas áreas cobertas pelos jornais.

Tinha razão Machado, em seu elogio à agilidade jornalística, que durou muito pouco, sendo atropelada por outros meios; e tinha razão Eça, ao temer, sobretudo, o aligeiramento dos juízos, resultantes de uma divulgação quase sempre acrítica, de temas originados precipuamente em mera vaidade, ou na suprema intolerância de se achar que cada pequena ocorrência no mundo privado de um pretendente a youtuber pode interessar ao espaço público de pseudo famosos de araque.

O fato é que Eça e Machado atiraram no jornal e acertaram nas redes sociais.

  • Democracia: as visões de Dewey e Tarde

Em Democracia e Educação (1916), um livro do início do século XX, John Dewey registra uma máxima notável, no delineamento da organização social: ter Democracia sem Educação, ou ter Educação sem Democracia é como aliviar de uma pena de morte alguém que foi condenado a duas… É fácil concordar com Dewey sobre o fato de que a Educação é condição de possibilidade do pleno funcionamento de um regime democrático, ainda que nem sempre seja simples uma consonância com os meios para a consolidação dos dois macro valores que a máxima propõe.

Mais ou menos na mesma época, no final do século XIX, Gabriel Tarde afirma, com a mesma convicção de Dewey, ainda que com menos repercussão, que uma Imprensa livre é condição de possibilidade de uma Democracia. Em seu texto seminal A opinião e as massas, Tarde destaca a importância da conversa, da comunicação entre os cidadãos no sentido de uma construção efetiva do espaço da troca de opiniões, da conversação não preconceituosa, na antessala da busca de argumentos para uma posterior defesa de ideias, valores e posições. E na construção de tal espaço, o papel de uma Imprensa livre e responsável é destacado com vigor.

A despeito do discernimento e da pertinência na formulação de suas máximas, nem um nem outro pode assistir à imensa amplificação da importância dos fatores vitais para o pleno funcionamento de uma Democracia por eles anunciados, associados ao fenômeno da rede mundial de computadores (1993). No mundo inteiro, as eleições estão sendo intensamente afetadas pela comunicação nas redes sociais de um modo ainda difícil de se compreender.

Uma questão decisiva, ainda a ser explorada, é o fato de que é cada vez mais claro o modo como as redes podem contribuir decisivamente para a chegada ao poder, mas ainda está por ser minimamente compreendida a forma como elas interferirão no exercício efetivo do poder. A tecnologia parece acrescentar uma tremenda complexidade à administração de tal fenômeno, e a face mais visível dos problemas, as chamadas Fake News, parecem ser apenas a pontinha do imenso iceberg da comunicação direta. Eis aí um desafio especial aos cidadãos, enredados ou não.

  • As crianças na Caverna, a Falácia Utilitarista e as Olimpíadas Zoológicas

Uma equipe de doze crianças tailandesas, juntamente com seu treinador, ficou perdida ao longo de nove dias, no interior de uma caverna aparentemente inexpugnável. Isolados do mundo exterior por sifões de água suja, em compartimento escuro, com pouco ar e parca alimentação, foram, afinal, localizados, mas um monumental quebra-cabeças logístico foi enfrentado pelas equipes de resgate. Bombeiros, mergulhadores, médicos e centenas de profissionais de diversas competências técnicas buscaram equacionar o problema por todos os meios imagináveis, mas, decididamente, a tarefa não seria fácil. Para encurtar a história, após vários dias de meticuloso planejamento, o resgate foi realizado, com todas as crianças salvas, bem como seu treinador.

Os jornais diários noticiaram fartamente toda a epopeia, que sensibilizou e mobilizou o planeta, mesmo o evento tendo ocorrido durante a Copa do Mundo de Futebol (2018). Aos 40 mergulhadores tailandeses, uniram-se mais de 50 profissionais de mergulho de outros países, e uma equipe de mais de 1000 profissionais trabalhou dia e noite em busca da preservação da vida das crianças e de seu treinador. Os crentes rezaram, os descrentes torceram, ninguém ficou indiferente ao que ocorria no interior de uma caverna tailandesa, envolvendo um pequeno número de seres humanos em formação. Nenhum esforço foi poupado, nenhuma dúvida sobre o significado e a relevância da tarefa coletiva, assumida solidariamente por tantos participantes de tão diversos países. Muitos sofreram muito e sentiram profunda e sinceramente as dores das crianças e das famílias envolvidas, independentemente de seu número. Mesmo com a ocorrência da morte acidental de um dos mergulhadores, o elenco maior de valores humanos envolvidos não abriu qualquer espaço para uma contabilidade utilitarista, não houve registro de qualquer dúvida com relação à pertinência da dedicação dadivosa de todos os envolvidos.

A despeito do sofrimento e do sentimento de angústia ao longo do evento, episódios como o das crianças tailandesas acendem em cada um de nós uma chama de esperança no imenso repertório de valores e de possibilidades de cada ser humano. A fé na perfectibilidade humana é um alento sublime que nos mantém vivos. Mas a vida humana, que certamente inclui a dimensão animal, sem se limitar a ela, precisaria ser repensada. Como há muito nos lembrou Ortega y Gasset, o que chamamos de Biologia não passa de uma Zoologia Humana. As palavras bio e zoo são de origem grega e significam vida, mas em sentido diverso. Zoo refere-se à vida em sua dimensão animal, do corpo físico, enquanto bio refere-se à vida em sentido humano, a vida com a palavra, juntamente com os outros, a vida do homem como animal político. As Copas do Mundo, as Olimpíadas, contribuem para nosso aperfeiçoamento na dimensão animal, latente em cada um de nós; são competições zoológicas. Seria necessário criar Olimpíadas Biológicas, em que os seres humanos competiriam para se tornar melhores como seres humanos, corpo e alma, razão e sentimento, física e mentalmente. O grande desafio é o do aperfeiçoamento de cada ser humano como pessoa. Enquanto não existirem Olimpíadas desse tipo, as cavernas tailandesas têm mais a nos ensinar, a nos fazerem crescer como seres humanos, do que as competições esportivas no sentido atual.

  • O Público, o Privado e a Prosopopeia do Mercado

Há uma ideia tácita mais ou menos partilhada segundo a qual o que é Público refere-se diretamente ao Estado e o que é Privado pode ser associado ao Mercado. Privatizar uma atividade seria, então, subtraí-la da responsabilidade do Estado e entregá-la aos braços do Mercado. Trata-se, naturalmente, de uma simplificação excessiva. Uma compreensão mais abrangente da coisa pública (res publica) é condição necessária para uma vivência com os outros, numa sociedade democrática. De modo especular, carecemos também de uma compreensão mais plena do significado do Privado, sobretudo em tempos e espaços como o das redes sociais, em que pululam em espaços públicos explorações de imagens e/ou informações que seriam pertinentes apenas no âmbito do privado.

Em seu livro de despedida, publicado em 2004 e intitulado A Economia das Fraudes Inocentes, o economista John Kenneth Galbraith destaca algumas ideias do senso comum da Economia ensinada nas Universidades, que são apresentadas como verdadeiras, mas que constituem verdadeiras fraudes. De modo tolerante, tais ideias são rotuladas pelo autor como “fraudes inocentes”, ainda que algumas não mereçam efetivamente tal qualificativo. Uma delas seria precisamente a de que existiria uma distinção nítida entre o interesse público e o privado, ou, de modo geral, um critério nítido de demarcação entre os elementos do par Público/Privado. Com a autoridade de quem desempenhou funções de destaque em nível mundial na gestão da economia, incluindo-se um longo período na presidência do FED, que seria como um Banco Central americano, Galbraith expõe os meandros das complexas e delicadas relações entre o governo e a indústria de armamentos, nos EUA, o que desnudaria uma interferência incisiva, eticamente difícil de se aceitar.  Nos últimos anos, vieram à tona na mídia muitas informações igualmente incômodas sobre certa promiscuidade nas relações entre os governos e a indústria farmacêutica. Ainda que os fatos divulgados possam comportar diferentes interpretações, não podendo ser considerados verdades absolutas, são muito sólidos os indícios de que o par Público/Privado carece urgentemente de uma revisão conceitual.

Nos dias atuais, as interfaces entre o Público e o Privado situam-se em três dimensões principais, nos terrenos da Economia, da Sociologia e da Política. Apesar de constantemente se misturarem, e de parecer praticamente impossível uma separação nítida entre tais dimensões, elas apresentam elementos distintivos que mereceriam uma atenção especial.

Na Economia, alguns ingredientes relativamente recentes parecem especialmente relevantes. O primeiro deles é o fato de que o conhecimento se transformou efetivamente no principal fator de produção, transformando substancialmente as ideias de autoria e de propriedade. Em terrenos como o da Medicina, ou da indústria farmacêutica, uma estrita privatização do conhecimento pode ser facilmente caracterizada como imoral, e uma espécie de habeas cognitio pode ser um instrumento tão importante no que se refere à vida como um valor quanto o habeas corpus representa no que tange à liberdade pessoal. O premiado trabalho que resultou no Prêmio Nobel de Economia para Elinor Ostrom em 2009, intitulado Understanding Knowledge as a Commons, representa um marco notável em tal percurso. Ao defender a caracterização do conhecimento como um commons, uma categoria criada para se contrapor à ideia de commodity,  situando o conhecimento ao lado da água que partilhamos ou do ar que respiramos, Ostrom alinhavou elementos teóricos especialmente fecundos, a serem explorados no sentido de redefinir a relação entre o público e o privado na produção e na circulação do conhecimento, com as consequentes redefinições de autoria e de propriedade. Iniciativas como a do Creative Commons constituem apenas o ponta pé inicial de um jogo que acabou de começar.

No terreno da Sociologia, a partir da primeira metade dos anos 1990, com a contribuição e a rápida evolução das tecnologias informacionais, crescem a cada dia as evidências de uma singular promiscuidade entre o Público e o Privado. A possibilidade aberta a praticamente todos os interessados de um acesso às redes sociais, espaço em que, paradoxalmente, a autoria e o anonimato continuamente proliferam, fez, já há algum tempo, sua mais importante vítima: a ideia de verdade. O fenômeno das fake news ocupa espaço importante na circulação de informações, sobretudo em épocas críticas, como a das eleições. Se há muito se sabe que a Educação é condição de possibilidade do funcionamento de uma Democracia, mais recentemente tornamo-nos mais conscientes de que há muito o que aprender no que tange à partilha do espaço informacional, com sua peculiar maneira de imiscuir e promiscuir os espaços público e privado. Em meados do século XIX, Eça de Queirós advertiu um amigo que pretendia fundar um jornal, em uma carta a ele dirigida em que associa o aumento na circulação de notícias com o crescimento da intolerância. Ao acolher autores com ideias semelhantes, que continuamente se fermentam e se alimentam, os jornais, segundo Eça, em tal carta, poderiam favorecer tal desvio. Eça foi, sem dúvida, premonitório, os aspectos supostamente negativos que aponta nos jornais têm sido amplificados milhares ou milhões de vezes pelas redes sociais.

É no terreno da Política, no entanto, que as transformações nas relações entre o Publico e o Privado se tornam mais sutis e mais tensas.  De fato, como bem apontou Galbraith no livro anteriormente citado, a divisão entre Estados capitalistas ou socialistas tornou-se claramente insuficiente para a caracterização da orientação política de cada um. A associação simplista do capitalismo com a prevalência do Privado, e o socialismo como a predomínio do setor Público rapidamente tornou-se inexpressiva. O fracasso de regimes como o da ex União Soviética pode ter sugerido, de início, um triunfo da perspectiva capitalista, mas rapidamente o capitalismo amplificou algumas de suas facetas  mais perversas, como é o caso das dificuldades na circulação de bens fundamentais para a vida humana entre todos os necessitados. A despeito de tanto sucesso na produção de riquezas. em todos os lugares, a desigualdade iníqua é cada vez maior.  E não se trata apenas de ocorrências de tais disparidades em países periféricos. Nos últimos meses, a divulgação ampla na mídia de um fato provocou desconforto e teve consequências práticas imediatas. Na divulgação dos resultados econômicos relativos ao ano de 2017, anunciou-se que o principal acionista de uma grande empresa no mercado do comércio e de tecnologia faturara em dividendos cerca de 3 bilhões de dólares, ao mesmo tempo em que o salário médio dos programadores de sua bem sucedida empresa seria de apenas 4 dólares a hora… Em cerca de um mês, a repercussão negativa provocou duas inciativas marcantes do principal acionista: uma doação de cerca de 1 bilhão para uma causa educacional nobre e, o que é mais importante, um aumento do piso salarial para os programadores para 15 dólares a hora… Um efeito político absolutamente desejável seria uma “contaminação”  das políticas de remuneração de todos os empregadores, tanto no setor público quanto no privado, pela consciência, ainda que tardia, do acionista acima referido. Remunerar adequadamente o trabalho é, sem dúvida, a política mais consistente de distribuição de renda.

É na confluência dos terrenos da Economia, da Sociologia e da Política, no entanto, que se dá a mais sutil das reconfigurações entre as relações entre o Público e o Privado. Com a inexpressividade do par capitalismo/socialismo na referência à realidade política dos diversos países, operou-se uma nova caracterização de tal distinção: há Estados cujo sistema produtivo é caracterizado como uma Economia de Mercado; outros, teriam uma economia marcadamente estatal, ou seja, excessivamente regulada/controlada pelo Governo. A expressão “Economia de Mercado” passou a representar um modelo amplamente desejável, sublimando as restrições ao capitalismo. Ao mesmo tempo, a regulação estatal, que admite uma discussão importante sobre seus limites, mas não sobre sua existência, passou a ser vista como intrinsecamente indesejável, tangenciando, às vezes, a seara do anarquismo.

O aspecto sutil de tal mudança de perspectiva é a ocorrência concomitante de uma prosopopeia do Mercado, ou uma espécie de humanização de tal constructo . Todos os dias, somos informados de que “o mercado está nervoso”, “o mercado está otimista”, “o mercado reagiu mal às medidas do Governo”, como se a entidade “Mercado”, ou o Modelo da Economia de Mercado, ao invés de se esforçar para representar a realidade, às vezes falhando em tal intento, passasse a reger a realidade, como se tivesse vontade própria. Para representar uma síntese efetiva entre os interesses Público e Privado, o Mercado não pode ser como um ser humano isolado, uma pessoa desvinculada dos interesses da sociedade. O Mercado não é bonzinho ou malvado, é o que nosso projeto de país quiser fazer dele.

  • A Desigualdade de Renda, a Febre Amarela e o Big Bang

Há uma doença que ataca o mundo inteiro, produzindo estragos consistentes no modo de ser do ser humano. Mais letal que a febre amarela, tem as características de uma verdadeira pandemia: trata-se do crescimento desordenado da desigualdade de renda, uma espécie especialmente agressiva de câncer social. Alguns indicadores numéricos de tal síndrome: 1% da população mundial tem nas mãos 82% de toda a riqueza produzida; 50% da população mundial vive com uma renda de 2 a 10 dólares por dia; apenas 5 brasileiros ultrarricos têm em mãos 50% da população de renda mais baixa. Os dados são extraídos do Relatório recentemente divulgado pela ONG britânica OXFAM, mas números similares têm sido apresentados desde que a Revista Forbes instaurou a publicação periódica de tais listas de bilionários, em 1987. E o abismo que separa ultrarricos de superpobres somente tem aumentado, ano após ano. Todo o sistema econômico é organizado tendo por base princípios de promoção da desigualdade. O fundador /proprietário de uma marca de roupas (a Zara), um dos homens mais ricos do mundo, paga cerca de 4 dólares por dia aos trabalhadores que emprega, ao mesmo tempo que recebe cerca de 1,5 bilhão de dólares de dividendos oriundos de sua vasta produção. Em grande parte das empresas, a remuneração dos executivos corresponde até 20 vezes o salário médio dos encarregados pela produção.  No Brasil, considerado um dos países mais desiguais do mundo no que se refere à distribuição da riqueza produzida, os impostos correspondentes à transmissão de heranças atingem no máximo 8%  do patrimônio, enquanto no Reino Unido pode chegar a 40%. De modo geral, os 10% mais pobres do Brasil gastam 32% de sua renda em tributos, enquanto os 10% mais ricos gastam cerca de 21%.

Para corrigir a anomalia de tal estado de coisas, não faltam ideias interessantes, mas sim a coragem de implementá-las. Uma Reforma Tributária teria que partir de uma valorização efetiva do trabalho, em contraposição às rendas provenientes do patrimônio e da riqueza. Precarizar as condições de trabalho, minimizar despesas, especialmente com salários, tendo em vista maximizar lucros, é um caminho que já sabemos onde vai dar. Políticas compensatórias, do tipo Renda Mínima, são paliativas, não atingindo o cerne das causas da desigualdade excessiva, de natureza economicamente cancerosa. É fundamental manter o foco das atenções no fato de que quem vive de salário não vive de rendas… O sistema tributário não pode fazer vista grossa para o fato de que a única maneira justa de distribuição de renda é a justa remuneração do trabalho.  Compensações para situações especiais, em que deficiências físicas ou resultantes da idade são evidentemente necessárias, mas a regra geral deveria ser, sem dúvidas, a distribuição da riqueza por meio de uma remuneração digna, qualquer que seja a natureza do trabalho realizado. Um problema teórico importante dificulta, no entanto, qualquer iniciativa que possa ser tomada no sentido acima indicado. Em uma época em que o conhecimento se transformou no principal fator de produção, constituindo a grande riqueza a ser distribuída, não sabemos como atribuir valor a tal riqueza, persistindo a intenção tácita de tratá-la como se tratam as mercadorias em sentido industrial. Mas o conhecimento não se esgota em sua dimensão mercantil. Ele é um bem que se pode dar, vender ou trocar sem ficar sem… Trata-se de uma fonte de paradoxos, em nossa tosca contabilidade mercantil. Trabalhos como a economista Elinor Ostrom, primeira mulher a receber o Prêmio Nobel de Economia (2009) com o conceito de commons,para se contrapor ao de commodities, ainda permanecem incipientes. Ao incluir o conhecimento na categoria de commons, como o ar ou a água que nos mantêm vivos, Ostrom apontou numa direção auspiciosa, mas seu falecimento poucos anos depois da obtenção do Nobel pode ter atrasado um pouco a amplificação de suas ideias.

Um ponto crucial, no entanto, permanece pouco referido pela maior parte dos analistas da problemática da contabilidade das riquezas e de sua distribuição mais justa: não sabemos mais como calcular o PIB a ser partilhado. De fato, a produção de riquezas distribui-se pelo mundo mais em função de facilidades tributárias do que da nacionalidade das empresas, o que pode não afetar o PIB mundial, mas afeta drasticamente o PIB de cada país. Mais grave ainda, no entanto, é o fato de que a rede mundial de computadores, que transformou noções de tempo e de espaço, está a redefinir a própria ideia de moeda, com bitcoins ou outras criptoficções. É sintomático que se fale muito mais de aumento ou diminuição dos PIBs nacionais, sem referência mais explícita ao PIB mundial, às miraculosas startups, que extraem valor do nada, ou das criptomoedas, uma verdadeira febre amarela que ainda devorará o fígado de muitos investidores, que transformam esperteza em riqueza.

A situação não é simples, exigindo grandeza na concepção de riqueza. A Economia Virtual poderá nos levar a descobrir que a explosão do big bang, em vez do início de tudo, poderia ser o ato final de uma brincadeira de mau gosto.

  • Gravidez não é Doença, e Salário não é Renda…

Algumas décadas já se foram, mas me lembro bem da insistência do ginecologista que assistiu o nascimento de meu primeiro filho, diante do excesso de preocupações de um pai calouro, ao reiterar a mensagem: “Gravidez não é doença!” Ainda que em situações excepcionais possa sê-lo, normalmente, obviamente, não o é. Trata-se de um recado simples, muitas vezes solenemente olvidado, em cenário impregnado de inovações tecnológicas, em que um médico costuma solicitar a priori um grande número de exames, antes mesmo de olhar nos olhos ou conversar com o paciente, em que o parto natural  é tantas vezes desnecessariamente transformado em cirurgia. Talvez não seja excesso de otimismo acreditar que um reconhecimento progressivo de tais desvios esteja ocorrendo, e a consciência da sabedoria expressa na mensagem tranquilizadora “Gravidez não é doença” venha crescendo, em todo o mundo.  Tais fatos me vêm à mente em decorrência de outra comparação igualmente pertinente, que necessita da construção de uma consciência similar: “Salário não é renda”.  Tecnicamente até pode sê-lo, mas a sabedoria popular, expressa no uso corrente da linguagem, é absolutamente transparente: ninguém diz, de alguém que vive de seu próprio salário, que “vive de rendas”. Na teoria econômica, a renda é entendida como a remuneração dos fatores de produção. O salário seria a remuneração pelo trabalho; os juros e os lucros seriam a remuneração pelo capital; os aluguéis a remuneração pela propriedade… O Imposto de Renda iguala todas essas formas de remuneração, incidindo de modo quase inescapável sobre os salários e sendo muito mais generoso com os ganhos associados ao capital. Entre as inúmeras reformas da legislação vigente que periodicamente vêm à tona  (Reforma da Previdência, Reforma Política, Reforma Tributária,…), talvez a mais simples delas fosse a que mais eficazmente produziria efeitos sociais: refiro-me a uma distinção mais nítida entre salário e renda, estimulando-se e valorizando-se decididamente a remuneração do trabalho, expressa pelo valor do salário, e tratando da renda, entendida em sintonia com o sentido popular do “viver de rendas”, ou seja, primordialmente, como a remuneração do capital e da propriedade, e estabelecendo alíquotas mais justas no sentido da distribuição da riqueza produzida. Em termos radicais, poder-se-ia simplesmente estabelecer que “salário não é renda”; em busca de alguma contemporização, poderia ser criada uma distinção nítida e crucial entre a renda que vem do trabalho e a que vem do capital ou da propriedade, criando-se uma alíquota menor (talvez única) para o salário e alíquotas progressivas para a tributação da renda. Não custa sonhar…

  • Bill Gates e as Privadas Inteligentes

Deu na mídia: a Fundação Bill e Melinda Gates anunciou a criação de uma privada tecnologicamente avançada, tendo em vista uma solução para o problema da carência do saneamento básico no mundo. Curiosamente, apesar de não recorrerem ao efeito de um sifão e de dispensarem completamente o uso da água, as novas privadas mantêm a forma usual. O processo de utilização, no entanto, é outro, transformando-se o excremento em material seco que pode ser usado como fertilizante. Inicialmente, o preço de cada unidade é muito alto, não se vislumbrando de imediato uma disseminação de seu uso. No entanto, como acontece em situações similares, o custo marginal tende a diminuir e os problemas crônicos do saneamento básico que atingem numerosos e populosos países, inclusive o Brasil, podem ser abordados em outra perspectiva. Depois de ter inovado no desenvolvimento de produtos relacionados com a inteligência humana, Gates agora abre os portões para o que está sendo chamado de “inteligência” das privadas.

  • O Capim, o Leite, o Estrume e a Flor

Em interessante matéria publicada em jornal (OESP, 13-08-2017), o biólogo Fernando Reinach explora de modo instigante o fato de a ciência estar avançando no sentido de transformar racionalmente ração vegetal em carne, desde a produção do frango até a de hambúrguer de soja, ou ainda, o incremento transgênico da produção do filé de salmão. Há pouco, em outro veículo da imprensa, (FSP, 14-04-2017), o aparente milagre da produção do perfume da orquídea a partir de leveduras que se alimentam de lixo também foi saudado em prosa e verso. Criar o animal para o abate já causa certo estranhamento em certa parcela da sociedade, composta pelos vegetarianos ou veganos; basear o tempo de vida de cada um deles em sua taxa de conversão na transformação de ração em carne é dar um passo à frente em tal estranhamento. A taxa de conversão é a razão entre a massa de ração utilizada em cada animal e os quilos de carne produzidos. Nos frangos, a taxa de conversão é 1,8, ou seja, gasta-se 1,8 kg de ração para produzir 1 kg de carne; a taxa é igual a 4 para os porcos, e, para desapontamento dos produtores, próxima de 7 para as vacas. Nossos avós escolhiam um frango no quintal e procediam como num ritual – que tinha, certamente, algo de macabro – para a morte por meio do corte no pescoço, a extração do sangue para a cabidela, ou a preparação da galinhada. Hoje, a vida de um frango para o abate dura exatos 39 dias, tempo após o qual a taxa de conversão do frango começa a aumentar, o que não se pode admitir.  Uma mensagem que parece decorrer de experiências como as citadas é a de que a objetividade da ciência estaria conduzindo a certa desvalorização dos meios, a uma centralização absoluta das atenções nos fins dos processos. Abaixo os rituais, abaixo os simbolismos, delete-se tudo o que parece supérfluo. O progresso nos processos faz tudo parecer inteiramente natural, dentro da lógica da otimização dos retornos, mas pode haver algo de assustador em tudo isso. O perfume sintético das orquídeas, o filé de soja e outros neo quitutes podem conduzir a extremos de intolerância, em que não tenhamos paciência nem mais pelos meios: vamos direto à origem, à fonte. A vaca transforma magistralmente capim em leite: tecnicamente, podemos produzir um atalho científico e passar a comer diretamente o capim. Não custa lembrar que uma roseira extrai do estrume que a alimenta o perfume de suas rosas… No livro Viagens de Gulliver, Jonathan Swift põe na boca do narrador, na visita à Academia de Lagados, algo relacionado à temática que examinamos. A Academia seria o local em que se produz ciência nos micromundos imaginados pelo autor. Em tal visita, o narrador descreve a maior das pesquisas realizadas em Lagados, que seria justamente a da transformação reversa do excremento em alimento, o que constituiria um progresso fabuloso na economia da alimentação.  Ironicamente, afirma que os resultados já estariam bem avançados, mas que um problema concreto estaria afligindo os cientistas envolvidos: o odor dos laboratórios não seria agradável. Quando são examinados com uma lupa, os processos econômicos associados à produção de medicamentos também não cheiram bem. Os princípios éticos que parecem guiar a indústria farmacêutica não parecem diferir muito da busca exclusiva pela maximização dos lucros. A alegoria de Swift parece perfeita e certamente nos faz parar para pensar, mas o problema fundamental de pesquisas como as inicialmente descritas neste texto é o da desvalorização dos meios nos processos vitais que nos mobilizam. Vivemos o tempo presente, que é uma duração, uma durée, segundo Bergson; a longo prazo, todos estaremos mortos.  A vida mesmo, a vida vívida e vivida de modo pleno, vale pela caminhada, pelos processos de aprendizagem que ocorrem ao longo da viagem. A vida não se resume à partida ou à chegada: a vida é durante.

  • Excrementos no Everest e nas Redes Sociais

Os jornais estamparam manchetes insólitas: “Fezes viram problema ambiental no Everest” (FSP, 2/11/2018). Subitamente, os dejetos deixados pelos alpinistas no local desde 1953, quando o Monte Everest foi pela primeira vez escalado, tornou-se um problema efetivo. Os dejetos não se decompõem na neve, e sua caprichosa conservação provocou medidas de proteção ao meio ambiente. O governo do Nepal passou a obrigar cada alpinista a apresentar na volta de sua empreitada, bem ou mal- sucedida, que pode durar de 6 a 8 semanas, um montante de 8 kg de fezes. Uma multa de US$ 4000 passou a punir, desde 2014, quem descumpre a regra.

Apesar de inusitada, a questão que está em jogo é simples; simples, mas crucial. A Terra é nosso lar comum e somos responsáveis pelos nossos atos. O que surpreende é o fato de precisarmos ir até o Everest para nos conscientizar de nossa responsabilidade com relação aos efeitos dos dejetos que continuamente produzimos. O não equacionamento do saneamento básico é a causa de doenças e mortes em muitos países, inclusive no Brasil. O montante de indivíduos que escalaram – ou tentaram escalar – o Everest desde 1953 é o de alguns milhares de indivíduos.  Em termos estatísticos, a influência global dos excrementos dos alpinistas é menos importante do que a obrigação dos donos de animais de recolher as fezes de seus estimados bichinhos. Os problemas de saúde e as mortes de dezenas de milhões de pessoas atingidas pela carência de saneamento básico são muito mais graves. A maior lição a ser aprendida com a manchete do Everest não é, no entanto, de natureza estatística, mas sim de natureza simbólica. É necessário assumir a responsabilidade pelo que excretamos, tanto do ponto de vista biológico, quanto no que se refere a outros tipos de excrementos, como alguns textos – ou quase isso – postos em circulação nas redes sociais, e eufemisticamente rotulados de Fake News. O simbolismo do Everest representa uma contribuição fundamental para a tomada de consciência de tal responsabilidade, antes que o Everest – e as redes sociais – se tornem montes de excrementos.

  • O Mar e a Bússola: A Fragmentação e as Ideias Fundamentais

Avalanche de dados

Como já dizia há algumas décadas um compositor popular em inspirada canção, “Quem lê tanta notícia?” Jornais e revistas multiplicam-se e recheiam-se de bizarrices, como recurso para chamar a atenção. Livros acumulam-se nas livrarias; editores pagam caro para dispor de espaço nas vitrines. Escreve-se sobre tudo e sobre todos, de biografias de recém-nascidos às regiões acinzentadas das relações sexuais; das mais insólitas idiossincrasias às realidades mais banais. De maneira ainda mais impressionante, a rede www continuamente disponibiliza dados cada vez mais abundantes, sobre todos os temas imagináveis. O volume de dados é imenso, a insuficiência no tratamento é a regra, a carência de estrutura é total. Como uma imensa avalanche, os dados ultrapassam os limites de nossa capacidade de informação e simplesmente nos soterram. Prestamos atenção numa frase solta aqui, noutra acolá. Somos convidados a repetir jargões ou palavras de ordem. Não nos tornamos mais sábios; apenas, mais sabidinhos.

Fragmentação e liquidez

A fragmentação do conhecimento é a regra. A multiplicidade de disciplinas explode ao final do ensino médio, ocupando as mentes adolescentes. Plenas de vida em sentido pleno, elas buscam significado para as ações que projetam, mas ele não se revela nos cacos de um vaso despedaçado cuja integridade não se conheceu. O esfacelamento disciplinar é como uma paráfrase da máxima marxista: o que era sólido desmanchou-se no ar. Se a rigidez iluminista incomodava mentes mais humildes, a pós-modernidade reduziu todas as certezas a pó, esvaziando o sentido das ações ordinárias. Valores fundamentais para a estruturação da vida perderam o sentido; atualmente, há pudores até ao falar-se do sentido dos vetores.

Como um recado para desafiar desilusões irresponsáveis, pensadores como Bauman apostam numa razão líquida, que perderia a rigidez, mas conservaria o volume. A submissão à forma do recipiente revela os limites de tal metáfora: na construção do significado, existem ideias e estruturas fundamentais.

A importância do fundamental

Uma grande ideia nos marca para sempre: quem abriu os olhos para ela, jamais a esquecerá. Mas esquecemos facilmente os pormenores de um fato, o que é absolutamente salutar, ou nos tornaríamos paralisados, como Funes, o memorioso, personagem de J. L. Borges.

É possível discorrer sobre um tema desfrutando apenas do interesse despertado, sem intenções de mapear o que é mais relevante; quando restrições de tempo ou de objetivos exigem, é preciso saber ater-se ao que é fundamental. De modo geral, explorar as ideias fundamentais torna qualquer tema mais compreensível do que quando se dá excessivo destaque a pormenores. Além disso, a ênfase no que é fundamental encurta a distância entre um conhecimento superficial e um conhecimento avançado de um tema. De fato, existe uma linha direta entre o fundamental e o elementar em sentido etimológico.

Naturalmente, no caso, o pulo do gato é a distinção entre o fundamental e o acessório: sem critérios nítidos, corremos o risco de confundir gatos e lebres.

Fundamental: ser ou não ser é a questão

Em qualquer tema, uma ideia fundamental deve apresentar simultaneamente três características cruciais:

– sua importância pode ser justificada por meio da linguagem ordinária, sem necessidade de arsenais terminológicos compreensíveis apenas por especialistas;

– ela não é isolada, devendo articular-se com diversas outras ideias do tema, o que pode promover uma articulação interna e uma estruturação do conteúdo estudado;

– ela nasce em um tema específico, mas transborda, inevitavelmente, os limites da disciplina original, explicitando conexões com outras disciplinas.

A ideia de energia, por exemplo, é fundamental na Física. A vida é movimento e a energia é a capacidade de produzir movimento. As diversas formas de produzir movimento conduzem aos diversos tipos de energia (mecânica, elétrica, térmica, etc.), estruturando internamente a Física. Mas a ideia de energia transborda as fronteiras disciplinares, articulando a Física com outras disciplinas, como a Biologia, a Química, a Geografia etc.

  • Disciplina é Competência: o caso do Trivium

O primeiro currículo na história do pensamento ocidental foi o TRIVIUM. Nele confluíam três disciplinas que constituíam as vias de acesso ao conhecimento: GRAMÁTICA, LÓGICA e RETÓRICA. Na formação greco-romana, o que todos os que estudavam tinham que aprender, o “trivial”, era o TRIVIUM, e era evidente a todos as competências pessoais que se desenvolviam por meio de tais disciplinas. A Gramática não era um fim em si mesmo, nem a Lógica, nem a Retórica; eram meios para a comunicação com os outros, para a construção de argumentações consistentes. Especialmente a Retórica, que hoje goza de má fama, era um instrumento essencial na escolha de modos de falar e de argumentar que favorecessem o convencimento. “Convencer” é um belo verbo: é vencer junto com os outros, é criar as condições para chegarmos juntos às mesmas conclusões. Hoje, as disciplinas escolares se multiplicaram e, algumas vezes, algumas delas parecem muito distantes dos interesses da nossa formação para uma vida em sociedade.

  • Habilidades Socioemocionais, Nietzsche, o carioquinha e o velho chinês

Em matéria jornalística de destaque (Folha de São Paulo, 30/06/2017), o professor e psicólogo americano Oliver P. John proclama que a escola não pode se limitar a lidar com números e livros, que as pessoas é que contam, e que as chamadas “habilidades socioemocionais” deveriam preponderar nas ações educacionais. Por trás do biombo do aparente consenso, algumas dissonâncias fundamentais eivam a argumentação do celebrado educador. Justamente por concordar com a mensagem principal do texto, a lembrança do aforismo nietzscheano, segundo o qual “a maneira mais pérfida de se combater uma causa é defendê-la com um péssimo argumento”, nos leva a explicitar três de tais dissonâncias.

Em primeiro lugar, a concepção de inteligência professada parece um tanto limitada e mesmo extemporânea. Afirma-se literalmente que “Já nos demos conta de que não conseguimos solucionar nossos problemas só com inteligência. QI não é tudo. … A inteligência tem um grande componente biológico, por isso não é a melhor coisa para tentar influenciar na escola. Você quer influenciar o conhecimento e ensinar habilidades socioemocionais.” Nos tempos atuais, associar a inteligência em sentido humano apenas ao famigerado QI, redenominando o que transborda a dimensão biológica é, digamos assim, subestimar nossa inteligência.

Em segundo lugar, as concepções das relações de colaboração entre a família e a escola também nos pareceram simplificadas; interpretadas literalmente, tangenciam o absurdo. A autoridade do pai e da mãe é de natureza distinta da autoridade do professor. A afirmação literal de que “o professor é como outra mãe ou como outro pai para a criança; meus professores mais significativos foram os que me ensinaram coisas que meus pais não sabiam ou não dominavam” ignora solenemente que o foco principal da colaboração escola-família não se situa nos conteúdos específicos, mas sim no que se refere aos valores,

Em terceiro lugar, a exemplificação de como ensinar as “habilidades socioemocionais” na escola por meio de temas de  conteúdo matemático beira certa ingenuidade patética: “Por exemplo, o professor de matemática vai ensinar divisão. Em vez de dizer vamos dividir 10 por 4, ele fala que você montou uma banca para vender limonada com quatro amigos (ou seriam três?) e ganhou U$ 10. Depois pergunta como dividir esses U$ 10, que estão em moedas de U$ 0,25, por vocês quatro. Esse é um problema socioemocional, porque você quer que o aluno faça uma divisão justa.” Não é fácil levar a sério tal pretensão de, como direi, socioemocionalização. É muito difícil não lembrar do grande filósofo brasileiro Millor Fernandes, em sua instigante quadrinha: “Tudo aquilo que eu digo/Teria mais solidez/Se, em vem de carioquinha/Eu fosse um velho chinês.” Não seria necessário ir tão longe para nos brindar com tais pérolas epistemológicas.

  • Competência: Rasa ou Profunda?

Desde que entrou em cena, há cerca de 20 anos, a ideia de competência tem sido tratada de modo ambíguo, ora com extrema reverência, minimizando o papel dos conteúdos disciplinares, ora sendo duramente criticada por meio da associação com impertinentes caricaturas, o que facilita o trabalho do crítico, mas soa como uma espécie de trapaça.

Etimologicamente, a palavra competência tem origem na junção com + petere, expressão que significa saber buscar junto com os outros. Numa frase, a ideia de competência pode ser entendida como a capacidade de mobilizar o que se sabe para realizar o que se deseja, o que se projeta. Não pode ser competente quem nada busca, que nada quer; a inapetência é a antessala da incompetência. Por outro lado, quem age sempre isoladamente, sem o outro, pode ser muito “petente”, mas não “competente”. Nos primeiros currículos ocidentais, estudavam-se três disciplinas – Gramática, Lógica e Retórica – cujos conteúdos relacionavam-se diretamente com a formação pessoal esperada: o conhecimento da Língua nos aproxima visceralmente do outro; a capacidade lógica de argumentação nos abre portas para o acordo e a consciência; e na dimensão retórica do discurso buscamos formas eficazes de expressão e de argumentação, tendo em vista convencer, ou vencer junto com o outro. Não passava pela cabeça de ninguém que as disciplinas seriam fins em si mesmas: a todos era claro que constituíam meios para o desenvolvimento e a formação pessoal.

Com a ciência moderna, o número de disciplinas escolares aumentou muito, e a busca de uma síntese relativa ao que se buscava por meio delas se tornou necessária. Para nossos avós, no entanto, não parecia um grande problema: estudamos História, Geografia, Português, Matemática, Ciências, Fillosofia, etc, mas, ao fim e ao cabo, ao saírem da escola, os alunos deveriam saber Ler, Escrever e Contar: tais três “Rs” seriam as competências consideradas fundamentais a serem evidenciadas por todos.

Nas últimas décadas, a fragmentação disciplinar agravou-se e os currículos multidisciplinares passaram a reivindicar ações de interdisciplinaridade, de transdisciplinaridade, e a buscar formas de articulação como a reunião das disciplinas em áreas do conhecimento. Uma lista de competências a serem desenvolvidas por meio das disciplinas pretendeu explicitar, a partir do final da década de 1990, uma atualização da tríade Ler, Escrever e Contar.

Com o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), criado em 1998, uma lista de cinco competências básicas foi anunciada como fins a serem perseguidos por todas as disciplinas. Tais seriam as capacidades de expressão de si, de compreensão do outro, de argumentação, de enfrentar situações-problema em diferentes contextos, e de, extrapolando as análises, fazer propostas de intervenção solidária na realidade. Todas as disciplinas teriam, então, como função no currículo propiciar o desenvolvimento de tais competências gerais.

Alguns desvios de percurso ocorreram, e as cinco competências gerais enunciadas pelo documento instituidor dos primeiros exames do ENEM transformaram-se em mais de 100 competências nas quase seiscentas páginas da Base Nacional Comum Curricular. Compreensões aligeiradas da ideia de competência levaram a uma redução do significado da mesma a sua dimensão técnica, afastando-se paulatinamente do terreno dos valores, imediatamente presente nas formulações iniciais. A partir daí a expressão “competências sócio-emocionais” passou a ser utilizada com frequência crescente, registrando-se que não bastam as “competências cognitivas”, seja lá o que esta última expressão signifique… Desde o início, aqui entre nós e no mundo, a ideia de competência não se reduzia a sua dimensão técnica, incluindo explicitamente valores que favoreçam a ação junto com os outros. Reiteramos o que anteriormente já registramos: quem somente pensa em si, quem não se sujeita, não se submete à existência do outro, pode ser muito “petente”, mas não seria “competente”. Fazer uma caricatura da ideia de competência, ignorando sua relação primária com os valores, pode facilitar a crítica, mas não parece consistente com a história da ideia.

Circunstancialmente, assistindo a uma interessante apresentação de um competente professor, justamente reconhecido como uma autoridade na área da tecnologia educacional, deparamos com uma afirmação sobre a noção de competência que certamente poderá atrair adeptos e repercutir entre os participantes do evento em questão (www.youtube.com/watch?v=lcq9cXBAIA), mas que não me parece passar de uma nova caricatura de tal ideia. Trata-se de uma contraposição, não pertinente, a nosso ver, entre as ideias de competência e de compreensão. O palestrante afirma, enfaticamente, que não se justifica dar importância à ideia de competência, que a busca da compreensão é o que verdadeiramente importa, uma vez que “a competência é rasa; a compreensão é que é profunda”. Não se pode discordar nem um tostão da afirmação de que o que realmente importa é a compreensão; somente não conseguimos atinar, senão como mera caricatura, para o fundamento da afirmação de que a ideia de competência é rasa. Talvez seja mera incompetência minha.

  • Mito ou Verdade?

Nos últimos anos tem sido comum a questão apresentada no título, como se vigorasse uma triangulação simples, em que “mito” fosse sinônimo de “mentira”, que, por sua vez, seria o oposto de “verdade”. Em tempos de pós modernidade, em que nossas certezas foram reduzidas a pó, em que convivemos com ideias lânguidas como as de Fake News e de “pós verdade”, a escolha que a pergunta sugere somente pode ser classificada como ingênua ou mal informada.

De fato, a ideia de verdade há muito se afastou do caráter binário, do Verdadeiro ou Falso excludente e totalizante, em que se supunha a inexistência de uma terceira alternativa, nem o “acúmulo” de funções entre o V e o F. Salvo casos especialmente simples, a correspondência direta entre um enunciado e um fato é uma quimera, e a Lógica tornou-se um pouco mais humilde, aceitando um terceiro estado em que não afirmamos nem negamos a verdade. Em outras formulações, a Lógica também assumiu a realidade do embaçamento, incorporando as probabilidades de modo consistente, em sua versão “Fuzzy”. E nas entranhas de sua vertente mais dura, a Lógica Matemática, a transformação mais séria se deu por meio da remissão da ideia de verdade à meta linguagem, a uma espécie de transcendência. Hoje, aceitamos que somente se pode falar de modo consistente da verdade de uma proposição P de uma linguagem L, que fala de objetos, se recorremos a uma linguagem L’ de ordem superior, que tem como objetos as proposições da linguagem L. As sentenças de L’, por sua vez, somente poderão ser classificadas em V ou F em uma linguagem L’’, de ordem superior a L’, e assim por diante. Mesmo perdendo a chancela da nitidez iluminista, na relação com o mito vê-se que a ideia de verdade não perdeu a pose.

Quanto ao mito, uma análise do verbete correspondente no Dicionário de Filosofia de Abbagnano revela que três são as acepções em que a palavra é utilizada em sentido filosoficamente adequado, e nenhuma delas pode ser associada à ideia de uma simples mentira, como se verá.

A primeira acepção é a de uma forma aproximada, imperfeita, da ideia de verdade, como era a visão de Platão ou de Aristóteles. A expressão mítica seria, em certos campos, a forma possível de se aproximar do verdadeiro. Aceita-se que o que o mito afirma não seria perfeitamente explicável, nem demonstrável como um resultado científico, mas traduziria bem mensagens de natureza moral ou religiosa. A limitação da verdade do mito seria inerente a sua natureza, convivendo com a expectativa de rigor interpretativo do conhecimento em outras áreas.

A segunda acepção do mito é oposta à primeira, no sentido de que a ideia de mito é uma forma fecunda e autônoma de pensamento, que não deveria ser considerada como uma verdade empobrecida. Autores como Cassirer, Vico ou Schelling exploram a riqueza da linguagem mítica, da mesma maneira que um poema não é um cálculo empobrecido, ou uma obra de arte não é um produto industrial rudimentar. Em sua inspiradora obra (Filosofia das Formas Simbólicas), Cassirer apresenta múltiplas formas de acesso à realidade, cada uma com seus recursos e suas limitações: a ciência, o mito, a arte são algumas de tais formas, que deveriam interpenetrar-se continuamente.

A terceira acepção de mito decorre de teorias sociológicas ou psicológicas, que não separam o universo mítico da realidade imediata, recorrendo a ele para exercer certo tipo de controle sobre tal realidade. É o caso, por exemplo, dos trabalhos de Malinowski, no terreno intermediário entre a sociologia e a antropologia, bem como de reflexões como as de Jung no terreno da psicologia. A busca do equilíbrio entre a desvalorização platônica e a supervalorização da lavra de Cassirer é o nó górdio da questão. Tudo isso, no entanto, situa-se em um plano muito superior ao da mera distinção entre verdadeiro ou falso, como sugeririam, ingenuamente, tantas enquetes realizadas pelas redes sociais, ou pelos meios de comunicação.

  • Verdades e Mentiras sobre a Verdade e a Mentira
  • A expressão “pós-verdade” sugere que a ideia de verdade já era, o que é uma deslavada mentira. Dois exemplos simples podem sustentar tal afirmação. No terreno econômico, a sociedade em que vivemos também é chamada de “pós-industrial”. Isto significa que não é mais verdade que a maior parte da força de trabalho situa-se na indústria, o setor de serviços incorpora a grande maioria dos trabalhadores. Mas é certamente uma mentira afirmar-se que a indústria não mais existe. No terreno da sociologia, a chamada “pós-modernidade” transformou o sentido da razão, que perdeu a rigidez cristalina do iluminismo, mas não foi reduzida a pó, como pretendeu o marxismo. Em vez de anunciar o fim da razão, o trabalho do preclaro Bauman nos iluminou, redesenhando a ideia de racionalidade com a metáfora da razão líquida. Analogamente, no terreno filosófico, a ideia de verdade sofreu grandes transformações, mas, em sintonia com a fina ironia de Mark Twain, as notícias de sua morte são um tanto exageradas.
  • Nunca foi simples falar sobre a verdade. A abordagem inicial, que a associava a uma correspondência direta entre um fato e um enunciado, esbarrou em sucessivos obstáculos que acabaram por explicitar um fato patente: a realidade dos fatos não é verdadeira, nem falsa, ela simplesmente é. Verdadeira ou falsa é a asserção que enunciamos sobre os fatos, e não existe métrica confiável que inter-relacione a verdade de uma proposição e a putativa realidade dos fatos, senão em situações muito simples, teoricamente pouco relevantes. Falar sobre a verdade, então, é falar sobre sentenças de determinada linguagem, e não diretamente sobre a realidade em si mesma. A verdade ou a falsidade de uma sentença da linguagem L somente pode ser estabelecida em uma linguagem L’, de ordem superior a L, que tem como objetos as sentenças de L. Essa remissão da verdade para a transcendência da linguagem que se habita é da lavra de Tarski, e entusiasmou muitos filósofos ou cientistas, como Popper, por exemplo.
  • A ideia de verdade certamente não acabou, mas, a despeito do otimismo líquido de Bauman, muitos pretenderam reduzi-la a pó. O enfraquecimento do caráter absoluto da verdade conduziu a uma conclusão logicamente indevida de que ela apresentaria um absoluto relativismo. Isso, no entanto, representa uma caricatura impertinente do que efetivamente ocorre. Trata-se de um jogo de palavras tão insustentável quanto seria uma conclusão sobre a relatividade dos valores éticos a partir dos fundamentos da teoria da relatividade einsteiniana. A necessidade de se referir a verdade a contextos específicos situa-se no meio de campo desse jogo linguístico: ela não é absoluta para todos os contextos, mas sua aderência a contextos específicos somente pode ser estabelecida a partir de valores profundos, que subjazem a todos os contextos. Ainda que em algumas situações nos faltem as palavras para nos expressar racionalmente, subjaz uma compreensão tácita, de natureza pré-conceitual, da ideia de verdade.
  • Tradição, Tolerância, Opinião, Respeito

No dia a dia, há um uso pré-conceitual, e muitas vezes preconceituoso, das palavras “tradição” e “tolerância”. Enquanto a primeira é considerada de maneira frequentemente negativa, a segunda circula com acepção nitidamente positiva. Mas nem sempre a tradição é ruim, e nem toda tolerância é boa. A ideia de “opinião” pode ilustrar tal fato. A liberdade de opinião é um fundamento da democracia. A ignorância parece intolerável, mas opinião não é conhecimento e é preciso ser tolerante com a diversidade de opiniões, o que nos leva de volta ao ponto de partida: a tradição é a opinião dos mortos. Cultivar sua presença é preservar a cultura. Fechando o círculo, a etimologia do verbo “respeitar” é iluminadora. Res + spectare significa, literalmente, olhar para trás. Somente é possível respeitar o que tem passado, e o fazemos olhando para trás. O novo nunca elimina o velho: ele o ressignifica. A recusa sistemática da tradição é sintoma de crise, de doença social, como bem registrou Hannah Arendt.

  • Conversar e Convencer

Conversar é trocar ideias, é possibilitar a circulação de opiniões, sem o peso da intenção do convencimento. É como fazer um exercício mental juntamente com os outros, sem o envolvimento em uma disputa. Não existem vencedores ou vencidos em uma boa conversa.

Convencer, por outro lado, remete-nos imediatamente à argumentação, ao enfrentamento de um ponto de vista oposto. É como se fosse uma luta, mesmo virtual, como uma partida de xadrez. Ainda que não seja inevitável, podem ocorrer descuidos verbais que conduzam à desagradável sensação da bifurcação entre vencedores e vencidos.

O melhor antídoto para isso é uma pitada de etimologia: convencer é vencer junto com o outro, é chegar à compreensão do objeto da disputa em sintonia com o oponente. Um desvio fatal para uma boa conversa é justamente a mudança de perspectiva, fazendo-a adentrar o eixo orientado pela argumentação, e assumir as intenções de convencimento.

Uma boa conversa pode nos esclarecer sobre certos fatos, mas nunca é absolutamente constrangida pela necessidade da busca da verdade: a carência a ser preenchida é da sintonia de opiniões. Já a argumentação situa-se em um eixo em que a verdade e a mentira são fundamentais. Quem argumenta defende a verdade de uma proposição, que é sua conclusão, tendo por base a verdade das premissas alinhadas.

A corrupção de uma argumentação é uma trapaça, que mantém o compromisso com a verdade, ainda que de forma negativa. Já a corrupção de uma conversa não a transforma em uma mentira, uma vez que esta, como o eixo argumentativo, mantém um compromisso com a verdade, na verdade com a negação da verdade…

A corrupção de uma boa conversa a transforma em algo sem vida, sem coerência  interna, no terreno das ideias do enunciador, nem sintonia com as opiniões do parceiro. Se o oposto de uma boa argumentação é uma trapaça, o contrário de uma boa conversa é o que sugere o titulo de um pequeno livro do filósofo Harry Frankfurt. Em inglês, foi publicado como On Bullshit; em português, o título escolhido foi Sobre falar merda.

Uma parte não desprezível do que circula nas redes informáticas, particularmente as chamadas Fake news,  não constitui uma argumentação, não tem a arquitetura de uma trapaça, nem a de uma simples conversa: o rótulo frankfurtiano parece mais adequado a tal desvio.

Ensino Híbrido ou Anfíbio?

Nílson José Machado www.nilsonjosemachado.net

A expressão “ensino híbrido” está ocupando todos os espaços na comunicação em tempos de pandemia. Grosso modo, refere-se apenas a uma mistura de ensino presencial e à distância, mas é preciso cautela em seu uso: trata-se de uma metáfora infeliz. Como no caso da “educação à distância”, a expressão pode confundir – e em geral confunde – alhos com bugalhos.

Comecemos com a ideia de distância. No sentido mais frequente, o termo “distância” remete imediatamente à distância física ou geográfica. Nesse sentido, é possível dizer que a educação à distância sempre existiu, uma vez que entendemos e aceitamos que nem tudo o que aprendemos precisa ocorrer na presença física de um professor. A ideia de “lição de casa”, ou de “dever de casa” traduz bem a complementaridade fundamental entre as ideias de ensino presencial e à distância física.  

 Mas a ideia de distância é muito mais rica, indo muito além de tal senso comum. Ela pode se referir à distância entre os significados distintos de um mesmo termo, ou à distância entre os modos como diferentes pessoas pensam sobre determinados temas. Afinal, posso me sentir mais próximo de um japonês com o qual troco e-mails diariamente, por exemplo, sobre temas de interesse comum, do que de meu vizinho ao lado, fisicamente próximo, mas muito distante em termos de interesses pessoais. Internamente à própria Matemática, existe uma disciplina intitulada Topologia (topos quer dizer lugar, em grego) que trata da ideia de proximidade, da noção de vizinhança em sentido amplo, não apenas no sentido físico ou geográfico.

O fato é que, nesse sentido mais amplo de distância, não existe o que seria uma “educação à distância”: a ausência de proximidade conduz a uma deficiência fundamental na ideia de educação. Uma educação consistente pressupõe que professores e alunos se sintam próximos, criem sistemas de proximidades. Para funcionar adequadamente, a organização da escola não pode prescindir, pois, da aproximação entre alunos e professores.

Como compreender, então, a força da expressão “educação à distância” em ambientes impregnados de tecnologia? O que a tecnologia trouxe de mais importante em termos de inovação não foi o elogio acrítico do “ensino à distância, mas sim a criação de múltiplos sistemas de proximidades entre pessoas ou fatos geograficamente afastados. Sobretudo após o advento das redes informacionais, foram construídas diversas formas e recursos para nos sentirmos próximos uns dos outros, mesmo quando fisicamente distantes. A cautela necessária com a expressão “educação à distância” pode ser sintetizada no fato de que ela somente se justifica quando entendemos a distância nesse sentido mais restrito de distância física, geográfica; quando ampliamos a ideia de distância, a expressão traduz um abuso de linguagem e é difícil de se sustentar…

A pandemia nos afastou fisicamente, ao mesmo tempo em que fomentou atividades on line, em que, sincronicamente ou não, buscamos meios de nos aproximar dos outros. Existem sinais, no entanto, de que, mesmo quando ela se for, o recurso das atividades on line não desaparecerá. Por diversos caminhos, confluímos para uma situação em que a organização da escola e das atividades de ensino deverá assumir uma forma mista, misturada, híbrida, no sentido de conjuminar atividades presenciais e atividades à distância física. Sutilezas e matizes ainda ocupam lugar no cenário, distinguindo atividades on line sincrônicas ou assincrônicas, e por aí vai. Sinteticamente, no entanto, a conclusão parece simples: um mix entre atividades presenciais e à distância física tenderá a ser a regra. Um curso 100% presencial parece um desperdício, e um curso 100% à distância física soa como uma enganação; o busílis da questão é o design do curso, é a composição de um mix equilibrado.

É aí que começa o cuidado para se evitar outro abuso no uso da expressão “ensino híbrido”. Entendê-la apenas como sinônimo de ensino misto, uma mistura de ensino presencial com o ensino à distância, pode conduzir a uma heterogeneidade genérica pouco esclarecedora. Afinal, não parece minimamente aceitável embaralhar as funções das diversas formas de ensino sem considerar suas peculiaridades essenciais. É preciso dar ao presencial o que é do presencial, sem mitigar, nem minimamente, o enriquecimento que as atividades on line propiciam. Em outras palavras, ao pretender se tornar uma panaceia, o “ensino híbrido” se banaliza e se esvazia.  

Uma pitada de cautela, pois, é necessária na exploração da expressão “ensino híbrido”. Como metáfora inspiradora das ações educacionais ela pode ser associada a situações bem pouco interessantes, quando consideramos o significado do hibridismo no terreno da Biologia. Uma dessas comparações desagradáveis nas relações com os animais é a esterilidade como sina dos resultados dos cruzamentos. Da cópula entre o cavalo e a jumenta, nasce o burro ou a mula, que não herdam a capacidade de se reproduzir. Ninguém gostaria de transportar metaforicamente tal característica para o terreno das relações entre os ensinos presencial e à distância.

Eis aí um cenário a partir do qual, na construção de uma epistemologia consistente, a expressão “ensino híbrido” poderia ser substituída pela expressão e pela ideia de “ensino anfíbio”. Afinal, se uma metáfora representa, como sugeriu Borges, uma “simpatia secreta entre conceitos”, então a palavra “anfíbio” parece muito mais fecunda, simpática e empática do que a palavra “híbrido”. Ela pode traduzir uma metáfora mais inspiradora e sugestiva que a esterilidade do hibridismo. De fato, aqui, a etimologia é muito mais generosa. A palavra “anfíbio” tem origem grega: anphibion deriva de anphi e de bion, ou seja, aquilo que tem dois modos de ser, ou dois tipos de vida. Na natureza existem mais de 500 tipos de animais anfíbios; muito conhecido é o sapo, que vive entre os ambientes aquosos e terrestres. Uma característica metaforicamente interessante é o fato de que os sapos nunca se afastam muito da água, que é o meio em que usualmente se alimentam e se reproduzem. As relações entre o ensino presencial e o ensino à distância, seriam, pois, similares às relações entre os ambientes aquoso e terrestre na vida dos anfíbios. Aproveitemos os elementos terrestres que nos facilitam a vida, mas, como os sapos, não temos dúvidas, não podemos nos afastar muito da água.

O ensino presencial é essencial para a educação como a água para a vida. Mesmo metaforicamente, longe de nós a esterilidade do hibridismo. Que viva uma educação anfíbia, que viva a água!!

                                               *****10-03-21

Salário não é renda: Saudades de Franco Montoro

No nível do senso comum a questão parece simples: não se pode dizer de alguém que vive do próprio salário que “vive de rendas”. Associamos viver de rendas ao estado em que o dinheiro produz dinheiro. Salário é remuneração pelo trabalho realizado, é o pão obtido pelo suor do rosto, não é o resultado de uma aplicação financeira.

No campo teórico, a questão não é tão simples; a ideia de renda é mais ampla e entende-se que o salário faz parte da renda. Em consequência, trabalhadores pagam Imposto de Renda – e como pagam!

Durante muitos anos, o político Franco Montoro – ex-Senador e ex-Governador do Estado de São Paulo – defendeu a bandeira de que “Salário não é renda”. Um artigo especialmente singelo com o título de sua bandeira foi escrito por ele no jornal Folha de São Paulo em 16 de outubro de 1964. A Constituição vigente era a de 1967, produzida pelo Regime Militar iniciado em março de 1964, e que permaneceria em vigor até 1988. As palavras de Montoro podem ser associadas, portanto, a um debate permanente sobre o tema, parcialmente provocado pela Constituição de 1934.

Como se sabe, a constituição supra referida exclui explicitamente do pagamento do Imposto de Renda os autores de livros, os jornalistas e os professores. Tais benefícios corporativos, no entanto, duraram apenas 3 anos, e logo a Constituição de 1937, conhecida como “a polaca”, mudaria o cenário, transformando radicalmente a situação política do país e mudando o rumo das discussões.     

Voltemos ao rumo inicial da prosa: Salário não é renda? Naturalmente, a distinção resultaria de um entendimento formal da ideia de salário, e é aí que a referência ao artigo de Franco Montoro pode nos ajudar a alinhavar algumas questões anuviadas pelas novas formas de produção, especialmente nas últimas cinco décadas.

No cenário econômico, o conhecimento transformou-se no principal fator de produção, tendo se integrado ao mundo do trabalho de uma maneira tal que nenhum habitante da Grécia Antiga poderia conceber. Em tal processo de integração, o tratamento do conhecimento como uma mercadoria em sentido industrial tem-se revelado inadequado em pelo menos dois sentidos. Em primeiro lugar, o conhecimento é uma “mercadoria” que eu dou, vendo, ou troco e não fico sem… Como lidar com a contabilidade referente a tal “ativo”? Em segundo lugar, a “mercadoria” conhecimento é tal que não se pode falar propriamente em “estoque”. Quase diariamente vivenciamos como cidadãos a expectativa de aumento ou de diminuição de estoque das mercadorias, o que influi imediatamente em seu preço. Como proceder, então no caso da mercadoria conhecimento? Quem controla seu estoque?

Tais questões nos induzem a necessidade de uma transformação – ou mais que isso, uma verdadeira metamorfose na ideia de mercadoria, de modo a considerar a dimensão mercantil presente na circulação, na compra e venda do conhecimento, sem ignorar que o conhecimento não se esgota em tal dimensão.

Uma contribuição significativa a tal reconfiguração da concepção de conhecimento como mercadoria  resultou, nas últimas 3 décadas, do trabalho de Elinor Ostrom, que recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 2009, caracterizando a ideia de Commons. Seu trabalho Understanding Knowledge as a Commons representa uma virada semântica. Ostrom explicita que existem coisas, como o ar e a água, que estão no mundo para serem partilhadas, e que não podem ser tratadas apenas em sua dimensão mercantil. O fato notável é que Ostrom inclui o conhecimento científico na lista de Commons. Sem meias palavras: o conhecimento são pode se limitar a sua dimensão mercantil.

 A situação a que nos tem levado a pandemia do novo corona vírus escancarou as portas da necessidade de não se tratar uma vacina como uma mercadoria em sentido industrial. Especialmente no que se refere à indústria farmacêutica, tal necessidade de transformação já esteve presente há quase três décadas no programa de governo de Al Gore, ex-candidato à Presidência dos EUA, em seus slogans contra a indústria farmacêutica.

O pensamento sobre a ideia de commons é rico, inspirador, e, ao que tudo indica, ainda insuficientemente conhecido e explorado. Infelizmente, Ostrom faleceu em 2012, o que de modo algum impede, mas pode atrasar um pouco a atenção mundial que seu pensamento merece.

Se, no universo econômico, a ideia de mercadoria está sendo reconfigurada, no sentido sugerido pelo trabalho de Ostrom, uma metamorfose conceitual semelhante está a merecer a ideia de salário. São amplamente conhecidas e reconhecidas as metamorfoses do trabalho, parcialmente articuladas com as transformações do conhecimento como o principal fator de produção. Articuladamente com tais metamorfoses, carecemos com certa urgência de um aprofundamento crítico na ideia de salário. Um bom ponto de partida em tal questão pode ser o artigo exemplar de Franco Montoro, escrito em 1964, como se disse no início de nosso percurso.

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VERA FÉ

É simples assim:

O motor de tudo

O que há no mundo

É a vera Fé…

…que é a Fé em si,

É a Fé nos outros

Fé na razão viva

Que nos põe em pé.

Todos os caminhos

Toda nossa lida

Nada faz sentido

Se nos falta a Fé…

…a Fé no sentido!

Que é a vera Fé.

Concluo arriscando

Ditos parecidos:

Esperança é quando

Só sobrou a Fé

Desespero é quando

Soçobrou a Fé.

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Notas sobre a ideia de Representação

Nílson José Machado

njmachad@usp.br

Representações Mentais e semióticas

O acesso aos objetos da realidade se dá sempre por meio de representações. A Língua Materna e a Matemática são dois sistemas primários de representação; a Arte, a Religião, o Mito, a Ciência são outras formas de acesso à realidade. Cassirer investiu muita energia na busca de um diálogo entre as diversas formas simbólicas, produzindo uma obra seminal. Duval (2009) também deu sua contribuição a respeito de tal temática, pretendendo que não se pode conhecer, ou seja, compreender o significado, em qualquer tema, se não se distingue com nitidez um objeto de sua representação, ou de suas múltiplas representações. Apresenta a semiósis e a noésis como duas formas complementares de representação. A primeira delas consistiria na construção de uma linguagem escrita, que conduziria a uma representação semiótica do objeto; a segunda consistiria numa apreensão das ideias fundamentais na caracterização do objeto, traduzido. desse modo, em representações mentais. Segundo Duval, as duas etapas – noésis semiósis – não ocorreriam independentemente uma da outra. Na noésis, o objeto seria traduzido em representações mentais; na semiósis, tais representações seriam traduzidas em representações semióticas, produzindo-se, assim, uma verdadeira polifonia na conjugação das múltipals formas de expressão. Duval conclui afirmando que a compreensão conceitual aparece ligada à descoberta de invariantes  entre representações semióticas diversas. Apesar de parecer um sedutor caldo de galinha, tal expectativa precisa ser vista com certa cautela. Em primeiro lugar, nem sempre um invariante assim é encontrado, como bem o traduz a fecunda ideia wittgensteiniana de semelhança de família. Em segundo lugar, mesmo quando existem invariantes desse tipo, a compreensão conceitual pode não ser palatável no nível em que se realiza o discurso. Muitas e muitas vezes operamos de modo profícuo na antessala dos conceitos, na região fecunda e maleável das representações preconceituais consistentes, que justamente por não se pretenderem conceituais não correm o risco de serem taxadas de preconceituosas.

Representação: uma síntese provisória

Em sua caracterização dos tipos de representação, Birch (1971) é incisivo ao pretender que todas as formas de representação podem ser incluídas em uma das quatro categorias – delegação, amostragem, simbólica ou política -, e insistindo ainda na independência lógica das categorias referidas, bem como na irredutibilidade de uma delas a qualquer uma das outras. Ele afirma textualmente que “não existe qualquer processo intelectual válido pelo qual os quatro tipos possam ser agrupados, como os quatro quadrantes de um círculo, para formar algo que possa ser denominado ‘a verdadeira natureza da representação’. São conceitos diferentes etimologicamente relacionados, mas não fazendo parte de um todo” (p.229). Apesar disso, conjugando suas concepções e as de Pitkin, com seu insight binário standing for / acting for, creio ser possível sintetizar as duas perspectivas na seguinte tipologia das representações:

– Representações Standing for tipo Amostragem e Standing for tipo Simbólica;

– Representações Acting for tipo Delegação para Fins Particulares e Acting fortipo Delegação para Fins Gerais.

Em palavras: toda representação é sempre uma instrumentação para a ação, conjugando uma dimensão standing for e uma dimensão acting for. É sempre, portanto, uma mescla do tipo standing for acting.  Tal fato não impede, no entanto, que, em alguns casos, sobreleve uma das duas dimensões, predominando a intenção do standing for, ou a do acting for.  Em cada uma dessas duas vertentes, podem ser identificados dois tipos bem caracterizados, correspondendo a dois níveis de abrangência. No caso da vertente standing for, destacam-se a representação como amostragem, abrangendo um amplo espectro de possibilidades, todas subsidiárias de uma compreensão, mesmo sem vinculação direta com qualquer ação específica; e a representação simbólica, bem menos abrangente, que não extrai sua representatividade de elementos quantitativos, mas sim dos princípios e valores envolvidos. No caso da vertente acting for, uma bifurcação análoga se dá em decorrência dos diferentes níveis de generalidade dos fins da delegação. No caso das representações delegadas para fins específicos, limitados no espaço e no tempo, a autonomia dos representantes é mais limitada, e a satisfação direta dos interesses dos representados é condição de possibilidade de uma boa representação política, a delegação é acompanhada de uma autorização para a ação em nome dos representados. Naturalmente, tal autorização está associada a um mandato com duração fixada, que não pode ser retirado do representante, senão em situações excepcionais, e a uma imprescindível prestação de contas, especialmente ao final do mandato. Nesse sentido, é de Voegelin (1979) um alerta importante, no discernimento entre os papéis do representante ou do agente, tão próximos na delegação para fins particulares, e tão distintas no caso da representação política. Um agente é uma pessoa a quem um superior hierárquico atribuiu determinado poder para tratar de assuntos específicos; um representante em sentido político, no entanto, pode agir em nome da sociedade ou de valores maiores do que as peculiaridades ou os interesses mais idiossincráticos dos outorgantes de seu mandato. O caso específico da representação política, no entanto, poderá ser examinado com mais profundidade em outro momento.

Representação: duas modalidades básicas

Em seu seminal livro The Concept of Representation, Hanna Pitkin distingue fundamentalmente dois tipos de representação: as que se situam no âmbito do Standing for, e a que buscam as condições do Acting for. Em outras palavras, nas representações do tipo standing for, os representantes situam-se no lugar dos representados, constituindo uma amostragem ilustrativa, ou então, representam simbolicamente os outorgantes, não havendo uma referência direta à realização de ações efetivas em nome deles. Convergem, assim, para os significados de representações simbólicas ou como amostragem, apresentadas por Birch. Já as representações do tipo acting for referem-se diretamente a delegações de funções restritas no tempo e no espaço de significações, em que o outorgante encarrega o outorgado de agir por ele, nas condições estritas fixadas no contrato, ou então, apresentam um escopo mais amplo, como é o caso da representação política. Apesar de iluminadora, a distinção de Pitkin apresenta uma dificuldade conceitual reconhecida por todos os que se ocuparam com tal temática, denominado por muitos como o paradoxo da democracia representativa. Trata-se, no caso, da situação dilemática que consiste em garantir a participação do povo, fundadora da democracia, por meio justamente da delegação de tal participação a um conjunto de representantes. Não parece possível nem desejável o extremo de o representante subordinar continuamente suas ações à vontade dos representados, nem o outro extremo de agir por inspiração pessoal, independentemente dos representados, e até mesmo de modo conflitante com seus interesses. Outro problema conceitual importante é o fato de que as duas modalidades de representação sugeridas por Pitkin entrelaçam-se continuamente. Em situações concretas, o standing for é a antessala do acting for, constituindo, praticamente, uma modalidade única: standing for acting. A representação política apresenta-se como um complexo especialmente construído para a articulação das duas modalidades sugeridas por Pitkin. Ano âmbito da política, a escolha dos representantes busca espelhar os interesses da diversidade de opiniões, de classes de equivalência da sociedade, não no sentido estrito da amostragem estatística, nem ignorando questões fundamentais relativas aos valores que dão sustentação ao projeto nacional. Não parece razoável exigir-se que, como as mulheres constituem 51% da sociedade, a amostra de representantes mantenha tal proporção. Homens ou mulheres participam de representações políticas como cidadãos, extrapolando em muito as questões de gênero. Em outro contexto, conceitualmente similar, parece mais fácil o acordo com relação ao fato de que os criminosos condenados, ainda que numerosos, não devem fazer jus a uma representação política na mesma proporção de seu número.

Representação: quatro núcleos de significado

Quando se ajusta o foco na ideia de representação, deixando de lado, tacitamente, a representação de objetos por signos, e pensando apenas a representação de pessoas, ou de grupos de pessoas, por outras pessoas, é possível situar quatro núcleos de significado para tal ideia. Três deles referem-se a relações sociais, políticas ou não; o quarto diz respeito mais diretamente à ação política.

Uma primeira situação é a da representação como delegação, que ocorre, por exemplo, quando um advogado nos representa em um processo jurídico, ou, de modo geral, quando nomeamos uma pessoa para representar certos interesses especificados pelo nomeador em contextos determinados. Representantes comerciais, ou embaixadores também são exemplos efetivos de tal ideia de representação. Uma característica crucial na ideia de delegação é a da tarefa específica a ser realizada pelo representante, que delimita com nitidez a tarefa específica da representação. Esta primeira acepção é certamente a mais ampla, incluindo diversas variações, como mais adiante será visto.

Uma segunda situação é da representação como amostragem, em que o conjunto de representantes caracteriza-se como uma amostra da totalidade dos representados. No caso da constituição de colegiados, em diferentes contextos sociais, tal acepção costuma ocupar lugar de destaque. Se todos os membros da Câmara dos Deputados são agricultores, os industriais podem não se sentir bem representados. De modo geral, a ideia de amostragem estatística pode parecer sedutora em questões políticas ou sociais, mas existem limites para tal sedução. Ainda que, circunstancialmente, uma Câmara possa ser integrada por notórios criminosos, não parece aceitável advogar-se explicitamente pela eleição de um representante da bandidagem para o exercício legislativo.

Uma terceira acepção da ideia de representação se dá em nível simbólico, tal como ocorre com os signos na linguagem. A representação como símbolo é menos explícita, mas não é menos importante que as anteriormente citadas. O Presidente do país nos representa, tal como a bandeira representa o país, de uma maneira simbólica. Não se pode ignorar a força e a importância do simbolismo na organização social humana. Na arte, nos esportes, é quase desnecessário destacar a importância do simbolismo, que também está presente na liturgia associada aos cargos, tanto nos rituais religiosos quanto nos processos burocráticos do Estado, na legitimação das estruturas de poder. No terreno da política, a subestimação da força de simbolismos espúrios já demonstrou seus efeitos deletérios, em diferentes momentos da História.

Uma quarta acepção da ideia em foco é a representação política, que envolve delegação, amostragem e simbolismo, mas que apresenta certas características mais abrangentes que caracterizam sua especificidade. A consolidação do valor e da importância da Democracia é representada sinteticamente pelo aforisma de Churchill: trata-se da “pior forma de governo, com a exceção de todas as demais”. A questão fulcral, no entanto, é a da caracterização do regime democrático como forma de governo. A ideia de uma democracia direta, de um governo do povo, pelo povo, para o povo, realizado por meio de assembleias incluindo todos os envolvidos, há muito não faz mais sentido, tendo sido efetivamente realizada em algumas poucas décadas, envolvendo alguns poucos milhares de habitantes. O povo, como se sabe, já excluiu as mulheres, os escravos, os estrangeiros, os analfabetos, os sem posses. Com o natural e desejável alargamento da ideia de povo, as dificuldades crescentes da participação direta em assembleias conduziram o pensamento político à ideia de uma democracia representativa. Nela, o povo escolhe seus representantes, em geral por meio de eleições, e eles recebem uma autorização para agir em nome do povo, no exercício das relações sociais e políticas. Tal autorização, no entanto, apesar de se referir a todas as ações carentes de representação em sentido amplo, têm um prazo de validade fixado, que não pode ser muito longo, após o qual os representantes são cobrados e a representação pode ser renovada, em novas eleições. Autorização plena, cobrança de responsabilidades e renovação periódica são, pois, as marcas fundamentais da representação política.

Representação: o significado do significado

Uma investigação sobre o significado de qualquer ideia, mesmo as que se expressam por palavras de aparência ingênua, não pode ignorar três fatos fundamentais: o contexto, a historicidade e a não-conceitualidade.

Em primeiro lugar, o significado de uma ideia/palavra sempre se constrói por meio de relações percebidas no contexto em que a ela se apresenta. Tais relações entre a ideia/palavra nova e outras já conhecidas são constitutivas do significado emergente, que sempre se traduz em um feixe de relações.

Em segundo lugar, o significado nunca se constrói de uma vez para sempre, ele sempre é impregnado de História. O próprio contexto, de onde são extraídas as relações constitutivas, é historicamente situado. A ideia de cidadania na Grécia antiga não é a que se professa nos dias de hoje. Os significados evoluem e continuamente se transformam. As ideias são como seres vivos. Para lidar com isso sem desandar no paradoxo aparente traduzido pela máxima “só sei que nada sei”, um único caminho se oferece: o estudo da História. Não é possível conhecer o significado de qualquer ideia/palavra sem uma mirada na História. Seja qual for o tema estudado, o recurso à etimologia ou à evolução histórica das ideias científicas é sempre fundamental. Os significados evoluem e se transformam, mas isso não ocorre de forma aleatória: as transformações também têm um significado. E o estudo da História apresenta precipuamente esta função: a busca da compreensão do significado das mudanças de significado.

Em terceiro lugar, significado não é sinônimo de conceito. Uma compreensão satisfatória de uma ideia/palavra pode se situar – e em geral se situa – na antessala dos conceitos, no terreno dos esquemas perceptuais, das apreensões associadas a alguma Gestalt, das noções pré-conceituais, que não podem ter nem a ambição dos conceitos, nem a precipitação dos preconceitos. Um cidadão não-filósofo convive muito bem com a ideia de tempo em seus usos habituais, ainda que não disponha de um conceito de tempo, que não parece algo trivial. Para se falar em conceito, são necessárias descrições precisas, classificações nítidas, ordenações/hierarquias adequadas e alguma expectativa de racionalidade/causalidade. De modo geral, a compreensão ordinária do cidadão comum exige muito menos. Ao registrar que nos contentamos com compreensões pré-conceituais, não podemos, no entanto, abrir qualquer mínima fresta para os sempre indesejáveis preconceitos. Um preconceito nada mais é do que uma ideia pré-conceitual que se arvora do estatuto de um conceito, o que é epistemologicamente inaceitável.

Dois autores especialmente importantes para a compreensão da não-conceitualidade das nossas compreensões ordinárias são Vygotsky e Wittgenstein. O primeiro nos chamou a atenção para  a etapa intermediária do pensamento por complexos,  no caminho para a formação de conceitos. O segundo deu especial importância ao fato de que o espectro de significados expresso nos usos de uma ideia/palavra como “jogo”, por exemplo, não conduz facilmente ao estabelecimento do conceito de jogo, deixando-nos numa antessala, que corresponde aos esquemas pré-conceituais. Wittgenstein cunhou o nome de “semelhança de família” ao conjunto dos usos e das acepções de uma ideia/palavra: entre dois membros quaisquer da “família, sempre é possível perceber elementos comuns, mas a busca de invariantes comuns a todos os membros da família pode resultar, e em geral, resulta em fracasso.

A busca de uma “semelhança de família” que contemple os usos ordinários da ideia/palavra “representação” é uma tarefa que importa realizar.

Representação: o signo e as coisas

Vivemos em um mundo de coisas, que se multiplicam e se amontoam, mas Schopenhauer é incisivo: não existem objetos sem sujeitos, o mundo consiste em representações dos sujeitos, na objetificação e significação de nossas vontades. Em sintonia com Berkeley, o filósofo pretende que ser é ser percebido; tudo o que existe é resultado das representações de nossas percepções. As coisas são representadas por signos, que podem ter o caráter icônico, mimetizando o objeto representado, ou o caráter indiciário, como o que recorre à associação entre o todo e a parte representada, ou o caráter simbólico, em que a associação entre o representante e o representado é convencional e relativamente livre. As linguagens, como sistemas de signos, são ferramentas ou meta ferramentas para a representação, condição de possibilidade da ação comum, da comunicação. Representamos continuamente, e a vida humana alimenta-se das representações que produzimos, resultantes de nossa vontade de viver. Há cerca de duzentos anos, Schopenhauer nos chamou a atenção para tudo isso, em um livro seminal, escrito quando o filósofo tinha apenas 30 anos: O mundo como vontade e como representação. A língua nossa de cada dia é o mais fundamental de nossos sistemas de representação da realidade, caracterizando-se como um instrumento de humanização por excelência. Fazendo coro com Heidegger, Schopenhauer apresenta o ser humano como um ser da linguagem, que se alimenta continuamente das representações que prefigura e elabora. Uma oitava acima, na tessitura da vida, encontra-se uma atividade de representação de outro tipo, mas igualmente constitutiva do modo de ser do ser humano. Não se trata mais da representação de coisas por signos, para viabilizar a comunicação entre as pessoas, nem da interpretação de signos, para bem entender as pessoas, mas sim do recurso a pessoas para representar pessoas, em situações vitais, como a que ocorre nos processos políticos inerentes à vida em sociedade. A organização social não mais se pode fundar na democracia direta, que teve lugar por poucas décadas, em espaços geográficos restritos, envolvendo populações que não ultrapassavam alguns poucos milhares de pessoas. O caminho para a democracia representativa traz à lume uma necessária sistemática para a escolha de representantes de grandes contingentes de representados. Trata-se de uma ampliação expressiva e certamente não trivial na ideia de representação. Em que sentido os políticos que ocupam os espaços representativos do poder legislativo ou do executivo efetivamente nos representam? Qual o significado esperado de tal representação? Eis aí um tema para uma necessária reflexão.

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Mínimas sobre a Felicidade

1# Ter a felicidade como meta é quase uma garantia de a não alcançar; ela não é um ponto de chegada, é o percurso até ele; não é um particípio, mas sim um gerúndio; é um faciendum, não é um factum.

2# A família e os amigos são importantes para a felicidade, mas constituem um espaço de doação, de cultivo de laços, de respeito mútuo e de mútuas responsabilidades; sem isso podem se transformar em múltiplas fontes de infelicidade.

3# Ser feliz é vislumbrar sua vocação pessoal e ir ao encontro dela; é assumir a responsabilidade pela construção dos meios para que ela se realize; é compreender que ela não representa um caminho único, mas um espectro de possibilidades.

4# Ser feliz é alimentar projetos pessoais, é ter propósitos na vida, tanto no que se refere às ações imediatas quanto na prefiguração do futuro, mas também é sentir-se parte de algo maior do que nossos mais caros projetos pessoais, é encontrar espaços de companheirismo, de colaboração em construções coletivas.

5# A felicidade nasce da ação semeada pela contemplação, pelo fazer articulado com a palavra, pela reflexão sobre as razões para a permanência ou para a mudança de situações do statu quo; pela consciência na ação que conserva, na ação que transforma, na ação que não se conforma.

6# A felicidade nasce do equilíbrio na capacidade de sentir em si as dores do mundo, de assumir as responsabilidades inerentes a tal sentimento, sem sucumbir a tentações de desânimo ou desilusões consoladoras, que podem aliviar consciências locais, mas sempre constituirão luxos de minorias.    

7# A felicidade sempre pressuporá um espaço de ações aberto a escolhas pessoais, liberto dos constrangimentos tanto da norma legal quanto dos algoritmos: no terreno da ética, é o espaço do livre arbítrio; no terreno da arte, a abertura para a apreciação, para a autoria, para a criação.

8# Ser feliz é compreender que recebemos, ao nascer, a vida como uma dádiva, qualquer que tenha sido a circunstância em que isso tenha ocorrido; que o prazer que sentimos ao dar presentes, ao buscar os laços com os outros decorre da alegria de poder agradecer, cotidianamente, um pouquinho que seja, o mais precioso dos bens.

O Amor e outros alentos

                             Nílson José Machado             

                       SUMÁRIO

1 – Sobre a FÉ

2 – Sobre a ESPERANÇA

3 – Sobre a CARIDADE

4 – Sobre o AMOR

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        1 – Sobre a FÉ

Diz-se que a Fé move montanhas; mesmo parados, no entanto, ela nos mantém em pé. Toda ação a pressupõe. Discernimos o sentido local, mediato ou imediato, de nosso gesto; o sentido último somente advém da Fé. A razão de estarmos vivos, a crença em que nossa vida pessoal faz diferença, ninguém pode nos atestar de fora, é fruto de nossa Fé. Quando a perdemos, o mundo lá fora pode continuar exatamente como antes, mas desaba dentro de nós. O matemático em seus formalismos confia nos axiomas e extrai deles todas as consequências: se p, então q. Se duvida de um dogma/axioma, trata de substituí-lo, ou o sistema entra em crise. As religiões alimentam-se da Fé, mas a Fé religiosa é apenas um afluente do rio caudaloso que é a vida. Em sua Utopia, Thomas More é assertivo: quem não tem qualquer crença não é um ser humano. Aquilo em que cremos, no entanto, é de cunho pessoal: não existem igrejas em Utopia.

É apenas a Fé que nos faz, em meio à maior desdita, dizer da vida: é bonita, é bonita, é bonita.

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      2 – Sobre a ESPERANÇA

A Esperança decorre da Fé; a recíproca não é verdadeira. Não se resume à espera, pressupõe envolvimento, ação tácita, atuação sutil. A Esperança é um misto de coragem e temperança. Seu oposto é o desespero, ou o desequilíbrio entre tais polos, o que conduz ao desatino ou ao desamparo. Em ambos os casos, predominam a desilusão, a descrença no sentido da existência, a inapetência para o jogo da vida. Temos Esperança porque alimentamos a Fé no sentido. Não vivemos de Esperança, mas não vivemos sem ela, que é condição de possibilidade de qualquer projeto. Projetos condenados ao sucesso não são projetos: o risco sempre está presente. Na labuta diária, fazemos a nossa parte e torcemos ou rezamos: avivamos a esperança. Perder ou ganhar partidas são contingências da vida. Perder a Esperança, no entanto, é abrir uma fenda por onde se esvai a Fé, e com ela, a sentido último de nossas ações. Diz-se que a Esperança é a última que morre justamente porque, sem ela, não existe vida em sentido humano.

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              3 – Sobre a CARIDADE

Cuidar do outro, dar-lhe carinho, eis o sentido da caridade. A fundamental busca da ligação com os outros vai muito além dos limites de qualquer religião. Em sentido humano, não estamos vivos nem nos constituímos como pessoas sem os laços com os outros. Em tal sentido, o motor da ação humana é a doação, irmã siamesa da Caridade. Doamos/doamo-nos para criar laços. Os laços que estabelecemos com os outros são determinantes de nossa identidade. Aos familiares, reunimos os de amizade, os de parceria em variados âmbitos, os de solidariedade com as vítimas do que consideramos injusto, os de fraternidade com a totalidade do gênero humano. A Caridade não cabe dentro dos limites do mercado. A compra ou a venda de carinho é uma corrupção da ideia de caridade, uma aberração. Em nenhum lugar a máxima latina parece mais pertinente: a corrupção do ótimo é o péssimo. Dar volumosas esmolas pode não constituir um ato caridoso tanto quanto o é a cumplicidade de um olhar fraterno, afetuoso, compreensivo.

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       4 – Sobre o AMOR

A máxima de J. L. Borges é definitiva: Só podemos dar o amor, do qual todas as outras coisas são símbolos. Os laços que nos constituem como pessoas pressupõem o trio dar/receber/retribuir. É necessário um Tu, um outro a quem nos dedicamos. O amor ao próximo, como a si mesmo, traduz a imanência dessa articulação fundamental entre o Eu e o Tu. Amar o mundo é a condição de possibilidade de uma vida ativa, diz Hannah Arendt. A construção de uma identidade pessoal conduz à busca de um centro de gravidade em nossa relação com o mundo, um Tu pessoal que preenche os vãos de nossas vidas, do DNA aos mais caros projetos. Não existe vida em sentido pleno sem tal centro, que costumamos chamar de Amor. Amar é encontrar o que nos alenta, é alimentar uma comunhão total e vital. É entregar-se ao que nos completa: uma pessoa, uma causa, uma tarefa, um princípio. Como uma semente que ninguém plantou, num olhar que ninguém previu, de repente, o Amor surge: defini-lo é cortar o ramo de onde a flor pende.

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