SEMENTES 146 # A DARWIN O QUE É DE DARWIN…

“Questionar a veracidade da teoria da origem das espécies, desculpem, é ignorância”: assim se inicia um interessante texto recentemente publicado em jornal de grande circulação (FSP 9/12/18). Apesar da aparente delicadeza do xingamento aos críticos da Teoria da Evolução, opor de modo simplório o darwinismo à crença em Deus, ou interpretar literalmente o simbolismo e as alegorias das narrativas criacionistas também me parecem prova cabal de limitação intelectual ou de intolerância. As questões teóricas envolvidas são complexas e delicadas, não comportando simplificações que beiram o caricato, como as que estão presentes no texto citado.

A Teoria da Evolução é uma narrativa sedutora, que não pode ser interpretada como um experimento científico em sentido moderno, mas que responde de modo consistente a muitas questões abertas sobre o modo como se constituiu a vida em sentido humano. Quatro níveis de perguntas podem ser formulados:

– como surgiu a matéria inorgânica;

– como a vida foi criada a partir de tal matéria;

– como surgiu a protoconsciência em animais superiores;

–  como se desenvolveu a consciência nos seres humanos.

As narrativas parciais que podem explicar transformação dos monos em homens são consistentes, muito mais do que as que pretendem explicar a emergência da vida e a diversidade de formas de vida, e quase nada nos informam sobre como surgiu a matéria inorgânica de onde viria a surgir a vida. Um desconforto similar ocorre quando se tenta explicar a origem e a formação do universo físico: a grande explosão deu origem a tudo, mas o que foi que explodiu foi uma matéria que já existia ou teve que ser criada?

O fato é que não sabemos mais o que legitima o fato. A ideia de verdade não mais se situa na busca da correspondência entre a uma proposição e um contexto, uma região específica da realidade. Um dos trechos menos defensáveis da matéria jornalística é o que afirma que “ao contrário do pensamento científico, o religioso está alicerçado na fé.” A Ciência produz narrativas coerentes, e nisto não diferem muito das narrativas religiosas; em ambos os casos, exige-se fé. Não existe Ciência sem fé nos postulados; toda proposição científica é do tipo “se isto for verdade, então aquilo será”. Sem as crenças iniciais, não se demonstram os teoremas.

O conhecimento, hoje, se transformou no grande valor, no principal fator de produção. Cada vez mais, conhecer é conhecer o significado, e o significado se constrói em um mar de diversidade de sentidos, por meio de histórias que os entrelaçam, de narrativas coerentes, de histórias bem contadas. O caipira sabe disso, e nunca dispensa um causo na construção de seus argumentos; similarmente, em palestras para executivos, estão sempre presentes os indispensáveis cases, que traduzem histórias que, como no caso do caipira, se não são verdadeiras, são bem arquitetadas… Uma parte substantiva do fascínio dos games decorre da sedução de suas fantásticas narrativas.

Questões como a da existência de Deus ou sobre a Teoria da Evolução são suscitadas pela busca de um significado maior para a vida humana, para a existência pessoal de cada um de nós. Somos apenas uma cadeia de DNA que continuamente se multiplica, ou somos como amebas, que ostentam uma espécie de imortalidade por meio da eterna subdivisão?

Somos carentes de narrativas que nos sustenham, que nos iludam, no sentido mais nobre da palavra “ilusão”. Precisamos ter vontade de jogar o jogo, acreditar que nosso desempenho faz diferença, que o bem e o mal existem, que a vida humana é finita, que toda expectativa de justiça representa um balanço a posteriori, que o significado que muito prezamos nem sempre é possível compreender.

A escolha de uma religião representa um tipo de encaminhamento não racional para as questões maiores sobre o sentido da vida em geral e da vida pessoal de cada um. Não se trata de decisão irracional, mas sim de não racional. Pretender a racionalidade na opção por uma dada religião sempre conduz a uma espécie fatídica de intolerância. Mesmo sem uma opção religiosa, no entanto, para muitos, a existência de uma divindade representa simbolicamente a única maneira racional de compreender o sentido de uma vida justa e fecunda no que tange aos nossos projetos pessoais de formiguinhas, que nunca se elevam o suficiente para perceber que a gravidade varia com a altitude. Nesse sentido pessoal, a ideia de Deus prescinde completamente da prática de uma religião. Um exemplo notável de tal perspectiva é a de Viktor Frankl:  o sentido de Deus é essencialmente privado; Deus é meu interlocutor quando me encontro no diálogo mais íntimo possível comigo mesmo. Tal diálogo é o sentido mais fecundo da oração.

A Teoria da Evolução não trata de Deus do modo anteriormente referido, e toda versão do Criacionismo que insinua uma interpretação literal de algo que é de natureza essencialmente simbólica não merece qualquer atenção.

Desculpe-me o autor que opõe o Criacionismo ao Darwinismo, mas o que me parece ignorância é afirmar que tudo o que não é branco é preto.

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