SEMENTES  109   #  O MAR E A BÚSSOLA: A FRAGMENTAÇÃO DISCIPLINAR E AS IDEIAS FUNDAMENTAIS

 Avalanche de dados

Como já dizia há algumas décadas um compositor popular em inspirada canção, “Quem lê tanta notícia?” Jornais e revistas multiplicam-se e recheiam-se de bizarrices, como recurso para chamar a atenção. Livros acumulam-se nas livrarias; editores pagam caro para dispor de espaço nas vitrines. Escreve-se sobre tudo e sobre todos, de biografias de recém-nascidos às regiões acinzentadas das relações sexuais; das mais insólitas idiossincrasias às realidades mais banais. De maneira ainda mais impressionante, a rede www continuamente disponibiliza dados cada vez mais abundantes, sobre todos os temas imagináveis. O volume de dados é imenso, a insuficiência no tratamento é a regra, a carência de estrutura é total. Como uma imensa avalanche, os dados ultrapassam os limites de nossa capacidade de informação e simplesmente nos soterram. Prestamos atenção numa frase solta aqui, noutra acolá. Somos convidados a repetir jargões ou palavras de ordem. Não nos tornamos mais sábios; apenas, mais sabidinhos.

Fragmentação e liquidez

A fragmentação do conhecimento é a regra. A multiplicidade de disciplinas explode ao final do ensino médio, ocupando as mentes adolescentes. Plenas de vida em sentido pleno, elas buscam significado para as ações que projetam, mas ele não se revela nos cacos de um vaso despedaçado cuja integridade não se conheceu. O esfacelamento disciplinar é como uma paráfrase da máxima marxista: o que era sólido desmanchou-se no ar. Se a rigidez iluminista incomodava mentes mais humildes, a pós-modernidade reduziu todas as certezas a pó, esvaziando o sentido das ações ordinárias. Valores fundamentais para a estruturação da vida perderam o sentido; atualmente, há pudores até ao falar-se do sentido dos vetores.

Como um recado para desafiar desilusões irresponsáveis, pensadores como Bauman apostam numa razão líquida, que perderia a rigidez, mas conservaria o volume. A submissão à forma do recipiente revela os limites de tal metáfora: na construção do significado, existem ideias e estruturas fundamentais.

A importância do fundamental

Uma grande ideia nos marca para sempre: quem abriu os olhos para ela, jamais a esquecerá. Mas esquecemos facilmente os pormenores de um fato, o que é absolutamente salutar, ou nos tornaríamos paralisados, como Funes, o memorioso, personagem de J. L. Borges.

É possível discorrer sobre um tema desfrutando apenas do interesse despertado, sem intenções de mapear o que é mais relevante; quando restrições de tempo ou de objetivos exigem, é preciso saber ater-se ao que é fundamental. De modo geral, explorar as ideias fundamentais torna qualquer tema mais compreensível do que quando se dá excessivo destaque a pormenores. Além disso, a ênfase no que é fundamental encurta a distância entre um conhecimento superficial e um conhecimento avançado de um tema. De fato, existe uma linha direta entre o fundamental e o elementar em sentido etimológico.

Naturalmente, no caso, o pulo do gato é a distinção entre o fundamental e o acessório: sem critérios nítidos, corremos o risco de confundir gatos e lebres.

Fundamental: ser ou não ser é a questão

Em qualquer tema, uma ideia fundamental deve apresentar simultaneamente três características cruciais:

– sua importância pode ser justificada por meio da linguagem ordinária, sem necessidade de arsenais terminológicos compreensíveis apenas por especialistas;

– ela não é isolada, devendo articular-se com diversas outras ideias do tema, o que pode promover uma articulação interna e uma estruturação do conteúdo estudado;

– ela nasce em um tema específico, mas transborda, inevitavelmente, os limites da disciplina original, explicitando conexões com outras disciplinas.

A ideia de energia, por exemplo, é fundamental na Física. A vida é movimento e a energia é a capacidade de produzir movimento. As diversas formas de produzir movimento conduzem aos diversos tipos de energia (mecânica, elétrica, térmica, etc.), estruturando internamente a Física. Mas a ideia de energia transborda as fronteiras disciplinares, articulando a Física com outras disciplinas, como a Biologia, a Química, a Geografia etc.

***** SP 9-11-2017

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