SEMENTES 138 # FORMA (PUSH) E CONTEÚDO (FISH) NA AÇÃO/FORMAÇÃO DO PROFESSOR

PROFESSOR: O PROFISSIONALISMO EM QUESTÃO

Em comercial de uma instituição de ensino superior privada, um aquilino animador de programas de TV convidava o público a cursar uma licenciatura e tornar-se apto a fazer “bicos” como professor, incrementando seus rendimentos. De tão esdrúxulo, tal personagem não mereceria sequer um comentário de passagem, mas a concomitância com a divulgação da aprovação de um projeto de lei, da lavra do senador Cristóvão Buarque, propondo a federalização da profissão docente, põe em relevo uma “amplitude” de concepções, da mais abstrusa à mais inspirada, que não pode passar despercebida.

De fato, uma caracterização mais adequada da profissão docente é uma tarefa ingente. De início, é importante destacar que, com o devido respeito a toda e qualquer função que se exerça no universo do trabalho, não é qualquer ocupação que é uma profissão. A ideia de profissionalismo está associada ao desempenho de funções que, pela sua natureza específica, não podem ser reguladas exclusivamente pelas leis do mercado, nem pelos dirigentes da máquina administrativa do Estado, como é o caso dos serviços da saúde, da educação e da segurança pública. Algumas vezes, a própria imprensa frequentemente confunde a ideia de profissionalismo com a da mera competência técnica, dizendo de um crime hediondo, com requintes de perversidade, que “é coisa de profissional”. Outras vezes, atletas ditos “profissionais” deixam-se pautar exclusivamente pelas leis do mercado, atropelando compromissos previamente assumidos, em nome de afirmações do tipo “sou profissional”.

A ideia de profissionalismo, no entanto, é conceitualmente mais complexa, envolvendo três dimensões fundamentais: uma competência técnica, um compromisso público e uma autorregulação do exercício da atividade profissional. De fato, sem competência técnica em uma área de conteúdos específica não há profissionalismo, mas o bom profissional transborda em muito a mera competência técnica: ele tem compromisso com o público a que serve. Não é um bom profissional um médico, um juiz ou um professor que atende mal quem busca pelos seus serviços em decorrência das más condições de trabalho ou de salário a que é submetido. Um operário pode sabotar uma fábrica: um profissional da saúde, da educação ou da justiça jamais poderia pensar em recursos desse tipo. O compromisso de um profissional, no entanto, é a contrapartida para uma condição fundamental no profissionalismo, que é a autorregulação. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, ou os diversos Conselhos de áreas como Medicina, Psicologia, Engenharia, entre outros, são responsáveis pela regulação da atividade do profissional da área correspondente, viabilizando o equilíbrio e a equidistância em relação às leis do mercado e ao poder do Estado. Tais instituições têm Códigos de Ética que explicitam as responsabilidades e os compromissos da atuação profissional; outro âmbito é o das reivindicações de salários, reservadas aos respectivos sindicatos.

Ao pleitear que o magistério seja federalizado, assumindo as características de uma função como a do Ministério Público, o parlamentar supra referido revela-se, mais uma vez, um visionário. É fundamental lembrar, no entanto, que o paralelismo entre as carreiras do Magistério e do Ministério Público traria consigo um considerável aumento no nível de exigências para o ingresso na profissão docente, tal como ocorre no caso dos profissionais da justiça. Aos professores resta a iniciativa de assimilar as consequências do projeto de lei referido, assumindo as enormes responsabilidades inerentes a tal reordenamento profissional.

  FORMAÇÃO DO PROFESSOR: CONTEÚDO E FORMA

  Em recente Fórum de Inovação Educacional promovido por jornal de grande circulação, especialistas debateram sobre a formação do professor. O interessante material produzido representa uma contribuição importante para o tema. Não obstante tal fato, uma leitura apressada de tal material pode conduzir a derrapadas em algumas clássicas cascas de banana. Uma delas é a resposta à questão “O que define um bom professor?”, formulada pelos organizadores. Para a Diretora do Programa de Educação de Professores da Universidade de Harvard (EUA), Katherine Merseth, “o segredo é conhecer bem os alunos a ponto de estabelecer uma boa relação com eles e, ao mesmo tempo, agir com rigor em sala de aula.”

Naturalmente, a referida professora está dando como garantida a competência dos professores no que se refere ao conhecimento dos conteúdos disciplinares que devem ser ensinados, o que, nem de longe, pode ser considerado certo entre nós. Especialmente no que tange aos cursos de Pedagogia, o conhecimento de matemática, por exemplo, situa-se muito abaixo do mínimo que se poderia esperar na quase totalidade dos casos. As exceções que podem ser nomeadas apenas confirmam a regra. A aprendizagem de metodologias predomina amplamente, numa inversão de perspectivas que torna os meios mais importantes que os fins.

De modo geral, a falta de valorização dos conteúdos é muito frequente em quase todas as disciplinas, e isto ocorre há várias décadas. Em texto seminal, publicado na década de 1950, Hannah Arendt já caracterizara a crise na Educação americana como resultante de três grandes desgraças: a crise na ideia de autoridade, resultante do abandono acrítico da tradição; o desprestígio dos conteúdos, em nome de uma superestimação de metodologias fascinantes, mas perfunctórias; e, mesmo quando o conteúdo é abordado, a ocorrência frequente de uma subestimação da importância da teoria, com a correspondente supervalorização da prática.

Nunca será demais, no entanto, reiterar a importância da mensagem da educadora de Harvard, no que diz respeito à importância das relações de amizade, de tutoria ou de orientação, a serem estabelecidas entre professores e alunos. É imprescindível, no entanto, registrar explicitamente que tais relações não podem suprir a eventual falta de competência técnica dos docentes. Na formação profissional, em todas as áreas, o logos e o pathos, a razão e o sentimento, o conteúdo e a forma devem estar em permanente sintonia. Em última instância, no que se refere à forma de atuação, amar as crianças é lindo e é necessário, mas, decididamente, não basta. Não é possível equacionar o problema da formação sem uma atenção especial a questões relativas ao conteúdo a ser ensinado

FORMAÇÃO PROFISSIONAL:  FORMA (P.U.S.H.)

Já vai bem longe o tempo em que a vida profissional podia ser caracterizada por quatro fases nítidas: curso de formação, formatura/ingresso no mundo do trabalho, progressão na carreira e aposentadoria. Atualmente, em todas as áreas de atuação, toda formação é apenas uma formação inicial, um profissional nunca se sente “formado”, as carreiras nem sempre constituem hierarquias fixas, incorporando cada vez mais certo espraiamento horizontal que beira o nomadismo, e as aposentadorias estão se transformando em mudanças no tipo de atividade que nos atrai: aposentamo-nos de certas tarefas para realizar outras, muitas vezes com o mesmo entusiasmo do principiante.

No que se refere à forma, quatro palavras podem servir de base para caracterizar a formação profissional hoje, nas mais diversas áreas, e muito particularmente, na formação do professor: Permanente, Ubíqua, Simbiótica e Híbrida.

De fato, a ideia mais geral associada à formação profissional hoje é a de que ela é permanente, estendendo-se ao longo de toda a nossa vida. Aprendemos continuamente ao longo do tempo, como se estivéssemos andando de bicicleta: parar de pedalar é desistir da viagem. Toda formação, por mais específica que se pretenda, é sempre uma formação inicial. Na atuação profissional, no mundo do trabalho, estamos docemente condenados a estudar e aprender continuamente.

Complementarmente em relação a tal perspectiva de extensão temporal, multiplicam-se os espaços de aprendizagem. A regra geral é que a aprendizagem é ubíqua. Aprendemos no dia a dia do trabalho, nas horas de lazer, ao assistirmos a um filme ou em uma viagem de férias. Incorporamos relações, construímos ou ampliamos significações de modo ubíquo, em todos as situações de convivência. A escola continua a ser um importante espaço do conhecimento, mas nunca o foi de modo exclusivo, e cada vez tem peso menos determinante como lugar de formação profissional.

Uma terceira marca da formação profissional hoje é que ela é simbiótica no que se refere às relações entre a teoria e a prática. Ainda que um elogio tácito dos aspectos práticos da formação profissional permaneça subjacente, é cada vez mais evidente a importância da teoria como a visão que leva à compreensão. Sem a teoria, a prática é cega, é limitada. Somente recusa a teoria aquele que a associa à mera contemplação, desvinculada da ação. Um outro aspecto relacionado à simbiose teoria/prática é o par especialização/ generalismo, que pode representar outra forma de contrapor a prática da especialização com a visão mais distanciada – mais teórica – do generalista. A formação de especialistas é – e nos parece que será sempre – fundamental, mas a noção de especialidade se transformou. O especialista ironizado por Chaplin no filme Tempos Modernos não mais subsiste: as máquinas o estão substituindo. Mas isso não significa que estamos interessados em formar apenas generalistas: o especialista hoje é um consultor, é aquele que dispõe de uma competência específica em certo conteúdo, mas que consegue mobilizar tal conteúdo no sentido de fazer funcionar bem um sistema mais amplo, do qual sua especialidade participa. Um especialista hoje é alguém que se interessa por pontos/pixels que constituem uma foto, mas que compreende o significado da imagem representada, e, simbioticamente, alimenta seu interesse pelos pixels a partir da totalidade da imagem, e vice-versa. Em outras palavras, o consultor é portador de uma visão teórica legitimada por uma prática competente.

E finalmente, diante de um cenário em que a ideia de uma Educação à distância tende a se generalizar, a formação profissional hoje, em todas as áreas, compreende, mais do que nunca, uma dimensão híbrida, uma colaboração competente entre uma parte presencial, imprescindível para viabilizar a transformação de links em laços, e uma parte à distância, que sempre existiu, mesmo na mais clássica das formações. No caso específico da escola básica, uma evidência de tal hibridismo são as chamadas “lições de casa”, que constituem, efetivamente, uma educação à distância à moda antiga. De fato, uma formação inteiramente presencial pode significar um desperdício de competências, ao mesmo tempo em que uma formação exclusivamente à distância física pode constituir uma perigosa quimera. Nem tudo o que aprendemos pressupõe estarmos diante de um professor, mas uma formação humana sempre exigirá um sistema de proximidade entre educadores e educandos: tudo o que os recursos tecnológicos nos oferecem é simplesmente modos alternativos de nos aproximarmos uns dos outros. O hibridismo entre a formação presencial e a formação à distância é, enfim, o que deve prevalecer: a escolha do mix pode variar, em cada caso concreto, mas os dois ingredientes são absolutamente fundamentais.

FORMAÇÃO PROFISSIONAL: CONTEÚDO (F.I.S.H.)

Por mais que se pretenda, justificadamente, que na formação profissional os conteúdos são meios para o desenvolvimento das competências pessoais, não é aceitável a ideia de que eles não são primordiais no processo de formação. Na relação com as metodologias de ensino, geral por exemplo, os conteúdos são fins, as metodologias é que são meios. De modo, não é possível tergiversar: sem um conhecimento adequado dos conteúdos não existe profissional bem formado. Caricaturas do ensino dos conteúdos, no entanto, devem ser afastadas dos processos de formação. O chamado “conteudismo”, por exemplo, um fantasma que consiste no tratamento do conteúdo como um fim em si mesmo, é uma de tais caricaturas. A defesa da importância dos conteúdos precisa estar associada, portanto, a uma caracterização mínima do modo de tratamento dos temas de modo a tirar proveito de metodologias favorecer o desenvolvimento das competências.

No que se refere ao conteúdo da formação profissional, quatro expressões podem servir de guia para orientar a organização das ações docentes: Ideias Fundamentais, Centros de Interesse, Foco no Significado e Valores Humanos.

Comecemos com as ideias fundamentais. As críticas mais incisivas e justas ao “conteudismo” relacionam-se diretamente com a fragmentação do conhecimento disciplinar, que é marcante no funcionamento da escola, em todos os níveis de ensino. A impressão forte é a de que se perdeu o discernimento entre o que é fundamental e o que poderia ser um eventual complemento, entre do que é essencial e do que é acessório na infindável lista de conteúdos escolares. Existe em todas as disciplinas um pequeno elenco de ideias fundamentais que todo cidadão precisa conhecer, ao longo da educação básica. Fatos básicos sobre fotossíntese, genética ou DNA, em Biologia, por exemplo, mas os livros didáticos extrapolam em muito os limites dos fundamentos. Não se trata de eliminar qualquer uma das disciplinas, mas em acertar a mão na escolha da escala para o tratamento dos temas a serem ensinados. Em razão do fato de que as ideias realmente fundamentais nunca são isoladas, sempre se articulando mutuamente, no interior de cada disciplina, e de que tais ideias sempre transbordam os limites das disciplinas de onde emergem, situar o foco nos fundamentos contribui decisivamente para uma articulação interna de cada disciplina, bem como para a integração entre as diversas disciplinas. Os fundamentos de todas as disciplinas são conteúdos importantes na formação dos profissionais de todas as áreas.

No tratamento dos conteúdos, outra tarefa imprescindível é a criação de centros de interesse para a exploração dos temas disciplinares. Alunos naturalmente interessados nos conteúdos disciplinares existem, mas são poucos: é preciso mediar um frequente conflito entre os interesses dos alunos e o interesse dos cursos de formação, traduzidos em currículos e programas disciplinares. Motivações como a preparação para o trabalho em nível técnico não parecem atingir uma parte expressiva dos alunos. É necessário estabelecer relações entre as temáticas disciplinares e a Arte e a Cultura em sentido amplo. A Tecnologia também pode constituir um importante centro de interesses, alguns deles sem qualquer relação direta com o mundo do trabalho. E a Ciência pode se mostrar especialmente motivadora, se forem apresentadas suas faces mais instigantes, algumas delas com aparência mais ficcional do que boa parte dos filmes de ficção científica. Em diversos países do mundo dinâmicas de criação de centros de interesse estão em pleno curso, algumas delas rotuladas por siglas sintetizadoras como, por exemplo, STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics), ou STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts, Mathematics), entre outras siglas similares envolvendo a área da Saúde, e particularmente a Medicina.

Uma maneira especialmente efetiva de mobilizar os conteúdos tendo em vista o desenvolvimento de competências é manter em todos os temas e de modo permanente o foco das atenções no significado do que se ensina. Trata-se, no fundo, de uma mudança de atitudes em relação a uma perspectiva utilitária, que predomina na justificativa da apresentação dos conteúdos disciplinares. A costumeira questão “Para que serve isso?” precisa perder grande parte da relevância que tem na escola. Tudo o que se ensina deve ter significado, ainda que nem tudo o que se apresenta aos alunos tenha aplicação prática. Um poema não se justifica por putativas aplicações práticas. Um poema nos faz sentir, compreender, nos faz ver, perceber, imaginar. A, Arte em suas diversas formas de manifestação, também se faz presente e significativa em nossas vidas sem o sentido da aplicação prática.

E finalmente, mas não em último lugar, há a inescapável questão dos valores humanos. Todos os conteúdos apresentados, em todos os níveis de ensino, encontram-se absolutamente comprometidos com os valores fundamentais em nossa formação e constituição como seres humanos. Em última instância, todo o conhecimento se justifica apenas como meio para que as pessoas realizem seus projetos, mas projetos são sustentados por uma arquitetura de valores: projetos sem valores podem ser coisas monstruosas.

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