SEMENTES 142 # VERDADES E MENTIRAS SOBRE A VERDADE E A MENTIRA – Parte I

 

  1. A expressão “pós-verdade” sugere que a ideia de verdade já era, o que é uma deslavada mentira. Dois exemplos simples podem sustentar tal afirmação. No terreno econômico, a sociedade em que vivemos também é chamada de “pós-industrial”. Isto significa que não é mais verdade que a maior parte da força de trabalho situa-se na indústria, o setor de serviços incorpora a grande maioria dos trabalhadores. Mas é certamente uma mentira afirmar-se que a indústria não mais existe. No terreno da sociologia, a chamada “pós-modernidade” transformou o sentido da razão, que perdeu a rigidez cristalina do iluminismo, mas não foi reduzida a pó, como pretendeu o marxismo. Em vez de anunciar o fim da razão, o trabalho do preclaro Bauman nos iluminou, redesenhando a ideia de racionalidade com a metáfora da razão líquida. Analogamente, no terreno filosófico, a ideia de verdade sofreu grandes transformações, mas, em sintonia com a fina ironia de Mark Twain, as notícias de sua morte são um tanto exageradas.

 

  1. Nunca foi simples falar sobre a verdade. A abordagem inicial, que a associava a uma correspondência direta entre um fato e um enunciado, esbarrou em sucessivos obstáculos que acabaram por explicitar um fato patente: a realidade dos fatos não é verdadeira, nem falsa, ela simplesmente é. Verdadeira ou falsa é a asserção que enunciamos sobre os fatos, e não existe métrica confiável que inter-relacione a verdade de uma proposição e a putativa realidade dos fatos, senão em situações muito simples, teoricamente pouco relevantes. Falar sobre a verdade, então, é falar sobre sentenças de determinada linguagem, e não diretamente sobre a realidade em si mesma. A verdade ou a falsidade de uma sentença da linguagem L somente pode ser estabelecida em uma linguagem L’, de ordem superior a L, que tem como objetos as sentenças de L. Essa remissão da verdade para a transcendência da linguagem que se habita é da lavra de Tarski, e entusiasmou muitos filósofos ou cientistas, como Popper, por exemplo.

 

  1. A ideia de verdade certamente não acabou, mas, a despeito do otimismo líquido de Bauman, muitos pretenderam reduzi-la a pó. O enfraquecimento do caráter absoluto da verdade conduziu a uma conclusão logicamente indevida de que ela apresentaria um absoluto relativismo. Isso, no entanto, representa uma caricatura impertinente do que efetivamente ocorre. Trata-se de um jogo de palavras tão insustentável quanto seria uma conclusão sobre a relatividade dos valores éticos a partir dos fundamentos da teoria da relatividade einsteiniana. A necessidade de se referir a verdade a contextos específicos situa-se no meio de campo desse jogo linguístico: ela não é absoluta para todos os contextos, mas sua aderência a contextos específicos somente pode ser estabelecida a partir de valores profundos, que subjazem a todos os contextos. Ainda que em algumas situações nos faltem as palavras para nos expressar racionalmente, subjaz uma compreensão tácita, de natureza pré-conceitual, da ideia de verdade.

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