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Sobre a ideia de Representação

Nílson José Machado

njmachad@usp.br

EMENTA

Vivemos em um mundo em que os objetos ou as pessoas são continuamente apresentados e reapresentados, ou representados. A Língua e a Matemática são dois sistemas básicos de representação da realidade, mas continuamente interagimos com representações simbólicas de diferentes escopos. Uma conversa em nível do senso comum sobre concepções de representação, incluindo comentários tópicos sobre as visões de Schopenhauer, Peirce, Cassirer, Duval, Goodman, Birch, Pitkin, entre outros, poderá nos conduzir à antessala do significado político de tal ideia; nada pretendemos, além disso.

ROTEIRO______________________________________________

– Representação: os signos e as coisas                                          2

– Representação: o significado do significado                               3

– Representações mentais e semióticas                                          5

– Representações: quatro núcleos de significado                          7

– Representações: duas modalidades básicas                               10

– Coda: standing for acting                                                               11

– Referências Bibliográficas                                                              13

                                   SP/maio/2022

NOTAS SOBRE A IDEIA DE REPRESENTAÇÃO

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Representação: os signos e as coisas

Vivemos em um mundo de coisas, que se multiplicam e se amontoam, mas Schopenhauer é incisivo: não existem objetos sem sujeitos, o mundo consiste em representações dos sujeitos, na objetificação e significação de nossas vontades. Em sintonia com Berkeley, o filósofo pretende que ser é ser percebido; tudo o que existe é resultado das representações de nossas percepções. As coisas são representadas por signos, que podem ter o caráter icônico, mimetizando o objeto representado, ou o caráter indiciário, como o que recorre à associação entre o todo e a parte representada, ou o caráter simbólico, em que a associação entre o representante e o representado é convencional e relativamente livre. As linguagens, como sistemas de signos, são ferramentas ou meta ferramentas para a representação, condição de possibilidade da ação comum, da comunicação. Representamos continuamente, e a vida humana alimenta-se das representações que produzimos, resultantes de nossa vontade de viver. Há cerca de duzentos anos, Schopenhauer nos chamou a atenção para tudo isso, em um livro seminal, escrito quando o filósofo tinha apenas 30 anos: O mundo como vontade e como representação. A língua nossa de cada dia é o mais fundamental de nossos sistemas de representação da realidade, caracterizando-se como um instrumento de humanização por excelência. Fazendo coro com Heidegger, Schopenhauer apresenta o ser humano como um ser da linguagem, que se alimenta continuamente das representações que prefigura e elabora. Uma oitava acima, na tessitura da vida, encontra-se uma atividade de representação de outro tipo, mas igualmente constitutiva do modo de ser do ser humano. Não se trata mais da representação de coisas por signos, para viabilizar a comunicação entre as pessoas, nem da interpretação de signos, para bem entender as pessoas, mas sim do recurso a pessoas para representar pessoas, em situações vitais, como a que ocorre nos processos políticos inerentes à vida em sociedade. A organização social não mais se pode fundar na democracia direta, que teve lugar por poucas décadas, em espaços geográficos restritos, envolvendo populações que não ultrapassavam alguns poucos milhares de pessoas. O caminho para a democracia representativa traz à lume uma necessária sistemática para a escolha de representantes de grandes contingentes de representados. Trata-se de uma ampliação expressiva e certamente não trivial na ideia de representação. Em que sentido os políticos que ocupam os espaços representativos do poder legislativo ou do executivo efetivamente nos representam? Qual o significado esperado de tal representação? Eis aí um tema para um prolongamento desta incipiente reflexão.

Representação: o significado do significado

Uma investigação sobre o significado de qualquer ideia, mesmo as que se expressam por palavras de aparência ingênua, não pode ignorar três fatos fundamentais: o contexto, a historicidade e a não-conceitualidade.

Em primeiro lugar, o significado de uma ideia/palavra sempre se constrói por meio de relações percebidas no contexto em que a ela se apresenta. Tais relações entre a ideia/palavra nova e outras já conhecidas são constitutivas do significado emergente, que sempre se traduz em um feixe de relações.

Em segundo lugar, o significado nunca se constrói de uma vez para sempre, ele sempre é impregnado de História. O próprio contexto, de onde são extraídas as relações constitutivas, é historicamente situado. A ideia de cidadania na Grécia antiga não é a que se professa nos dias de hoje. Os significados evoluem e continuamente se transformam. As ideias são como seres vivos. Para lidar com isso sem desandar no paradoxo aparente traduzido pela máxima “só sei que nada sei”, um único caminho se oferece: o estudo da História. Não é possível conhecer o significado de qualquer ideia/palavra sem uma mirada na História. Seja qual for o tema estudado, o recurso à etimologia ou à evolução histórica das ideias científicas é sempre fundamental. Os significados evoluem e se transformam, mas isso não ocorre de forma aleatória: as transformações também têm um significado. E o estudo da História apresenta precipuamente esta função: a busca da compreensão do significado das mudanças de significado.

Em terceiro lugar, significado não é sinônimo de conceito. Uma compreensão satisfatória de uma ideia/palavra pode se situar – e em geral se situa – na antessala dos conceitos, no terreno dos esquemas perceptuais, das apreensões associadas a alguma Gestalt, das noções pré-conceituais, que não podem ter nem a ambição dos conceitos, nem a precipitação dos preconceitos. Um cidadão não-filósofo convive muito bem com a ideia de tempo em seus usos habituais, ainda que não disponha de um conceito de tempo, que não parece algo trivial. Para se falar em conceito, são necessárias descrições precisas, classificações nítidas, ordenações/hierarquias adequadas e alguma expectativa de racionalidade/causalidade. De modo geral, a compreensão ordinária do cidadão comum exige muito menos. Ao registrar que nos contentamos com compreensões pré-conceituais, não podemos, no entanto, abrir qualquer mínima fresta para os sempre indesejáveis preconceitos. Um preconceito nada mais é do que uma ideia pré-conceitual que se arvora do estatuto de um conceito, o que é epistemologicamente inaceitável.

Dois autores especialmente importantes para a compreensão da não-conceitualidade das nossas compreensões ordinárias são Vygotsky e Wittgenstein. O primeiro nos chamou a atenção para  a etapa intermediária do pensamento por complexos,  no caminho para a formação de conceitos. O segundo deu especial importância ao fato de que o espectro de significados expresso nos usos de uma ideia/palavra como “jogo”, por exemplo, não conduz facilmente ao estabelecimento do conceito de jogo, deixando-nos numa antessala, que corresponde aos esquemas pré-conceituais. Wittgenstein cunhou o nome de “semelhança de família” ao conjunto dos usos e das acepções de uma ideia/palavra: entre dois membros quaisquer da “família, sempre é possível perceber elementos comuns, mas a busca de invariantes comuns a todos os membros da família pode resultar, e em geral, resulta em fracasso.

A busca de uma “semelhança de família” que contemple os usos ordinários da ideia/palavra “representação” é uma tarefa que importa realizar.

Representações mentais e semióticas

O acesso aos objetos da realidade se dá sempre por meio de representações. A Língua Materna e a Matemática são dois sistemas primários de representação; a Arte, a Religião, o Mito, a Ciência são outras formas de acesso à realidade. Cassirer investiu muita energia na busca de um diálogo entre as diversas formas simbólicas, produzindo uma obra seminal. Duval (2009) também deu sua contribuição a respeito de tal temática, pretendendo que não se pode conhecer, ou seja, compreender o significado, em qualquer tema, se não se distingue com nitidez um objeto de sua representação, ou de suas múltiplas representações. Apresenta a semiósis e a noésis como duas formas complementares de representação. A primeira delas consistiria na construção de uma linguagem escrita, que conduziria a uma representação semiótica do objeto; a segunda consistiria numa apreensão das ideias fundamentais na caracterização do objeto, traduzido, desse modo, em representações mentais. Segundo Duval, as duas etapas – noésis semiósis – não ocorreriam independentemente uma da outra. Na noésis, o objeto seria traduzido em representações mentais; na semiósis, tais representações seriam traduzidas em representações semióticas, produzindo-se, assim, uma verdadeira polifonia na conjugação das múltipals formas de expressão. Duval conclui afirmando que a compreensão conceitual aparece ligada à descoberta de invariantes entre representações semióticas diversas. Apesar de parecer um sedutor caldo de galinha, tal expectativa precisa ser vista com certa cautela. Em primeiro lugar, nem sempre um invariante assim é encontrado, como bem o traduz a fecunda ideia wittgensteiniana de semelhança de família. Em segundo lugar, mesmo quando existem invariantes desse tipo, a compreensão conceitual pode não ser palatável no nível em que se realiza o discurso. Muitas e muitas vezes operamos de modo profícuo na antessala dos conceitos, na região fecunda e maleável das representações preconceituais consistentes, que justamente por não se pretenderem conceituais não correm o risco de serem taxadas de preconceituosas.

Representações: quatro núcleos de significado

Um trabalho especialmente relevante para um mapeamento das ideias sobre o tema em questão é o de A. H. Birch. Em sua tentativa de caracterização dos tipos de representação, Birch (1971) é incisivo ao pretender que todas as formas de representação podem ser incluídas em uma das quatro categorias – delegação, amostragem, simbólica ou política -, e insistindo ainda na independência lógica das categorias referidas, bem como na irredutibilidade de uma delas a qualquer uma das outras. Ele afirma textualmente que “não existe qualquer processo intelectual válido pelo qual os quatro tipos possam ser agrupados, como os quatro quadrantes de um círculo, para formar algo que possa ser denominado ‘a verdadeira natureza da representação’. São conceitos diferentes etimologicamente relacionados, mas não fazendo parte de um todo” (p.229).

Quando se ajusta o foco na ideia de representação, deixando de lado, tacitamente, a representação de objetos por signos, e pensando apenas a representação de pessoas, ou de grupos de pessoas, por outras pessoas, é possível situar quatro núcleos de significado para tal ideia. Três deles referem-se a relações sociais, políticas ou não; o quarto diz respeito mais diretamente à ação política. Uma primeira situação é a da representação como delegação, que ocorre, por exemplo, quando um advogado nos representa em um processo jurídico, ou, de modo geral, quando nomeamos uma pessoa para representar certos interesses especificados pelo nomeador em contextos determinados. Representantes comerciais, ou embaixadores também são exemplos efetivos de tal ideia de representação. Uma característica crucial na ideia de delegação é a da tarefa específica a ser realizada pelo representante, que delimita com nitidez a tarefa específica da representação. Esta primeira acepção é certamente a mais ampla, incluindo diversas variações, como mais adiante será visto.

Uma segunda situação é da representação como amostragem, em que o conjunto de representantes caracteriza-se como uma amostra da totalidade dos representados. No caso da constituição de colegiados, em diferentes contextos sociais, tal acepção costuma ocupar lugar de destaque. Se todos os membros da Câmara dos Deputados são agricultores, os industriais podem não se sentir bem representados. De modo geral, a ideia de amostragem estatística pode parecer sedutora em questões políticas ou sociais, mas existem limites para tal sedução. Ainda que, circunstancialmente, uma Câmara possa ser integrada por notórios criminosos, não parece aceitável advogar-se explicitamente pela eleição de um representante da bandidagem para o exercício legislativo.

Uma terceira acepção da ideia de representação se dá em nível simbólico, tal como ocorre com os signos na linguagem. A representação como símbolo é menos explícita, mas não é menos importante que as anteriormente citadas. O Presidente do país nos representa, tal como a bandeira representa o país, de uma maneira simbólica. Não se pode ignorar a força e a importância do simbolismo na organização social humana. Na arte, nos esportes, é quase desnecessário destacar a importância do simbolismo, que também está presente na liturgia associada aos cargos, tanto nos rituais religiosos quanto nos processos burocráticos do Estado, na legitimação das estruturas de poder. No terreno da política, a subestimação da força de simbolismos espúrios já demonstrou seus efeitos deletérios, em diferentes momentos da História.

Uma quarta acepção da ideia em foco é a representação política, que envolve delegação, amostragem e simbolismo, mas que apresenta certas características mais abrangentes que caracterizam sua especificidade. A consolidação do valor e da importância da Democracia é representada sinteticamente pelo aforisma de Churchill: trata-se da “pior forma de governo, com a exceção de todas as demais”. A questão fulcral, no entanto, é a da caracterização do regime democrático como forma de governo. A ideia de uma democracia direta, de um governo do povo, pelo povo, para o povo, realizado por meio de assembleias incluindo todos os envolvidos, há muito não faz mais sentido, tendo sido efetivamente realizada em algumas poucas décadas, envolvendo alguns poucos milhares de habitantes. O povo, como se sabe, já excluiu as mulheres, os escravos, os estrangeiros, os analfabetos, os sem posses. Com o natural e desejável alargamento da ideia de povo, as dificuldades crescentes da participação direta em assembleias conduziram o pensamento político à ideia de uma democracia representativa. Nela, o povo escolhe seus representantes, em geral por meio de eleições, e eles recebem uma autorização para agir em nome do povo, no exercício das relações sociais e políticas. Tal autorização, no entanto, apesar de se referir a todas as ações carentes de representação em sentido amplo, têm um prazo de validade fixado, que não pode ser muito longo, após o qual os representantes são cobrados e a representação pode ser renovada, em novas eleições. Autorização plena, cobrança de responsabilidades e renovação periódica são, pois, as marcas fundamentais da representação política.

Representação: duas modalidades básicas

Em seu seminal livro The Concept of Representation, Hanna Pitkin distingue fundamentalmente dois tipos de representação: as que se situam no âmbito do Standing for, e a que buscam as condições do Acting for. Em outras palavras, nas representações do tipo standing for, os representantes situam-se no lugar dos representados, constituindo uma amostragem ilustrativa, ou então, representam simbolicamente os outorgantes, não havendo uma referência direta à realização de ações efetivas em nome deles.

Como se verá a seguir, as ideias Birch conjugam-se harmoniosamente com as concepções de Hanna Pitkin, com seu insight fecundo, apenas aparentemente binário, do par standing for/acting for. Creio ser possível sintetizar as duas perspectivas na seguinte tipologia das representações:

– Representações Standing for tipo Amostragem e Standing for tipo Simbólica;

– Representações Acting for tipo Delegação para Fins Particulares e Acting for tipo Delegação para Fins Gerais.

Convergem, assim, para os significados de representações simbólicas ou como amostragem, apresentadas por Birch. Já as representações do tipo acting for referem-se diretamente a delegações de funções restritas no tempo e no espaço de significações, em que o outorgante encarrega o outorgado de agir por ele, nas condições estritas fixadas no contrato, ou então, apresentam um escopo mais amplo, como é o caso da representação política. Apesar de iluminadora, a distinção de Pitkin apresenta uma dificuldade conceitual reconhecida por todos os que se ocuparam com tal temática, denominado por muitos como o paradoxo da democracia representativa. Trata-se, no caso, da situação dilemática que consiste em garantir a participação do povo, fundadora da democracia, por meio justamente da delegação de tal participação a um conjunto de representantes. Não parece possível nem desejável o extremo de o representante subordinar continuamente suas ações à vontade dos representados, nem o outro extremo de agir por inspiração pessoal, independentemente dos representados, e até mesmo de modo conflitante com seus interesses. Outro problema conceitual importante é o fato de que as duas modalidades de representação sugeridas por Pitkin entrelaçam-se continuamente. Em situações concretas, o standing for é a antessala do acting for, constituindo, praticamente, uma modalidade única: standing for acting. A representação política apresenta-se como um complexo especialmente construído para a articulação das duas modalidades sugeridas por Pitkin. No âmbito da política, a escolha dos representantes busca espelhar os interesses da diversidade de opiniões, de classes de equivalência da sociedade, não no sentido estrito da amostragem estatística, nem ignorando questões fundamentais relativas aos valores que dão sustentação ao projeto nacional. Não parece razoável exigir-se que, como as mulheres constituem 51% da sociedade, a amostra de representantes mantenha tal proporção. Homens ou mulheres participam de representações políticas como cidadãos, extrapolando em muito as questões de gênero. Em outro contexto, conceitualmente similar, parece mais fácil o acordo com relação ao fato de que os criminosos condenados, ainda que numerosos, não devem fazer jus a uma representação política na mesma proporção de seu número.

Coda: standing for acting

De modo um pouco mais direto, seria possível afirmar que toda representação é sempre uma instrumentação para a ação, conjugando uma dimensão standing for e uma dimensão acting for. É sempre, portanto, uma mescla do tipo standing for acting.  Tal fato não impede, no entanto, que, em alguns casos, sobreleve uma das duas dimensões, predominando a intenção do standing for, ou a do acting for.  Em cada uma dessas duas vertentes, podem ser identificados dois tipos bem caracterizados, correspondendo a dois níveis de abrangência. No caso da vertente standing for, destacam-se a representação como amostragem, abrangendo um amplo espectro de possibilidades, todas subsidiárias de uma compreensão, mesmo sem vinculação direta com qualquer ação específica; e a representação simbólica, bem menos abrangente, que não extrai sua representatividade de elementos quantitativos, mas sim dos princípios e valores envolvidos. No caso da vertente acting for, uma bifurcação análoga se dá em decorrência dos diferentes níveis de generalidade dos fins da delegação. No caso das representações delegadas para fins específicos, limitados no espaço e no tempo, a autonomia dos representantes é mais limitada, e a satisfação direta dos interesses dos representados é condição de possibilidade de uma boa representação política, a delegação é acompanhada de uma autorização para a ação em nome dos representados. Naturalmente, tal autorização está associada a um mandato com duração fixada, que não pode ser retirado do representante, senão em situações excepcionais, e a uma imprescindível prestação de contas, especialmente ao final do mandato. Nesse sentido, é de Voegelin (1979) um alerta importante, no discernimento entre os papéis do representante ou do agente, tão próximos na delegação para fins particulares, e tão distintos no caso da representação política. Um agente é uma pessoa a quem um superior hierárquico atribuiu determinado poder para tratar de assuntos específicos; um representante em sentido político, no entanto, pode agir em nome da sociedade ou de valores maiores do que as peculiaridades ou os interesses mais idiossincráticos dos outorgantes de seu mandato. O caso específico da representação política, no entanto, poderá ser examinado com mais profundidade em outro momento.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIRCH, Anthony Harold – Representation.London: Pall Mall Press and Macmillan, 1971

CASSIRER, Ernst – Ensaio sobre o Homem. São Paulo: Martins Fontes, 2012

CASSIRER, Ernst – Filosofia de las formas simbólicas (4 vols.) México: Fondo de Cultura Económica, 1971

PITKIN, Hanna Fenichel – The concept of Representation. University of California Press, 1967

VOEGELIN, Eric – A nova ciência política. Brasília: Editora da UnB, 1979.

FEUSP SEMINÁRIOS SEED – SEMA 2º Sem/2022

FEUSP Seminários SEED / SEMA Segundo semestre de 2022

 
TEMA

EXPOSITOR
12/08Autoridade, Disciplina: ConstelaçõesNílson José Machado
19/08Cérebro, conceitos, livre arbítrioValdemar Setzer
26/08A Flora no Parque Estadual do Juquery: sobre a conservação do cerrado paulistaNádia Said Ávila
02/09DEBATE: A Ciência vai casar com a Poesia
(POIS É, POIS IA...)
Menezes (Org.), Flávia, Cacildo, et alii
09/09Computação: Por que não usamos o sistema ternário de computação?Marisa Ortegoza da Cunha
16/09DEBATE: O Jogo com Regras e as Regras da VidaLino de Macedo (Org.) et alii
23/09A quadrimembração do ser humano e os reinos da naturezaValdemar Setzer
30/09DEBATE: A Formação Profissional e o Mundo do Trabalho hojeNílson (Org.) et alii
07/10ORIGAMI: Dobrando a Pirâmide de QuéopsHideo Kumayama
14/10Ártemis: da mitologia grega à Lua, um passo gigantescoPaulo Bedaque
21/10A Educação e o sentido transcendente da vidaLuciara Avelino
28/10Artes Plásticas: As ideias de Torres GarciaAna Maria Liblick
04/11Pensamento Computacional e os referenciais de Competência DigitalAna Cláudia Loureiro
11/11A Literatura integrando CurrículosFernando Souza
18/11Karl Marx era marxista?Marcelo Léllis
25/11As ideias de Franz RosenzweigConstanza Kaliks
Seminários de Estudos em Epistemologia e Didática/Seminários de Ensino de Matemática
Coordenação: Nilson José Machado/Marisa O. da Cunha
Participação livre via ZOOM, às sextas, das 16h às 18h (Solicitar link a marisa.ortegoza@gmail.com)

Vias e desvios na ideia de Pesquisa em Educação

Sumário

1- Ensino e Pesquisa: uma integração natural

2- Projetos de Pesquisa: considerações acacianas

3- Universidade: o dogma da indissociabilidade ensino/pesquisa/extensão

4- Universidade: sete desvios na ideia de pesquisa

5- Pesquisa: a superestimação da metodologia

6- Pesquisa: a artificialidade do referencial teórico

7- Pesquisa: o abuso da linguagem técnica

8- Pesquisa: a quantificação como camuflagem

9- Pesquisa: a opção pela caricatura

10- Pesquisa: os objetivos excessivamente modestos

11- Pesquisa: o número exagerado de citações

12- Pesquisa: cuidado com os cuidados

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1 – Ensino e Pesquisa: uma integração natural

É quase impossível ensinar sem fazer algum tipo de pesquisa. As duas atividades pressupõem a criação de centros de interesses em uma temática relevante, enraizada em contextos problematizadores. Nos dois casos, é fundamental explicitar perguntas nítidas a serem respondidas e objetivos claros a serem atingidos. Uma ação docente competente sempre inspira descobertas por parte dos alunos.

Não se trata de o professor simular, na aula, que desconhece os temas básicos que ensina, fingindo surpresas ou mimetizando a história das pesquisas científicas. O ensino e a pesquisa estão associados de modo natural ao aparecimento do novo. Para o aluno, a novidade pode referir-se ao conteúdo; para o professor, mais provavelmente ela estará relacionada à forma. Em qualquer caso, uma aula sempre representa a construção de novas significações.

O recado básico para professores é simples: quem acha que nada mais tem a descobrir e aprender em sua atividade docente, mais provavelmente nada mais tem a ensinar.

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2 – Projetos de Pesquisa: considerações acacianas

Um projeto de pesquisa precisa delimitar uma temática, não pode dizer respeito a tudo. Em tal temática, é necessário expressar uma dúvida, um problema cuja solução se desconhece, uma pergunta nítida ainda sem resposta. Naturalmente, espera-se que seja apresentada uma justificativa da relevância de tal dúvida, pergunta ou problema a ser estudado.

Cabe ao pesquisador, por mais original que lhe pareça sua pesquisa, apresentar referências a trabalhos ou autores que examinaram questões análogas: afinal, o mundo não se inicia com seu projeto. É fundamental também que esboce a metodologia a ser seguida, ou seja, indique o tipo de pesquisa a ser realizada: de campo, bibliográfica, teórica… Para merecer a expectativa de resultados, um projeto deve ir além das boas intenções do pesquisador. E é de bom alvitre uma bibliografia específica, que revele as fontes principais da investigação a ser realizada. Tudo isso parece muito acaciano, muito óbvio, mas frequentemente não é levado em consideração.

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3- Universidade: o dogma da indissociabilidade ensino/pesquisa/extensão

Na Universidade brasileira, a docência, a pesquisa e a extensão de serviços à comunidade são consideradas indissociáveis. Tal “dogma”, no entanto, em vez de qualificar a instituição, tem produzido alguns efeitos negativos nas práticas acadêmicas.

Não está em questão a exigência da pesquisa para a caracterização de uma Universidade; isso, porém, não deveria obrigar cada um dos docentes, em todas as etapas da carreira, a realizar projetos de pesquisa. Essa obrigação tende a minar a ideia de projeto, e levar o rótulo de “pesquisa” a ser utilizado em amplo rol de atividades menores.  

Uma pesquisa exige temática relevante, sobre a qual temos uma dúvida sincera, traduzida em uma pergunta nítida, além da competência teórica para buscar uma resposta. A leitura de alguns “projetos de pesquisa” disponíveis em vários sites oficiais leva-nos a concluir que, se todos são obrigados a pesquisar o tempo todo, o efeito perverso é o inverso do esperado. E a ideia de pesquisa é completamente banalizada.

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4 – Universidade: sete desvios na ideia de Pesquisa

Analisando o mar de pesquisas acadêmicas atualmente produzidas, é possível constatar algumas de suas mazelas, sete das quais serão aqui apontadas.

A primeira é a superestimação do papel da metodologia, que funciona como um esconderijo para o conteúdo da pesquisa.

A segunda é a artificialidade do referencial teórico, que se torna um atestado de óbito independente do defunto.

A terceira é o abuso da linguagem técnica, o que dificulta a compreensão de quem não é cúmplice da investigação.

A quarta é o recurso à quantificação como uma camuflagem, enfatizando a máxima absurda de que “os dados falam por si”.

A quinta é a opção pela caricatura do que se pretende criticar, o que facilita a obtenção de resultados, mas a torna inócua.

A sexta é a fixação de objetivos excessivamente modestos, o que “condena” a pesquisa a ser bem sucedida, mesmo as irrelevantes.

A sétima é o número exagerado de citações, o que torna a pesquisa um repertório de ecos, ou de ecos de ecos: a voz do autor sequer é percebida.

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 5 – Pesquisa: a superestimação da metodologia

A palavra método deriva de metá (objetivo)e hodós (caminho): trata-se do caminho para atingir uma meta prefigurada.

A escolha do método é muito importante para quem sabe o que quer. Para quem não tem objetivos claros, ou tem dúvidas sobre as metas, recorrer à melhor metodologia é inócuo e pode até ser perigoso. Afinal, não há vento que ajude um barco sem rumo; e quem está indo para o inferno, se escolher o melhor caminho, morrerá queimado mais rapidamente. 

Há pesquisas que se ocupam tanto da explicitação da metodologia que os objetivos visados são quase esquecidos e resvalam para um segundo plano. É como se a escolha de um caminho bem limpo e iluminado fosse sempre preferível, ainda que ele nada tenha a ver com o fim que se busca.

O método é sempre da ordem dos meios e os meios não devem preponderar sobre os fins. Afinal, como dizia Nietzsche, “quem tem um porquê, arruma um como”. A marca registrada de uma pesquisa é o objetivo que busca: a metodologia é sempre tributária de tal fim.

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6 – Pesquisa: a artificialidade do referencial teórico

Uma pesquisa pressupõe um referencial teórico, tácito ou explícito, mas não basta um referencial teórico interessante para caracterizar uma boa pesquisa. É comum uma ênfase à filiação a determinados autores ou linhas de investigação. Algumas se dizem “pesquisa-ação”, outras se pretendem “qualitativas”, muitas desfrutam do rótulo de “construtivistas”, ou de “sócio-interacionistas” etc.

A sedução de certos autores é tamanha que a referência a eles é usada como indício suficiente de qualidade. Uma citação de Piaget costuma encaixar-se bem em qualquer situação. Há casos em que os textos parecem dizer: “Esta pesquisa não recorre ao referencial teórico piagetiano, mas, se o fizesse, trataria de esquemas de assimilação/acomodação, da abstração reflexiva etc, etc.”

Entre a profissão de fé que o suposto referencial teórico representa e o efetivo trabalho realizado existe, muitas vezes, certo descolamento. Daí a resvalar-se para falta de integridade ou para a simples hipocrisia é apenas um passo.

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7 – Pesquisa: o abuso da linguagem técnica

Em Amor y Pedagogia, Unamuno critica o cientificismo exagerado do final do século XIX. Chama de Cocotologia a ciência das ciências, que consistiria na “embananação” do banal, por meio do recurso a uma linguagem artificialmente sofisticada, para impressionar incautos. A construção de um passarinho de papel (cocotte) seria a gestação de um óvulo quadrado papiráceo; um bêbado seria um indivíduo etilicamente saturado; uma “conversa mole” seria uma tertúlia flácida; e assim por diante.

O fato é que a linguagem utilizada em certas pesquisas parece desnecessariamente cocotológica. A compreensão de temas acadêmicos supõe conhecimentos específicos, mas a comunicação do significado das pesquisas ao grande público deveria ser convertida em uma necessidade profissional.

O abuso do jargão técnico costuma ser indício de incapacidade do pesquisador na escolha de uma escala adequada para tratamento de seus temas. Ao mesmo tempo, é um desrespeito ao cidadão interessado que não é cúmplice do pesquisador.

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8 – Pesquisa: a quantificação como camuflagem

Há quem creia, como Rutherford, que o qualitativo não é mais que um quantitativo pobre, mas o endeusamento dos números na realização de uma pesquisa pode ser igualmente caricato. Indicadores numéricos podem revelar relações de interdependência importantes e são muito bem vindos. Mas devem ser cautelosamente interpretados, uma vez que tanto podem esconder quanto revelar, ou traduzir meras trivialidades. A estatística presta-se especialmente a utilizações enevoadas e a inferências ingênuas ou descabidas.

Uma pesquisa exige uma temática relevante sobre a qual temos dúvidas sinceras, traduzidas em perguntas nítidas. A competência teórica na busca de respostas pode incluir a expressão numérica dos resultados obtidos, quando for o caso, mas os números virão sempre a reboque das ideias defendidas, para referendá-las ou refutá-las.

Nunca será prudente esperar que os números falem por si. E é bom lembrar que, se os números não mentem, mentirosos usam números: Figures don`t lie, but liars figure…

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9 – Pesquisa: a opção pela caricatura

A caracterização do problema a ser enfrentado é a ante-sala da formulação dos objetivos de uma pesquisa. Em tal etapa, é fundamental resistir à opção pela caricatura, que pode facilitar a tarefa do pesquisador, mas certamente mina os resultados da pesquisa.

Se “nenhuma pesquisa foi feita até agora sobre o tema”, isso tanto pode indicar o pioneirismo quanto a irrelevância do tema. Se nada do que foi produzido sobre a temática é relevante, o pesquisador pode ser um gênio, ou, mais provavelmente, um presunçoso. Se a defesa de um “novo papel do professor” baseia-se em crítica genérica ao “professor tradicional”, caracterizado como um monstro que apenas dá “aulas expositivas” e considera os alunos “receptáculos de conhecimento”, então é fácil ter objetivos quixotescos, mas o que se combate são moinhos de vento.

Ao amplificar artificialmente os problemas a serem enfrentados, fabricando caricaturas do existente, o pesquisador faz propaganda enganosa, correndo o risco de perder a credibilidade.

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10 – Pesquisa: os objetivos excessivamente modestos

É comum em jovens pesquisadores a ambição desmesurada na caracterização do problema da pesquisa a ser realizada. A introdução histórica pode, às vezes, ser intitulada “Deus e sua época”. E a impressão que resulta da leitura da lista de objetivos é que nada mais restará por fazer, após sua conclusão. Tal fato geralmente tem cura: o próprio amadurecimento do pesquisador conduz a um maior discernimento nos recortes temáticos.

Um desvio menos benigno é o excesso de modéstia, ou a falta de ambição nos objetivos, o que condena a pesquisa a um “sucesso” morno e insípido. É o que ocorre quando tudo o que se pretende é “dar alguma contribuição ao estudo de…”, ou “fornecer alguns subsídios para…”, ou ainda, “verificar se, melhorando a formação do professor, melhora o nível dos alunos”, e assim por diante.

Há pesquisas que apresentam perguntas tão singelas e objetivos tão modestos que nem precisariam ser realizadas para respondê-las ou alcançá-los. Pesquisa: é preciso não usar seu nome em vão.  

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11 – Pesquisa: o número exagerado de citações

Deixemos de lado o desvio aético das citações cruzadas, trocadas como gentilezas: ainda assim, costuma ser exagerado o número de citações em grande parte das pesquisas. Coligidas de modo sincrético, seu uso nem sempre é adequado e elas podem esconder a voz do pesquisador.

Ninguém melhor do que Calvino, em Seis propostas para o próximo milênio, caracterizou o papel das citações em um texto:

 se o discorrer sobre um problema fosse como transportar pesos, muitos cavalos poderiam transportar mais do que um só cavalo; mas o discorrer é como o correr, e um só cavalo árabe há de correr mais do que cem cavalos frísios…

Citamos um autor quando consideramos que ele disse o que queríamos dizer de uma maneira tão ágil, tão adequada ao que pretendemos que não convém parafraseá-lo. Partilhamos o sentimento do autor e acolhemos suas palavras em nosso texto e as fazemos nossas. Não nos escondemos atrás delas, nem nos limitamos a ecoá-las, ou a produzir ecos de ecos: a voz do citado torna-se nossa voz.

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12- Pesquisa: cuidado com os cuidados

Parafraseando o poeta, “são demais os perigos da pesquisa pra quem tem paixão”. Mas não existe vida – ou pesquisa – sem riscos, sem experimentação.

Um pesquisador apaixonado pode pecar por excesso ou por falta de ambição, pela paranóia ou pela frouxidão metodológica, pelo excesso de linguagem técnica ou pela pobreza terminológica, pelo pedantismo no recurso à teoria ou pela contenção nos limites do senso comum.

É importante ter cuidado para não derrapar em cascas de banana; mais importante ainda é ter CUIDADO COM OS CUIDADOS, para que eles não conduzam ao medo de correr riscos, que é como uma castração. 

Viver é lançar-se para frente em busca de metas prefiguradas, mas não garantidas, sem levar demasiadamente a sério os limites. Como disse uma vez Cocteau, “não sabendo que era impossível, eles foram lá e fizeram…”   

É preciso, pois, cuidar para que os CUIDADOS não provoquem um só aborto, não mutilem nem violem, não atropelem o momento, não censurem nem impeçam o natural crescimento.       

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*******SP/out2019

Referências Bibliográficas

Machado, N. J. – Ética e Educação.  São Paulo: Ateliê Editorial, 2012.

Machado, N. J. – Livro de Bolso da Formação do Professor. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2016

Senso Comum dos Direitos e Deveres

SENSO COMUM DOS DIREITOS E DEVERES

No senso comum, dever nos lembra dívida, obrigação, assim como o fazia, na escola clássica, o dever de casa.  Por outro lado, direito remete intuitivamente ao que é reto, ao que não é torto, ao que é justo. Sentimo-nos obrigados a cumprir os nossos deveres, mas nos parece injusto que nossos direitos não sejam garantidos. Naturalmente, a justiça entrelaça direitos e deveres: é direito de todos e, em todas as circunstâncias, temos o dever de ser justos.

É importante destacar que há direitos que são inerentes a certos deveres, há certa dualidade entre direitos e deveres, mas não existe simetria entre os elementos de tal par. Se meus direitos não estão sendo garantidos, busco quem tem o dever de me atender, mas não posso me sentir liberado do cumprimento dos meus deveres. Afinal, é dever do Estado garantir os direitos do cidadão, mas é direito do Estado exigir que cada cidadão cumpra seus deveres. A garantia da Educação de qualidade é um exemplo de direito do cidadão e de dever do Estado.

SEED/SEMA 1º sem. 2022

Universidade de São Paulo / Faculdade de Educação (FEUSP) 1º SEM.2022

Seminários de Estudo em Epistemologia e Didática e em Ensino de Matemática
Frequência Livre - Realização via zoom, das 16h às 18h
Para ter acesso ao link, enviar email para marisa.ortegoza@gmail.com
ORDEMDATATEMAEXPOSITOR
111/03Sobre a ideia de VerdadeNílson José Machado
218/03Desemparedamento da Escola: uma ação de política educacional de Jundiaí/SPVasti Ferrari Marques/
Eliane Reame
325/03Café com BotânicaNádia Said Ávila
401/04AritmofobiaCacildo Marques
508/04Liberdade, Igualdade, Fraternidade: passado, presente e futuroValdemar W. Setzer
X15/04FERIADO
X22/04DIA APÓS FERIADO
629/04Avaliação da Aprendizagem: meio ou fim?Rodrigo Serra
706/05Notas sobre a Teoria PolivagalLino de Macedo
813/05Hans Jonas: Responsabilidade, Ética, TecnologiaMarisa Ortegoza da Cunha
920/05Matemática e Literatura: uma simbiose necessáriaTelma Pimenta
1027/05Corpo, Alma, Espírito: uma trimembração fundamental do ser humanoValdemar W. Setzer
1103/06Pandemia e Educação: O novo normal, velhas questõesLuís Carlos de Menezes
1210/06Lentes perfeitamente estigmáticas: de um exercício a um plágio inesperadoPaulo Bedaque
X17/06DIA APÓS FERIADO
1324/06Psicologia e Mistério: a perspectiva de Franco ImodaRicardo Tescarolo

Ensino Fundamental: Desafios

Nílson José Machado

Quatro desafios se apresentam a todos que decidem buscar soluções para os problemas que a realidade do Ensino Fundamental apresenta.

O primeiro é superar a falta de identidade dessa etapa da Educação Básica. Desde os tempos idos da dupla identidade do Ensino Primário e do seletivo Curso Ginasial, tentativas de justaposição simples na constituição do Ensino de Primeiro Grau até a atual denominação de Ensino Fundamental, cindida em Fundamental I e Fundamental II, nenhuma mudança estrutural foi realizada, e “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, como clamou Belchior.

O segundo é ofertar uma formação integrada para os professores desse nível de ensino, ultrapassando a anomalia atual (e de sempre), em que a maior parte dos professores do Fundamental I não conhece os conteúdos (de matemática, principalmente) do Fundamental II.

O terceiro é a incorporação e a vivência da ideia das áreas do conhecimento, tacitamente presente na prática pedagógica desse nível de ensino (não somente nas Ciências da Natureza), facilitando a “acoplagem” com o Ensino Médio.

O quarto é a tomada de consciência da não terminalidade do Ensino Fundamental, dando mais ênfase ao fato de que caracterizar o Ensino Médio como a etapa final da Educação Básica é uma conquista histórica que precisa ser concretizada.

 ******

SOBRE METODOLOGIAS ATIVAS: Bullets

Nílson José Machado

  1. Uma metodologia é um caminho para atingir uma meta; currículos são mapas, disciplinas são vias.
  2. Um acordo prévio quanto às metas é fundamental: “Não há vento que ajude um barco sem rumo”.
  3. A ideia de metodologia articula-se diretamente com as ideias de conteúdos e de competências.
  4. Na interface com as competências, os conteúdos são meios, as competências são fins.
  5. Na interface com as metodologias, conteúdos são fins, as metodologias são meios.
  6. Na relação entre meios e fins, “Quem tem um porquê arruma um como”; a recíproca não é verdadeira.
  7. Na passagem dos conteúdos às competências, são importantes a criação de centros de interesse e a manutenção do foco das atenções nas ideias fundamentais.
  8. Uma casca de banana para a realização da ideia de centro de interesse é o fascínio dos fogos de artifício: é preciso critério para discernir o que é fundamental e o que não é.
  9. Uma casca de banana para a consideração das ideias fundamentais dos conteúdos é o fato de que elas devem constituir um elenco a recobrir o mapa do conhecimento, e não apenas um conjunto.
  10. O qualificativo “ativas” ao lado das “metodologias” não pode nos deixar desviar as atenções para supostas metodologias passivas ou reativas, mas sim nos aproximar da responsividade e da criatividade.
  11. O que se espera de uma ação não é uma reação de mesma intensidade, mas de sentido oposto; decididamente, esse é o modo de fazer do animal.
  12. Princípios como o da ação e reação não podem nos conduzir senão a uma Lei de Talião: olho por olho, dente por dente.
  13. Metodologias ativas vinculam-se inexoravelmente à ideia de ação, de fazer com a palavra, de fazer com consciência; a cada ação corresponde uma resposta, com responsabilidade.
  14. A ação consciente é a ação projetada; o modo de ser do ser humano é o pretender ser, é o ser de propósito.
  15. O fazer com a palavra é o único instrumento de que dispomos para combater a violência.
  16. Como “a corrupção do ótimo é o péssimo”, um dos piores tipos de violência é o que se dá por meio da palavra.
  17. Parece natural a associação das metodologias ativas às ideias de narrativas, de jogos, de projeto, e por extensão, às ideias de problema, de programa; as responsabilidades, no entanto, são inerentes.
  18. Algumas relações são imediatamente perceptíveis: não se pode falar de projetos sem falar de valores; de narrativas sem referência aos significados, de jogos sem as noções de risco e responsabilidade, entre outras.
  19. Sem as considerações acima, as melhores intenções podem conduzir a derrapadas: storytelling pode se transformar em simples propaganda, gamificação pode não passar de brincadeira sem responsabilidade, projeto pode se reduzir a pretensões de controle, e assim por diante.
  20. Nietzsche dizia que “a maneira mais pérfida de combater uma causa é defendê-la com um péssimo argumento”; é o que parece ocorrer quando as metodologias ativas são defendidas em contraposição a metodologias passivas, ou apenas reativas.        ****09102021           

EDUCAÇÃO: PROJETOS E VALORES

Nilson José Machado

]

Bullets

  1. Educação é a construção da consciência nas ações: ações que conservam, ações que transformam, ações que não se conformam.
  2. Como animais, a cada ação corresponde uma reação de mesma intensidade e em sentido oposto.
  3. No terreno da Ética, a simetria ação/reação não nos permite ir além da Lei de Talião: Olho por olho, dente por dente.
  4. Como seres humanos, a cada ação deve corresponder uma resposta, que é uma nova ação, impregnada de responsabilidade.
  5. A ação consciente é a ação projetada, o fazer com a palavra, com propósito, com metas sustentadas por uma arquitetura de valores.
  6. Ter projetos é ter objetivos que são antecipações de ações a serem realizadas, sem coação: não se pode ter projetos pelos outros.
  7. Uma característica fundamental da ação projetada é a convivência com o risco; nesse ponto, a interface jogo/projeto é muito fecunda.
  8. Viver como se a vida fosse apenas um jogo é irresponsabilidade; pretender projetar tudo o que realizamos é arrogância.
  9. A realização de qualquer projeto é alimentada à montante pelas nossas ilusões, esperanças, utopias…
  10. ..  mas é determinada à jusante pelo planejamento, pela avaliação, pelas trajetórias que representam nossos interesses pessoais.
  11.  Viver é projetar, é jogar, é correr riscos; o espaço do risco é o mesmo da criação, que me permite fazer as coisas do meu jeito.
  12.  Ser é pretender ser, quem está vivo está se lançando em busca de algo, viver é um contínuo projetar; quem não pretende, já não é.
  13. Projetos pressupõem uma arquitetura de valores que sustentam os objetivos; projetos sem valores podem ser coisas monstruosas.
  14.  Viver é viver com propósito, é viver de propósito; sem propósito, somos escravos ou, já partimos.
  15. Platão registrou que escravo é quem não tem projetos, que vive para realizar os projetos dos outros: Vida com propósito ou morte!
  16. Em sentido invertido, é preciso considerar a circunstância do morrer de propósito, como no suicídio ou no terrorismo.
  17. Outro aspecto é a morte súbita; morrer de repente soa como traição, viver de repente é coisa de poeta, ou de repentista.
  18. Envelhecer com propósito é morrer um pouco a cada noite e renascer a cada dia – ou vice-versa…
  19. Partimos do fato de que a vida é o valor maior, que recebemos ao nascer; retribuir tal mega dádiva é o dever nosso de cada dia.
  20. Tal concepção inspira na cultura japonesa uma Ética do Débito; no entanto, como em todos os valores, é necessário equilíbrio.

                                                *****07092021

Presença de Alfredo Bosi

MESTRE

ALFREDO BOSI:                                                                                        

Um olhar eloquente, uma assertividade serena

            Prólogo

Que dizer de Mestre Alfredo Bosi, de quem não posso falar senão na perspectiva do aluno, continuamente por ele alimentado, ainda que de modo tácito, sem vínculos formais?

 Trabalhei intensamente, sob sua coordenação, entre 1991 e 1994, no Programa Educação para a Cidadania, criado por ele no IEAUSP. Em tal Programa, que coordenava como um maestro, foram gestadas propostas relevantes para a revisão da Constituição Federal realizada em 1993.

Fundada apenas em sua excepcional competência, sua autoridade era exercida de modo absolutamente tranquilo, com uma sutil expressão corporal, um delicado movimento no olhar. Quando baixava discretamente o olhar, a gente se perguntava: “onde foi que erramos?”  

Com ele aprendemos, a cada atividade realizada, muitas coisas simples,

simples como a água e o pão, como o céu refletido nas pupilas de um cão”,

segundo versos da lavra do saudoso José Paulo Paes, com quem Mestre Bosi manteve fecundos laços poéticos, como veremos mais adiante.

Desde muito cedo mestre Bosi nos mostrou que, para cumprir sua função formadora, ou de conscientização, a crítica não precisava ser ácida, cítrica. Aprendemos que, assim como a consciência se constitui como uma meta vontade, ou uma vontade de ter certas vontades e não outras, quando a crítica emana da humildade que somente a sabedoria provê, ela se transforma em pura literatura, em meta literatura: na maior parte dos textos do Mestre tal característica salta aos olhos.

 Aprendemos que, tal como a igualdade se relaciona simbioticamente com a diferença, a verdade é parceira da tolerância, e, ainda que cortejada por todos, a verdade não tem dono. Aprendemos que a vida não é um conto de fadas, que o bem e o mal passeiam de mão dadas, e que assumir posições nítidas no que se refere aos valores fundamentais não nos obriga a ser binários, ou extremistas.

Aprendemos ainda que o centro de gravidade de uma Universidade com alma jamais poderia se afastar do universo da Cultura, mesmo quando atraída pelas mais sedutoras tecnicidades, ou pela ideia de formação profissional em sentido mais estrito… entre tantas outras lições…

Bosi e a Educação

…Em meio a tantas lições, dimensões e qualidades da figura ímpar que foi Mestre Bosi, buscar aqui o inaudito parece até um absurdo; tentemos apenas, apesar do deleite da reiteração, não ser demasiadamente repetitivos.

Restringindo-nos apenas ao terreno da Educação, dois aspectos da personalidade de Mestre Bosi sobressaem: a eloquência do olhar e a serenidade assertiva, ou a assertividade serena.

A expressividade do olhar do mestre animava tacitamente nossos projetos, temperando os mais afoitos com humildade e cultura. Especificamente sobre o olhar no texto machadiano, escreveu um livro particularmente interessante (Machado de Assis – O enigma do olhar), que poderia ser visto com um talvez involuntário, mas inevitável sentido autobiográfico. Arriscamos a conjecturar que o olhar de Machado teria muito a ver com o olhar de Mestre Bosi, mas não é este o ponto que queremos aqui considerar.

O que ora nos interessa destacar, numa perspectiva educacional, na obra de Mestre Bosi, é o fato de que o olhar de que o mestre nos fala está em singular sintonia com uma das mais fecundas ideias do filósofo Hans-Georg Gadamer (1900-2002). De fato, em Verdade e Método, Gadamer elabora a noção de “fusão de horizontes”, que se refere a uma busca de sintonia, de uma racionalidade comum a diferentes pontos de vista. Não se trata da busca de unidade de pontos de vista, nem mesmo da unidade de olhares, que expressam vida em seus movimentos. Trata-se de reinstalar a trilha que conduz da doxa à episteme, da tentativa de conversão à conversa amistosa, da busca do convencimento à ideia de vencer juntos. A fusão de horizontes em Gadamer representa, talvez, a mais efetiva concepção de que dispomos para semear o entendimento entre as pessoas e combater a violência no mundo.

Bosi e Gadamer

Algumas linhas da lavra de Mestre Bosi em seu enigma machadiano podem contribuir para clarear a aproximação Bosi/Gadamer, acima arriscada:

Olhar tem a vantagem de ser móvel, o que não é o caso, por exemplo, do ponto de vista. O olhar é ora abrangente, ora incisivo. O olhar é ora cognitivo e, no limite, definidor, ora é emotivo ou passional. O olho que perscruta e quer saber objetivamente das coisas pode ser também o olho que ri ou chora, ama ou detesta, admira ou despreza. Quem diz olhar diz, implicitamente, tanto inteligência quanto sentimento.”

Como se vê, em Bosi, é a mobilidade do olhar que o distingue visceralmente da perspectiva estática do ponto de vista. O olhar está para um filme assim como um ponto de vista está para uma foto, ou mesmo um mapa. Ao tratar das redes de significados, respondendo a críticas sobre o caráter estático dos mapas de relevâncias construídos sobre as redes, Pierre Lévy sugeriu a ideia de cinemapas, ou de mapas em permanente estado de atualização, que funcionariam como protofilmes, na antessala das narrativas. A tecnologia, se, por um lado, transformou e fragmentou o tempo e as narrativas, por outro, busca reconstruir no olhar o controle da identidade, dos espaços e dos tempos das pessoas.   

Ao tratar da articulação dos significados, na construção do conhecimento, partindo dos pontos de vista dos sujeitos, Gadamer explora o fato de que dois pontos de vista sobre um mesmo objeto, percebidos por duas pessoas diferentes, são geralmente expressos a partir de duas linhas de horizonte, ou duas racionalidades distintas. O que se vê, numa ou noutra perspectiva, são imagens distintas do mesmo objeto. Não se trata, educacionalmente falando, de procurar confrontar as imagens, tendo em vista reduzi-las a uma só percepção visual: temos visões diferentes e gostamos disso. Trata-se, isto sim, de reduzir as duas linhas do horizonte a uma só: as duas racionalidades devem convergir. Continuam, no entanto, a produzir duas imagens distintas do mesmo objeto. A linha de horizonte comum nasce de uma fusão entre as duas linhas individuais; o processo é nomeado de “fusão de horizontes”. Na realização de tal fusão, o processo pode parecer complexo, ou mesmo incompreensível, pelo menos se pensamos apenas na rigidez das diferentes perspectivas. Quando se pensa, no entanto, no movimento do olhar, pode-se deslizar suavemente as duas linhas de horizonte iniciais, ajustando tais linhas até fundi-las, sem confundi-las, garantindo-se uma racionalidade comum, na partilha de perspectivas e de sentidos, na construção dos significados.

Bosi e a simbiose Descartes/Vico

            No terreno da Educação, uma fecundação fundamental realizada por Mestre Bosi foi a consideração das ideias de Vico na construção do conhecimento. Ao situarmos a língua materna em tal cenário, destaca-se a irrelevância a ela atribuída por Descartes, em contraposição ao papel absolutamente decisivo a ela reservado por Vico. Como se sabe, para Descartes, a Matemática era a “língua natural” da Ciência, enquanto a língua seria o lugar das imprecisões, das ambiguidades, das incertezas. Vico reconhece as limitações, ou mais sensatamente, as características “negativas” apontadas por Descartes, mas caminha na mesma direção em sentido oposto. Tendo por base uma inspirada concepção de História, Vico considera que, para fazer Ciência, é necessário partir daquilo que a língua nos oferece, cultivando as características de expressividade e de compreensão, com a consciência crescente dos desvios e das armadilhas infra lógicas, mas sem retroceder um milímetro na proclamação da importância da língua materna na construção do conhecimento. Com suavidade, como de costume, mas com reiterada explicitação em diferentes contextos, particularmente no último capítulo de O Ser e o Tempo da Poesia, Mestre Bosi semeia uma epistemologia que tem as ideias de Vico como fundamento, cultivando uma simbiose possível – e necessária – com aspectos importantes do pensamento cartesiano.

            Bosi e Paes

            A comunhão de ideias estéticas, éticas e políticas, associadas a uma amizade e um profundo respeito pessoal uniram Mestre Bosi e o poeta José Paulo Paes, incluindo-se a convivência contínua, nos anos iniciais da década de 1990, no período em que o poeta foi Professor Visitante no IEAUSP. Um pequeno exemplo que pode representar concretamente os efeitos da simbiose Vico/Descartes nas poéticas de Mestre Bosi e de José Paulo Paes é o poema Pavloviana, publicado por Paes no livro Um por todos, prefaciado por Mestre Bosi:

PAVLOVIANA

a comida, a sineta, a saliva

a sineta, a saliva, a saliva

a saliva, a saliva, a saliva

o mistério, o rito, a igreja

o rito, a igreja, a igreja

a igreja, a igreja, a igreja

a revolta, a doutrina, o partido

a doutrina, o partido, o partido

o partido, o partido, o partido

a emoção, a ideia, a palavra

a ideia, a palavra, a palavra

a palavra, a palavra, A PALAVRA

            Pois é, poesia. Nada mais cartesiano, nada menos cartesiano, com muito viço, com muito Vico.

            A assertividade de Bosi

Com sensibilidade literária, Mestre Bosi nos mostra a cada olhar como mobilizar a força e a suavidade de seu universo de crítico, para convergir simbioticamente e articular-se naturalmente com o rigor das articulações de Gadamer, na busca da verdade com método. Assim, na conversa que não quer, em princípio, nem converter, nem convencer, mas apenas partilhar, a fusão de horizontes parece o instrumento teórico por excelência para promover a aproximação entre as pessoas, na busca de um sentido para a vida.

Reiteremos, pois, que, o olhar entendido como uma dinâmica de perspectivas, como uma possibilidade de vida e movimento, associado à assertividade suave, que não busca o conforto da zona cinzenta, mas não produz marolas desnecessárias entre visões extremistas aproxima Mestre Bosi do pensamento rigoroso de Gadamer. A serenidade assertiva e a humildade sincera, a máscara sem cera que traduz a transparência possível em territórios de integridade e de civilidade, sem transigência, mas sem extremismos, conduz a obra do Mestre, na alimentação de seus inúmeros alunos.

Reiteremos aqui o que pode parecer um pormenor, mas é um indício definidor da personalidade do mestre que nos deixou: Mestre Bosi nunca semeou franco atiradores. Com seu exemplo de vida nos ensinou continuamente a criar espaços de resistência impregnados de afetividade, como bem o ilustra o fecundo espaço do IEAUSP. Por tudo isso, Mestre Alfredo Bosi é o intelectual que representa com mais rigor e com mais vigor o espírito de uma universidade viva e produtiva, mas com alma.

Coda: Bosi, a fragmentação e os metavalores

Caminhando para uma conclusão, tentemos situar Mestre Bosi no cenário atual de excessiva fragmentação das disciplinas, com a consequente diluição dos significados e dos valores. Mesmo redigidos antes da aurora da internet, os textos de Mestre Bosi registram amplamente seu desconforto com tal fragmentação. Alguns exemplos eloquentes são apresentados a seguir, todos extraídos de sua obra prima Dialética da Colonização (1992).

 Com extrema humildade, afirma que:

 A massa de bits disponíveis sobre um número alto de matérias exploráveis gera um cogumelamento de sub-áreas de especialização. Folhear uma revista de difusão científica, o catálogo de uma grande editora americana ou francesa, ou o elenco de disciplinas e eventos de uma universidade moderna produz vertigens e depressões cognitivas.

Com a autoridade que emana de sua competência, dá um pequeno desconto em sua serenidade assertiva e registra que:

 Há teses universitárias que são fieiras de alusões e citações: as melhores, padecem de uma erudição turística e carente de nexos lógicos; as piores fazem concorrência ao samba do crioulo doido.

Com espírito crítico criador, ensaia um diagnóstico para ir além da denúncia:

O discurso sobre esse saber em migalhas e sobre as fraturas que cortam o terreno da cultura superior levou-nos a contemplar uma situação espiritual de descentramento que se poderia chamar também de recusa da totalidade. Essa atitude tende, pela sua repetição tantas vezes inconsciente, a virar monotonia ideológica.

E anuncia uma luz no fim do túnel ao explicitar que:

O que motiva o trabalho do conhecimento é a vontade de valor. Só o que vale, vale a pena…Os in-formes em si e por si mesmos não produziriam uma teoria nova do real, ou daquela zona do real que interessa a alguém perscrutar. Só o sentimento do valor guia o esforço de compreender os homens e as coisas, elege temas, bebe na fonte dos dados originais…E, para que a ciência resultante não regrida a simples máscara do interesse que a motivou, faz-se ainda necessária a vigência de um metavalor, a vontade de verdade, que torna o sujeito honesto em face do seu objeto.

De alguém que transpirava valores em suas ações ordinárias, não se esperava menos do que isso. A consciência sobre os valores conduz naturalmente aos metavalores, e a vontade de verdade é um deles. Nas obras do Mestre Bosi outros metavalores são onipresentes, como a fé, a integridade, o equilíbrio. Por tudo isso, é muito pouco dizer ao mundo, a um tempo, de sua permanência em nosso pensamento, e da imensa falta que ele nos faz.                                              

                                                ******25/08/21

SEED/SEMA 2ºsem/21

ORDEMDATATEMASEXPOSITORES 
113/agoEpistemologia:
O primeiro Tetraedro a gente nunca esquece
Nílson José Machado
220/agoMarkus Gabriel e o sentido do pensarMarisa Ortegoza da Cunha
327/agoEstudo de uma família botânica das Floras de Goiás e Tocantins -
bio indicadores ambientais
Nádia Said Ávila
403/setA Aritmética do voto proporcionalCacildo Marques
510/setMetamorfoses do Trabalho e o Impacto na EducaçãoLuís Carlos de Menezes
617/set A organização social trimembrada e sua aplicação individualValdemar Setzer
724/setAprendizagem significativa: reflexões para o professor sobre a semelhança de figurasHugo Rojas
8 01/outEpistemologia:
Mostruário de narrativas inspiradoras
Nilson José Machado
908/outDesign e Direitos Humanos: o legado de Otavio RothAna Lúcia Lupinacci
1015/outOs surpreendentes infinitos na geometria, nos conjuntos de números e no mundo físicoValdemar Setzer
1122/outA diversidade por meio das narrativas: um diálogo com Morin, Sen e SteinerMelanie Guerra
1229/outA sociedade em Rede em tempos de pandemiaRuth Ribas Itacarambi
1305/novA discórdia segundo os mitos gregosPaulo Bedaque
1412/novMichael Sandel e a Tirania do MéritoSocorro Sarkis
19/novFERIADO
1526/novAmit Goswani e o Universo autoconscienteRicardo Tescarolo
Toró de Parpite
(Brainstorm) sobre a forma (anfíbia?) dos Seminários em 2022
Participação de todos os presentes
Frequência LivreNão é necessária inscrição prévia
Solicitar link:njmachad@usp.brwww.
nilsonjosemachado.net