SEMENTES 129 # NÚMEROS REDONDOS NA MÍDIA, NO COMÉRCIO, NA POLÍTICA

Por razões de natureza política, não gosto de números redondos. Explicitarei minhas restrições ao final, mas um exercício inicial pode nos fazer entender as razões tanto de quem  aprecia tais números, como a mídia, quanto de quem quase sempre os evita, como o comércio.

Arredondar números parece fundamentalmente correto para os veículos de informação. Valores pretensamente precisos, expressos por números com muitos algarismos, comunicam muito menos do que resultados arredondados. Não vale a pena insistir no valor exato de dado orçamento: comunica mais dizer-se que ele é de “pouco menos de 3 bilhões de reais” do que precisar seu valor em  “2 927 435 178 reais”. Sobre o público presente em determinado evento, diz-se que ele foi de “mais de 50 mil pessoas”, em vez de se insistir em anunciá-lo como”50 127 participantes. Na estimativa da área do território brasileiro, um arredondamento parcial conduz a “8,5 milhões de quilômetros quadrados”, um número que tem uma potencialidade mnemônica muito maior do que o valor mais próximo da realidade representado por “8 514 876 de quilômetros quadrados”. A colaboração entre a língua materna e a matemática é muito eficiente para uma percepção/compreensão mais adequada da grandeza representada, o que frequentemente se dá por meio da combinação de algarismos e palavras, em conveniente arredondamento.

O comércio, no entanto, parece não concordar com tal argumento. O pressuposto básico da estratégia da fixação de preços é um insinuante “não arredondamento”: parece muito mais atraente anunciar que um produto custará “4,99 reais” do que fixar o preço redondo de  “5 reais”. Aparentemente, a expectativa de tais procedimentos é a da busca da cumplicidade do comprador, que, para justificar a decisão da compra, poderá dizer: “custa menos de 5 reais”. A fixação de preços parece confiar, então, tanto nos esquemas automáticos de leitura dos números, sempre da esquerda para a direita, quanto na força dos números redondos (5, no caso) como referência expressiva. O fato é que, em tal prática, o número quebrado é o valor explícito, é o preço efetivamente a ser pago, ainda que o número redondo exerça suas funções tacitamente.

De minha parte, como foi anunciado inicialmente, não gosto dos números redondos, mas minha posição decorre de outro tipo de argumento. Mesmo de maneira dissimulada, os números redondos apresentam uma interface muito importante, uma relação muito estreita com o mais redondo dos números, que é o zero. Minha dissonância com eles decorre inteiramente de tais afinidades eletivas. Como se sabe, acrescentar muitos zeros a determinada quantidade não altera seu valor. Também é fato que milhões de zeros reunidos, entregues à própria sorte, não passam disso, não conduzem, jamais, sequer a uma unidade. O grande problema a temer de um bando de zeros é que eles constituem um perigo imenso quando se alinham, de três em três, comportadamente, e uma unidade à esquerda se lhes justapõe…

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