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SEMENTES 144 # DEMOCRACIA: AS VISÕES DE DEWEY E TARDE

Em Democracia e Educação (1916), um livro do início do século XX, John Dewey registra uma máxima notável, no delineamento da organização social: ter Democracia sem Educação, ou ter Educação sem Democracia é como aliviar de uma pena de morte alguém que foi condenado a duas… É fácil concordar com Dewey sobre o fato de que a Educação é condição de possibilidade do pleno funcionamento de um regime democrático, ainda que nem sempre seja simples uma consonância com os meios para a consolidação dos dois macro valores que a máxima propõe.

Mais ou menos na mesma época, no final do século XIX, Gabriel Tarde afirma, com a mesma convicção de Dewey, ainda que com menos repercussão, que uma Imprensa livre é condição de possibilidade de uma Democracia. Em seu texto seminal A opinião e as massas, Tarde destaca a importância da conversa, da comunicação entre os cidadãos no sentido de uma construção efetiva do espaço da troca de opiniões, da conversação não preconceituosa, na antessala da busca de argumentos para uma posterior defesa de ideias, valores e posições. E na construção de tal espaço, o papel de uma Imprensa livre e responsável é destacado com vigor.

A despeito do discernimento e da pertinência na formulação de suas máximas, nem um nem outro pode assistir à imensa amplificação da importância dos fatores vitais para o pleno funcionamento de uma Democracia por eles anunciados, associados ao fenômeno da rede mundial de computadores (1993). No mundo inteiro, as eleições estão sendo intensamente afetadas pela comunicação nas redes sociais de um modo ainda difícil de se compreender.

Uma questão decisiva, ainda a ser explorada, é o fato de que é cada vez mais claro o modo como as redes podem contribuir decisivamente para a chegada ao poder, mas ainda está por ser minimamente compreendida a forma como elas interferirão no exercício efetivo do poder. A tecnologia parece acrescentar uma tremenda complexidade à administração de tal fenômeno, e a face mais visível dos problemas, as chamadas Fake News, parecem ser apenas a pontinha do imenso iceberg da comunicação direta. Eis aí um desafio especial aos cidadãos, enredados ou não.

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SEMENTES 143 # EXCREMENTOS NO EVEREST E NAS REDES SOCIAIS

 

Os jornais estamparam manchetes insólitas: “Fezes viram problema ambiental no Everest” (FSP, 2/11/2018). Subitamente, os dejetos deixados pelos alpinistas no local desde 1953, quando o Monte Everest foi pela primeira vez escalado, tornou-se um problema efetivo. Os dejetos não se decompõem na neve, e sua caprichosa conservação provocou medidas de proteção ao meio ambiente. O governo do Nepal passou a obrigar cada alpinista a apresentar na volta de sua empreitada, bem ou mal- sucedida, que pode durar de 6 a 8 semanas, um montante de 8 kg de fezes. Uma multa de US$ 4000 passou a punir, desde 2014, quem descumpre a regra.

Apesar de inusitada, a questão que está em jogo é simples; simples, mas crucial. A Terra é nosso lar comum e somos responsáveis pelos nossos atos. O que surpreende é o fato de precisarmos ir até o Everest para nos conscientizar de nossa responsabilidade com relação aos efeitos dos dejetos que continuamente produzimos. O não equacionamento do saneamento básico é a causa de doenças e mortes em muitos países, inclusive no Brasil. O montante de indivíduos que escalaram – ou tentaram escalar – o Everest desde 1953 é o de alguns milhares de indivíduos.  Em termos estatísticos, a influência global dos excrementos dos alpinistas é menos importante do que a obrigação dos donos de animais de recolher as fezes de seus estimados bichinhos. Os problemas de saúde e as mortes de dezenas de milhões de pessoas atingidas pela carência de saneamento básico são muito mais graves. A maior lição a ser aprendida com a manchete do Everest não é, no entanto, de natureza estatística, mas sim de natureza simbólica. É necessário assumir a responsabilidade pelo que excretamos, tanto do ponto de vista biológico, quanto no que se refere a outros tipos de excrementos, como alguns textos – ou quase isso – postos em circulação nas redes sociais, e eufemisticamente rotulados de Fake News. O simbolismo do Everest representa uma contribuição fundamental para a tomada de consciência de tal responsabilidade, antes que o Everest – e as redes sociais – se tornem montes de excrementos.

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SEMENTES 142 # VERDADES E MENTIRAS SOBRE A VERDADE E A MENTIRA – Parte I

 

  1. A expressão “pós-verdade” sugere que a ideia de verdade já era, o que é uma deslavada mentira. Dois exemplos simples podem sustentar tal afirmação. No terreno econômico, a sociedade em que vivemos também é chamada de “pós-industrial”. Isto significa que não é mais verdade que a maior parte da força de trabalho situa-se na indústria, o setor de serviços incorpora a grande maioria dos trabalhadores. Mas é certamente uma mentira afirmar-se que a indústria não mais existe. No terreno da sociologia, a chamada “pós-modernidade” transformou o sentido da razão, que perdeu a rigidez cristalina do iluminismo, mas não foi reduzida a pó, como pretendeu o marxismo. Em vez de anunciar o fim da razão, o trabalho do preclaro Bauman nos iluminou, redesenhando a ideia de racionalidade com a metáfora da razão líquida. Analogamente, no terreno filosófico, a ideia de verdade sofreu grandes transformações, mas, em sintonia com a fina ironia de Mark Twain, as notícias de sua morte são um tanto exageradas.

 

  1. Nunca foi simples falar sobre a verdade. A abordagem inicial, que a associava a uma correspondência direta entre um fato e um enunciado, esbarrou em sucessivos obstáculos que acabaram por explicitar um fato patente: a realidade dos fatos não é verdadeira, nem falsa, ela simplesmente é. Verdadeira ou falsa é a asserção que enunciamos sobre os fatos, e não existe métrica confiável que inter-relacione a verdade de uma proposição e a putativa realidade dos fatos, senão em situações muito simples, teoricamente pouco relevantes. Falar sobre a verdade, então, é falar sobre sentenças de determinada linguagem, e não diretamente sobre a realidade em si mesma. A verdade ou a falsidade de uma sentença da linguagem L somente pode ser estabelecida em uma linguagem L’, de ordem superior a L, que tem como objetos as sentenças de L. Essa remissão da verdade para a transcendência da linguagem que se habita é da lavra de Tarski, e entusiasmou muitos filósofos ou cientistas, como Popper, por exemplo.

 

  1. A ideia de verdade certamente não acabou, mas, a despeito do otimismo líquido de Bauman, muitos pretenderam reduzi-la a pó. O enfraquecimento do caráter absoluto da verdade conduziu a uma conclusão logicamente indevida de que ela apresentaria um absoluto relativismo. Isso, no entanto, representa uma caricatura impertinente do que efetivamente ocorre. Trata-se de um jogo de palavras tão insustentável quanto seria uma conclusão sobre a relatividade dos valores éticos a partir dos fundamentos da teoria da relatividade einsteiniana. A necessidade de se referir a verdade a contextos específicos situa-se no meio de campo desse jogo linguístico: ela não é absoluta para todos os contextos, mas sua aderência a contextos específicos somente pode ser estabelecida a partir de valores profundos, que subjazem a todos os contextos. Ainda que em algumas situações nos faltem as palavras para nos expressar racionalmente, subjaz uma compreensão tácita, de natureza pré-conceitual, da ideia de verdade.

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SEMENTES 141 # CURTIR O CONSERTAR É SÓ COMEÇAR…

Os tempos parecem bicudos para quem curte algum tipo de conservação. O rótulo de “conservador” apresenta-se quase sempre com uma conotação negativa. Seja lá o que signifique, a palavra “inovação” tem muito mais charme. Consertar o que se quebra seduz muito menos. As ideias de “conserto” e de “remendo”, de improviso, aproximam-se perigosamente, em detrimento da primeira. A impressão forte é a de que o novo é sempre melhor que o velho.

Em tal cenário, é auspiciosa a matéria publicada na revista The Economist e replicada no jornal O Estado de São Paulo (21-10-2018), intitulada Consertar é tão importante quanto inovar. Apenas um dado apresentado na referida matéria já justificaria toda a atenção à questão em destaque: as empresas canadenses gastaram em 2016 3,3% do PIB com reparos e consertos, mais do que duas vezes o montante gasto pelo país em pesquisa e desenvolvimento.

Não se trata aqui, naturalmente, de se subestimar a importância da inovação, da criação na produção científica e nos processos produtivos de modo geral. O fato crucial para o qual se chama a atenção é o elogio compulsivo do consumismo irresponsável, com o crescimento de um desperdício absolutamente insustentável. Quando se trata de recursos materiais limitados, que não podem ser produzidos livremente como mercadorias em sentido industrial, como é o caso da água que bebemos ou do ar que respiramos, o desperdício é um crime a ser combatido. No entanto, mesmo quando a escassez não está em cena, o desperdício é sempre indesejável. O descarte inconsequente do velho tem como fundamento apenas o suposto postulado de que “o novo é sempre melhor que o velho”, uma asserção que não é legitimada sequer no âmbito da tecnologia.

Um aspecto especialmente importante é o do descarte das relações pessoais, que são continuamente construídas e desprezadas nos efêmeros links estabelecidos nas redes sociais. Amizades não podem ser descartadas ao menor sinal de ruído nas relações. Discordâncias podem ser consertadas em conversas. Sem confusão, pontos de vista distintos podem ser referidos a um mesmo sistema de referência: horizontes diversos podem ser fundidos.

No que se refere à saúde do corpo afetado pela doença, o conserto tem um nome mais simpático, com conotação positiva: é a busca da cura. Nem sempre conseguimos, mas sempre buscamos, e a perspectiva consumista de comprar um corpo novo ainda não foi seriamente aventada pelos louvadores acríticos da inovação.

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SEMENTES 140 # O PÚBLICO, O PRIVADO E A PROSOPOPEIA DO MERCADO

Há uma ideia tácita mais ou menos partilhada segundo a qual o que é Público refere-se diretamente ao Estado e o que é Privado pode ser associado ao Mercado. Privatizar uma atividade seria, então, subtraí-la da responsabilidade do Estado e entregá-la aos braços do Mercado. Trata-se, naturalmente, de uma simplificação excessiva. Uma compreensão mais abrangente da coisa pública (res publica) é condição necessária para uma vivência com os outros, numa sociedade democrática. De modo especular, carecemos também de uma compreensão mais plena do significado do Privado, sobretudo em tempos e espaços como o das redes sociais, em que pululam em espaços públicos explorações de imagens e/ou informações que seriam pertinentes apenas no âmbito do privado.

Em seu livro de despedida, publicado em 2004 e intitulado A Economia das Fraudes Inocentes, o economista John Kenneth Galbraith destaca algumas ideias do senso comum da Economia ensinada nas Universidades, que são apresentadas como verdadeiras, mas que constituem verdadeiras fraudes. De modo tolerante, tais ideias são rotuladas pelo autor como “fraudes inocentes”, ainda que algumas não mereçam efetivamente tal qualificativo. Uma delas seria precisamente a de que existiria uma distinção nítida entre o interesse público e o privado, ou, de modo geral, um critério nítido de demarcação entre os elementos do par Público/Privado. Com a autoridade de quem desempenhou funções de destaque em nível mundial na gestão da economia, incluindo-se um longo período na presidência do FED, que seria como um Banco Central americano, Galbraith expõe os meandros das complexas e delicadas relações entre o governo e a indústria de armamentos, nos EUA, o que desnudaria uma interferência incisiva, eticamente difícil de se aceitar.  Nos últimos anos, vieram à tona na mídia muitas informações igualmente incômodas sobre certa promiscuidade nas relações entre os governos e a indústria farmacêutica. Ainda que os fatos divulgados possam comportar diferentes interpretações, não podendo ser considerados verdades absolutas, são muito sólidos os indícios de que o par Público/Privado carece urgentemente de uma revisão conceitual.

Nos dias atuais, as interfaces entre o Público e o Privado situam-se em três dimensões principais, nos terrenos da Economia, da Sociologia e da Política. Apesar de constantemente se misturarem, e de parecer praticamente impossível uma separação nítida entre tais dimensões, elas apresentam elementos distintivos que mereceriam uma atenção especial.

Na Economia, alguns ingredientes relativamente recentes parecem especialmente relevantes. O primeiro deles é o fato de que o conhecimento se transformou efetivamente no principal fator de produção, transformando substancialmente as ideias de autoria e de propriedade. Em terrenos como o da Medicina, ou da indústria farmacêutica, uma estrita privatização do conhecimento pode ser facilmente caracterizada como imoral, e uma espécie de habeas cognitio pode ser um instrumento tão importante no que se refere à vida como um valor quanto o habeas corpus representa no que tange à liberdade pessoal. O premiado trabalho que resultou no Prêmio Nobel de Economia para Elinor Ostrom em 2009, intitulado Understanding Knowledge as a Commons, representa um marco notável em tal percurso. Ao defender a caracterização do conhecimento como um commons, uma categoria criada para se contrapor à ideia de commodity,  situando o conhecimento ao lado da água que partilhamos ou do ar que respiramos, Ostrom alinhavou elementos teóricos especialmente fecundos, a serem explorados no sentido de redefinir a relação entre o público e o privado na produção e na circulação do conhecimento, com as consequentes redefinições de autoria e de propriedade. Iniciativas como a do Creative Commons constituem apenas o ponta pé inicial de um jogo que acabou de começar.

No terreno da Sociologia, a partir da primeira metade dos anos 1990, com a contribuição e a rápida evolução das tecnologias informacionais, crescem a cada dia as evidências de uma singular promiscuidade entre o Público e o Privado. A possibilidade aberta a praticamente todos os interessados de um acesso às redes sociais, espaço em que, paradoxalmente, a autoria e o anonimato continuamente proliferam, fez, já há algum tempo, sua mais importante vítima: a ideia de verdade. O fenômeno das fake news ocupa espaço importante na circulação de informações, sobretudo em épocas críticas, como a das eleições. Se há muito se sabe que a Educação é condição de possibilidade do funcionamento de uma Democracia, mais recentemente tornamo-nos mais conscientes de que há muito o que aprender no que tange à partilha do espaço informacional, com sua peculiar maneira de imiscuir e promiscuir os espaços público e privado. Em meados do século XIX, Eça de Queirós advertiu um amigo que pretendia fundar um jornal, em uma carta a ele dirigida em que associa o aumento na circulação de notícias com o crescimento da intolerância. Ao acolher autores com ideias semelhantes, que continuamente se fermentam e se alimentam, os jornais, segundo Eça, em tal carta, poderiam favorecer tal desvio. Eça foi, sem dúvida, premonitório, os aspectos supostamente negativos que aponta nos jornais têm sido amplificados milhares ou milhões de vezes pelas redes sociais.

É no terreno da Política, no entanto, que as transformações nas relações entre o Publico e o Privado se tornam mais sutis e mais tensas.  De fato, como bem apontou Galbraith no livro anteriormente citado, a divisão entre Estados capitalistas ou socialistas tornou-se claramente insuficiente para a caracterização da orientação política de cada um. A associação simplista do capitalismo com a prevalência do Privado, e o socialismo como a predomínio do setor Público rapidamente tornou-se inexpressiva. O fracasso de regimes como o da ex União Soviética pode ter sugerido, de início, um triunfo da perspectiva capitalista, mas rapidamente o capitalismo amplificou algumas de suas facetas  mais perversas, como é o caso das dificuldades na circulação de bens fundamentais para a vida humana entre todos os necessitados. A despeito de tanto sucesso na produção de riquezas. em todos os lugares, a desigualdade iníqua é cada vez maior.  E não se trata apenas de ocorrências de tais disparidades em países periféricos. Nos últimos meses, a divulgação ampla na mídia de um fato provocou desconforto e teve consequências práticas imediatas. Na divulgação dos resultados econômicos relativos ao ano de 2017, anunciou-se que o principal acionista de uma grande empresa no mercado do comércio e de tecnologia faturara em dividendos cerca de 3 bilhões de dólares, ao mesmo tempo em que o salário médio dos programadores de sua bem sucedida empresa seria de apenas 4 dólares a hora… Em cerca de um mês, a repercussão negativa provocou duas inciativas marcantes do principal acionista: uma doação de cerca de 1 bilhão para uma causa educacional nobre e, o que é mais importante, um aumento do piso salarial para os programadores para 15 dólares a hora… Um efeito político absolutamente desejável seria uma “contaminação”  das políticas de remuneração de todos os empregadores, tanto no setor público quanto no privado, pela consciência, ainda que tardia, do acionista acima referido. Remunerar adequadamente o trabalho é, sem dúvida, a política mais consistente de distribuição de renda.

É na confluência dos terrenos da Economia, da Sociologia e da Política, no entanto, que se dá a mais sutil das reconfigurações entre as relações entre o Público e o Privado. Com a inexpressividade do par capitalismo/socialismo na referência à realidade política dos diversos países, operou-se uma nova caracterização de tal distinção: há Estados cujo sistema produtivo é caracterizado como uma Economia de Mercado; outros, teriam uma economia marcadamente estatal, ou seja, excessivamente regulada/controlada pelo Governo. A expressão “Economia de Mercado” passou a representar um modelo amplamente desejável, sublimando as restrições ao capitalismo. Ao mesmo tempo, a regulação estatal, que admite uma discussão importante sobre seus limites, mas não sobre sua existência, passou a ser vista como intrinsecamente indesejável, tangenciando, às vezes, a seara do anarquismo.

O aspecto sutil de tal mudança de perspectiva é a ocorrência concomitante de uma prosopopeia do Mercado, ou uma especie de humanização de tal constructo . Todos os dias, somos informados de que “o mercado está nervoso”, “o mercado está otimista”, “o mercado reagiu mal às medidas do Governo”, como se a entidade “Mercado”, ou o Modelo da Economia de Mercado, ao invés de se esforçar para representar a realidade, às vezes falhando em tal intento, passasse a reger a realidade, como se tivesse vontade própria. Para representar uma síntese efetiva entre os interesses Público e Privado, o Mercado não pode ser como um ser humano isolado, uma pessoa desvinculada dos interesses da sociedade. O Mercado não é bonzinho ou malvado, é o que nosso projeto de país quiser fazer dele.

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SEMENTES 139 # MITO OU VERDADE?

Nos últimos anos tem sido comum a questão apresentada no título, como se vigorasse uma triangulação simples, em que “mito” fosse sinônimo de “mentira”, que, por sua vez, seria o oposto de “verdade”. Em tempos de pós modernidade, em que nossas certezas foram reduzidas a pó, em que convivemos com ideias lânguidas como as de Fake News e de “pós verdade”, a escolha que a pergunta sugere somente pode ser classificada como ingênua ou mal informada.

De fato, a ideia de verdade há muito se afastou do caráter binário, do Verdadeiro ou Falso excludente e totalizante, em que se supunha a inexistência de uma terceira alternativa, nem o “acúmulo” de funções entre o V e o F. Salvo casos especialmente simples, a correspondência direta entre um enunciado e um fato é uma quimera, e a Lógica tornou-se um pouco mais humilde, aceitando um terceiro estado em que não afirmamos nem negamos a verdade. Em outras formulações, a Lógica também assumiu a realidade do embaçamento, incorporando as probabilidades de modo consistente, em sua versão “Fuzzy”. E nas entranhas de sua vertente mais dura, a Lógica Matemática, a transformação mais séria se deu por meio da remissão da ideia de verdade à meta linguagem, a uma espécie de transcendência. Hoje, aceitamos que somente se pode falar de modo consistente da verdade de uma proposição P de uma linguagem L, que fala de objetos, se recorremos a uma linguagem L’ de ordem superior, que tem como objetos as proposições da linguagem L. As sentenças de L’, por sua vez, somente poderão ser classificadas em V ou F em uma linguagem L’’, de ordem superior a L’, e assim por diante. Mesmo perdendo a chancela da nitidez iluminista, na relação com o mito vê-se que a ideia de verdade não perdeu a pose.

Quanto ao mito, uma análise do verbete correspondente no Dicionário de Filosofia de Abbagnano revela que três são as acepções em que a palavra é utilizada em sentido filosoficamente adequado, e nenhuma delas pode ser associada à ideia de uma simples mentira, como se verá.

A primeira acepção é a de uma forma aproximada, imperfeita, da ideia de verdade, como era a visão de Platão ou de Aristóteles. A expressão mítica seria, em certos campos, a forma possível de se aproximar do verdadeiro. Aceita-se que o que o mito afirma não seria perfeitamente explicável, nem demonstrável como um resultado científico, mas traduziria bem mensagens de natureza moral ou religiosa. A limitação da verdade do mito seria inerente a sua natureza, convivendo com a expectativa de rigor interpretativo do conhecimento em outras áreas.

A segunda acepção do mito é oposta à primeira, no sentido de que a ideia de mito é uma forma fecunda e autônoma de pensamento, que não deveria ser considerada como uma verdade empobrecida. Autores como Cassirer, Vico ou Schelling exploram a riqueza da linguagem mítica, da mesma maneira que um poema não é um cálculo empobrecido, ou uma obra de arte não é um produto industrial rudimentar. Em sua inspiradora obra (Filosofia das Formas Simbólicas), Cassirer apresenta múltiplas formas de acesso à realidade, cada uma com seus recursos e suas limitações: a ciência, o mito, a arte são algumas de tais formas, que deveriam interpenetrar-se continuamente.

A terceira acepção de mito decorre de teorias sociológicas ou psicológicas, que não separam o universo mítico da realidade imediata, recorrendo a ele para exercer certo tipo de controle sobre tal realidade. É o caso, por exemplo, dos trabalhos de Malinowski, no terreno intermediário entre a sociologia e a antropologia, bem como de reflexões como as de Jung no terreno da psicologia. A busca do equilíbrio entre a desvalorização platônica e a supervalorização da lavra de Cassirer é o nó górdio da questão. Tudo isso, no entanto, situa-se em um plano muito superior ao da mera distinção entre verdadeiro ou falso, como sugeririam, ingenuamente, tantas enquetes realizadas pelas redes sociais, ou pelos meios de comunicação.

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SEMENTES 138 # FORMA (PUSH) E CONTEÚDO (FISH) NA AÇÃO/FORMAÇÃO DO PROFESSOR

PROFESSOR: O PROFISSIONALISMO EM QUESTÃO

Em comercial de uma instituição de ensino superior privada, um aquilino animador de programas de TV convidava o público a cursar uma licenciatura e tornar-se apto a fazer “bicos” como professor, incrementando seus rendimentos. De tão esdrúxulo, tal personagem não mereceria sequer um comentário de passagem, mas a concomitância com a divulgação da aprovação de um projeto de lei, da lavra do senador Cristóvão Buarque, propondo a federalização da profissão docente, põe em relevo uma “amplitude” de concepções, da mais abstrusa à mais inspirada, que não pode passar despercebida.

De fato, uma caracterização mais adequada da profissão docente é uma tarefa ingente. De início, é importante destacar que, com o devido respeito a toda e qualquer função que se exerça no universo do trabalho, não é qualquer ocupação que é uma profissão. A ideia de profissionalismo está associada ao desempenho de funções que, pela sua natureza específica, não podem ser reguladas exclusivamente pelas leis do mercado, nem pelos dirigentes da máquina administrativa do Estado, como é o caso dos serviços da saúde, da educação e da segurança pública. Algumas vezes, a própria imprensa frequentemente confunde a ideia de profissionalismo com a da mera competência técnica, dizendo de um crime hediondo, com requintes de perversidade, que “é coisa de profissional”. Outras vezes, atletas ditos “profissionais” deixam-se pautar exclusivamente pelas leis do mercado, atropelando compromissos previamente assumidos, em nome de afirmações do tipo “sou profissional”.

A ideia de profissionalismo, no entanto, é conceitualmente mais complexa, envolvendo três dimensões fundamentais: uma competência técnica, um compromisso público e uma autorregulação do exercício da atividade profissional. De fato, sem competência técnica em uma área de conteúdos específica não há profissionalismo, mas o bom profissional transborda em muito a mera competência técnica: ele tem compromisso com o público a que serve. Não é um bom profissional um médico, um juiz ou um professor que atende mal quem busca pelos seus serviços em decorrência das más condições de trabalho ou de salário a que é submetido. Um operário pode sabotar uma fábrica: um profissional da saúde, da educação ou da justiça jamais poderia pensar em recursos desse tipo. O compromisso de um profissional, no entanto, é a contrapartida para uma condição fundamental no profissionalismo, que é a autorregulação. Entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil, ou os diversos Conselhos de áreas como Medicina, Psicologia, Engenharia, entre outros, são responsáveis pela regulação da atividade do profissional da área correspondente, viabilizando o equilíbrio e a equidistância em relação às leis do mercado e ao poder do Estado. Tais instituições têm Códigos de Ética que explicitam as responsabilidades e os compromissos da atuação profissional; outro âmbito é o das reivindicações de salários, reservadas aos respectivos sindicatos.

Ao pleitear que o magistério seja federalizado, assumindo as características de uma função como a do Ministério Público, o parlamentar supra referido revela-se, mais uma vez, um visionário. É fundamental lembrar, no entanto, que o paralelismo entre as carreiras do Magistério e do Ministério Público traria consigo um considerável aumento no nível de exigências para o ingresso na profissão docente, tal como ocorre no caso dos profissionais da justiça. Aos professores resta a iniciativa de assimilar as consequências do projeto de lei referido, assumindo as enormes responsabilidades inerentes a tal reordenamento profissional.

  FORMAÇÃO DO PROFESSOR: CONTEÚDO E FORMA

  Em recente Fórum de Inovação Educacional promovido por jornal de grande circulação, especialistas debateram sobre a formação do professor. O interessante material produzido representa uma contribuição importante para o tema. Não obstante tal fato, uma leitura apressada de tal material pode conduzir a derrapadas em algumas clássicas cascas de banana. Uma delas é a resposta à questão “O que define um bom professor?”, formulada pelos organizadores. Para a Diretora do Programa de Educação de Professores da Universidade de Harvard (EUA), Katherine Merseth, “o segredo é conhecer bem os alunos a ponto de estabelecer uma boa relação com eles e, ao mesmo tempo, agir com rigor em sala de aula.”

Naturalmente, a referida professora está dando como garantida a competência dos professores no que se refere ao conhecimento dos conteúdos disciplinares que devem ser ensinados, o que, nem de longe, pode ser considerado certo entre nós. Especialmente no que tange aos cursos de Pedagogia, o conhecimento de matemática, por exemplo, situa-se muito abaixo do mínimo que se poderia esperar na quase totalidade dos casos. As exceções que podem ser nomeadas apenas confirmam a regra. A aprendizagem de metodologias predomina amplamente, numa inversão de perspectivas que torna os meios mais importantes que os fins.

De modo geral, a falta de valorização dos conteúdos é muito frequente em quase todas as disciplinas, e isto ocorre há várias décadas. Em texto seminal, publicado na década de 1950, Hannah Arendt já caracterizara a crise na Educação americana como resultante de três grandes desgraças: a crise na ideia de autoridade, resultante do abandono acrítico da tradição; o desprestígio dos conteúdos, em nome de uma superestimação de metodologias fascinantes, mas perfunctórias; e, mesmo quando o conteúdo é abordado, a ocorrência frequente de uma subestimação da importância da teoria, com a correspondente supervalorização da prática.

Nunca será demais, no entanto, reiterar a importância da mensagem da educadora de Harvard, no que diz respeito à importância das relações de amizade, de tutoria ou de orientação, a serem estabelecidas entre professores e alunos. É imprescindível, no entanto, registrar explicitamente que tais relações não podem suprir a eventual falta de competência técnica dos docentes. Na formação profissional, em todas as áreas, o logos e o pathos, a razão e o sentimento, o conteúdo e a forma devem estar em permanente sintonia. Em última instância, no que se refere à forma de atuação, amar as crianças é lindo e é necessário, mas, decididamente, não basta. Não é possível equacionar o problema da formação sem uma atenção especial a questões relativas ao conteúdo a ser ensinado

FORMAÇÃO PROFISSIONAL:  FORMA (P.U.S.H.)

Já vai bem longe o tempo em que a vida profissional podia ser caracterizada por quatro fases nítidas: curso de formação, formatura/ingresso no mundo do trabalho, progressão na carreira e aposentadoria. Atualmente, em todas as áreas de atuação, toda formação é apenas uma formação inicial, um profissional nunca se sente “formado”, as carreiras nem sempre constituem hierarquias fixas, incorporando cada vez mais certo espraiamento horizontal que beira o nomadismo, e as aposentadorias estão se transformando em mudanças no tipo de atividade que nos atrai: aposentamo-nos de certas tarefas para realizar outras, muitas vezes com o mesmo entusiasmo do principiante.

No que se refere à forma, quatro palavras podem servir de base para caracterizar a formação profissional hoje, nas mais diversas áreas, e muito particularmente, na formação do professor: Permanente, Ubíqua, Simbiótica e Híbrida.

De fato, a ideia mais geral associada à formação profissional hoje é a de que ela é permanente, estendendo-se ao longo de toda a nossa vida. Aprendemos continuamente ao longo do tempo, como se estivéssemos andando de bicicleta: parar de pedalar é desistir da viagem. Toda formação, por mais específica que se pretenda, é sempre uma formação inicial. Na atuação profissional, no mundo do trabalho, estamos docemente condenados a estudar e aprender continuamente.

Complementarmente em relação a tal perspectiva de extensão temporal, multiplicam-se os espaços de aprendizagem. A regra geral é que a aprendizagem é ubíqua. Aprendemos no dia a dia do trabalho, nas horas de lazer, ao assistirmos a um filme ou em uma viagem de férias. Incorporamos relações, construímos ou ampliamos significações de modo ubíquo, em todos as situações de convivência. A escola continua a ser um importante espaço do conhecimento, mas nunca o foi de modo exclusivo, e cada vez tem peso menos determinante como lugar de formação profissional.

Uma terceira marca da formação profissional hoje é que ela é simbiótica no que se refere às relações entre a teoria e a prática. Ainda que um elogio tácito dos aspectos práticos da formação profissional permaneça subjacente, é cada vez mais evidente a importância da teoria como a visão que leva à compreensão. Sem a teoria, a prática é cega, é limitada. Somente recusa a teoria aquele que a associa à mera contemplação, desvinculada da ação. Um outro aspecto relacionado à simbiose teoria/prática é o par especialização/ generalismo, que pode representar outra forma de contrapor a prática da especialização com a visão mais distanciada – mais teórica – do generalista. A formação de especialistas é – e nos parece que será sempre – fundamental, mas a noção de especialidade se transformou. O especialista ironizado por Chaplin no filme Tempos Modernos não mais subsiste: as máquinas o estão substituindo. Mas isso não significa que estamos interessados em formar apenas generalistas: o especialista hoje é um consultor, é aquele que dispõe de uma competência específica em certo conteúdo, mas que consegue mobilizar tal conteúdo no sentido de fazer funcionar bem um sistema mais amplo, do qual sua especialidade participa. Um especialista hoje é alguém que se interessa por pontos/pixels que constituem uma foto, mas que compreende o significado da imagem representada, e, simbioticamente, alimenta seu interesse pelos pixels a partir da totalidade da imagem, e vice-versa. Em outras palavras, o consultor é portador de uma visão teórica legitimada por uma prática competente.

E finalmente, diante de um cenário em que a ideia de uma Educação à distância tende a se generalizar, a formação profissional hoje, em todas as áreas, compreende, mais do que nunca, uma dimensão híbrida, uma colaboração competente entre uma parte presencial, imprescindível para viabilizar a transformação de links em laços, e uma parte à distância, que sempre existiu, mesmo na mais clássica das formações. No caso específico da escola básica, uma evidência de tal hibridismo são as chamadas “lições de casa”, que constituem, efetivamente, uma educação à distância à moda antiga. De fato, uma formação inteiramente presencial pode significar um desperdício de competências, ao mesmo tempo em que uma formação exclusivamente à distância física pode constituir uma perigosa quimera. Nem tudo o que aprendemos pressupõe estarmos diante de um professor, mas uma formação humana sempre exigirá um sistema de proximidade entre educadores e educandos: tudo o que os recursos tecnológicos nos oferecem é simplesmente modos alternativos de nos aproximarmos uns dos outros. O hibridismo entre a formação presencial e a formação à distância é, enfim, o que deve prevalecer: a escolha do mix pode variar, em cada caso concreto, mas os dois ingredientes são absolutamente fundamentais.

FORMAÇÃO PROFISSIONAL: CONTEÚDO (F.I.S.H.)

Por mais que se pretenda, justificadamente, que na formação profissional os conteúdos são meios para o desenvolvimento das competências pessoais, não é aceitável a ideia de que eles não são primordiais no processo de formação. Na relação com as metodologias de ensino, geral por exemplo, os conteúdos são fins, as metodologias é que são meios. De modo, não é possível tergiversar: sem um conhecimento adequado dos conteúdos não existe profissional bem formado. Caricaturas do ensino dos conteúdos, no entanto, devem ser afastadas dos processos de formação. O chamado “conteudismo”, por exemplo, um fantasma que consiste no tratamento do conteúdo como um fim em si mesmo, é uma de tais caricaturas. A defesa da importância dos conteúdos precisa estar associada, portanto, a uma caracterização mínima do modo de tratamento dos temas de modo a tirar proveito de metodologias favorecer o desenvolvimento das competências.

No que se refere ao conteúdo da formação profissional, quatro expressões podem servir de guia para orientar a organização das ações docentes: Ideias Fundamentais, Centros de Interesse, Foco no Significado e Valores Humanos.

Comecemos com as ideias fundamentais. As críticas mais incisivas e justas ao “conteudismo” relacionam-se diretamente com a fragmentação do conhecimento disciplinar, que é marcante no funcionamento da escola, em todos os níveis de ensino. A impressão forte é a de que se perdeu o discernimento entre o que é fundamental e o que poderia ser um eventual complemento, entre do que é essencial e do que é acessório na infindável lista de conteúdos escolares. Existe em todas as disciplinas um pequeno elenco de ideias fundamentais que todo cidadão precisa conhecer, ao longo da educação básica. Fatos básicos sobre fotossíntese, genética ou DNA, em Biologia, por exemplo, mas os livros didáticos extrapolam em muito os limites dos fundamentos. Não se trata de eliminar qualquer uma das disciplinas, mas em acertar a mão na escolha da escala para o tratamento dos temas a serem ensinados. Em razão do fato de que as ideias realmente fundamentais nunca são isoladas, sempre se articulando mutuamente, no interior de cada disciplina, e de que tais ideias sempre transbordam os limites das disciplinas de onde emergem, situar o foco nos fundamentos contribui decisivamente para uma articulação interna de cada disciplina, bem como para a integração entre as diversas disciplinas. Os fundamentos de todas as disciplinas são conteúdos importantes na formação dos profissionais de todas as áreas.

No tratamento dos conteúdos, outra tarefa imprescindível é a criação de centros de interesse para a exploração dos temas disciplinares. Alunos naturalmente interessados nos conteúdos disciplinares existem, mas são poucos: é preciso mediar um frequente conflito entre os interesses dos alunos e o interesse dos cursos de formação, traduzidos em currículos e programas disciplinares. Motivações como a preparação para o trabalho em nível técnico não parecem atingir uma parte expressiva dos alunos. É necessário estabelecer relações entre as temáticas disciplinares e a Arte e a Cultura em sentido amplo. A Tecnologia também pode constituir um importante centro de interesses, alguns deles sem qualquer relação direta com o mundo do trabalho. E a Ciência pode se mostrar especialmente motivadora, se forem apresentadas suas faces mais instigantes, algumas delas com aparência mais ficcional do que boa parte dos filmes de ficção científica. Em diversos países do mundo dinâmicas de criação de centros de interesse estão em pleno curso, algumas delas rotuladas por siglas sintetizadoras como, por exemplo, STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematics), ou STEAM (Science, Technology, Engineering, Arts, Mathematics), entre outras siglas similares envolvendo a área da Saúde, e particularmente a Medicina.

Uma maneira especialmente efetiva de mobilizar os conteúdos tendo em vista o desenvolvimento de competências é manter em todos os temas e de modo permanente o foco das atenções no significado do que se ensina. Trata-se, no fundo, de uma mudança de atitudes em relação a uma perspectiva utilitária, que predomina na justificativa da apresentação dos conteúdos disciplinares. A costumeira questão “Para que serve isso?” precisa perder grande parte da relevância que tem na escola. Tudo o que se ensina deve ter significado, ainda que nem tudo o que se apresenta aos alunos tenha aplicação prática. Um poema não se justifica por putativas aplicações práticas. Um poema nos faz sentir, compreender, nos faz ver, perceber, imaginar. A, Arte em suas diversas formas de manifestação, também se faz presente e significativa em nossas vidas sem o sentido da aplicação prática.

E finalmente, mas não em último lugar, há a inescapável questão dos valores humanos. Todos os conteúdos apresentados, em todos os níveis de ensino, encontram-se absolutamente comprometidos com os valores fundamentais em nossa formação e constituição como seres humanos. Em última instância, todo o conhecimento se justifica apenas como meio para que as pessoas realizem seus projetos, mas projetos são sustentados por uma arquitetura de valores: projetos sem valores podem ser coisas monstruosas.

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SEMENTES 137 # O VALOR DE PI É 3, É 80, OU É 180? UM PASSEIO DA BÍBLIA AOS DIAS ATUAIS

A pergunta do título parece coisa de louco. Uma cultura matemática mínima parece nos distanciar das duas últimas alternativas de valores, mas convém ir devagar… Um pequeno poema de José Paulo Paes pode ser um convite a uma reflexão, um freio na precipitação do senso comum:

“Dois mais dois são três” disse o louco.

“Não são não!” berrou o tolo.

“Talvez sejam” resmungou o sábio.

Vamos ao ponto. O fato é amplamente conhecido: dividindo-se o comprimento C de uma circunferência pelo seu diâmetro D, o resultado dá sempre o mesmo número, tanto se medirmos tais comprimentos em uma pequena aliança, em um pneu de um automóvel, em uma roda gigante, ou no Equador Terrestre… O valor de C é um pouco mais de 3 vezes maior do que o valor de D, ou seja, a razão C/D é constante e aproximadamente igual a 3, qualquer que seja a circunferência em questão. Tal invariância notável entusiasma matemáticos platônicos, que não se consideram inventores, mas sim descobridores de relações em um universo de objetos matemáticos que sempre existiu. De modo categórico, garantem: não inventamos, descobrimos isso.

Na Grécia Antiga, o cálculo do valor de tal razão constante foi efetuado de diversas maneiras, com aproximações cada vez melhores: 22/7 era um valor muito utilizado (3 inteiros e 1/7), além de outros como 3,1416, ou 3,141592… Na vida prática, um pedreiro que quer calcular a quantidade de tijolos necessários para construir um poço cilíndrico de abertura de 1 metro, estima 3 metros lineares de tijolos para completar uma fileira de tijolos deitados em volta do poço  (C = 3D), e pela largura do tijolo, complementa os cálculos relativos à profundidade do poço. O cimento servirá de liga ocupando o pequeno espaço entre os tijolos se encarregará da fração da razão C/D, que é, de fato, um pouco mais do que 3, e tudo funciona a contento.

Também na Bíblia, a razão C/D é igualada a 3. Em 1 Reis, 23, está escrito que Salomão construiu um tanque circular que tinha 10 côvados de abertura, de um lado até o outro, e 30 côvados de comprimento, quando se andava ao redor. (Um côvado era uma antiga unidade de comprimento que correspondia à distância entre o cotovelo e a ponta dos dedos de um braço, algo em torno de 46 cm).

Em nenhum momento anterior ao século XVIII a razão constante C/D foi representada pela letra grega ; não se escrevia, então,   = C/D. Na Grécia Antiga, a letra  representava o número 80…

De fato, o sistema de numeração grego, do qual, atualmente, pouco se fala, utilizava as letras do alfabeto para representar os números. A convenção era a seguinte: as nove primeiras letras (α, β, representavam os números de 1 a 9; as nove letras seguintes representavam as dezenas (correspondia à oitava dezena, representando, pois, 80); e as nove letras seguintes representavam as centenas (𝟁 era a sétima centena, correspondendo a 700). Assim, o número 782 era escrito como 𝟁πβ. Onde aparecia a letra  ela representava, então o número 80.

Foi apenas no início do século XVIII que o professor de matemática William Jones escreveu um livro em que representou a razão C/D pela letra π, inspirado na palavra perímetro, em grego. A adesão dos matemáticos não foi imediata; a adesão de Euler, um matemático respeitado, contribuiu para a consolidação de tal uso.  Somente a partir daí (por volta de 1706), π passou a representar efetivamente a razão entre o comprimento de uma circunferência e seu diâmetro, ou seja, 3,141516 (aproximadamente).

Quanto ao valor 180, tal associação não passa de um mal-entendido, no âmbito de vestibulandos mal informados. Como a medida de um ângulo raso, de meia volta, é igual a 180 graus, ou, equivalentemente, em radianos, a π radianos, então π radianos correspondem a 180 graus, e daí a derrapagem da equivalência para a igualdade equivocada entre π e 180. Apesar do lembrete do poeta, esta última igualdade é loucura, fala sério…

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SEMENTES 136 # “CONSIDERAÇÕES”: ASTROLOGIA, FUSÃO DE HORIZONTES, CONSTELAÇÕES

O significado mais frequente da palavra “considerar” está associado a verbos como meditar, refletir, ponderar, estimar, ter em grande conta, examinar criticamente todas as circunstâncias de um ato, tendo em vista a tomada de uma decisão. Etimologicamente, no entanto, a raiz mais funda da palavra encontra-se na astrologiana observação dos astros (sidera), tendo em vista a orientação das ações em empreendimentos futuros, como se pode conferir no Grande Dicionário Etimológico-Prosódico da Língua Portuguesa, de Silveira Bueno.

Como se sabe, na Roma antiga, os métodos de antecipação do futuro cunhados pela astrologia eram muito populares. Atualmente, salvo no que tange à previsão do tempo, gozam de pouco prestígio, ou seja, caprichosamente, não são levados em consideração. O significado principal da palavra “consideração” teria sofrido uma radical transformação. Renegando explicitamente sua origem etimológica, ele não mais remeteria, nem mesmo tacitamente, aos astros. É o que parece, mas arrisco afirmar que o que parece não é.

De fato, duas das noções mais fecundas e atuais da epistemologia apontariam no sentido de uma reinterpretação e uma revitalização dos astros, não mais como logos, mas como alegoria, na busca de uma compreensão da condição humana. refiro-me às ideias de “fusão de horizontes”, apresentada por Gadamer em seu seminal livro Verdade e Método, e de “constelação”, da lavra de Adorno, no denso Dialética Negativa. Nos dois casos, a inspiração nos astros como alegoria é bastante evidente. Algumas poucas palavras a seguir têm apenas a intenção de introduzir a questão.

Conhecer é conhecer o significado, e o significado somente se constrói por meio do sentido, ou dos sentidos. O que não é sentido, não faz sentido. Mas os sentidos são pessoais, idiossincráticos; cada visão é um ponto de vista, referido a um cenário específico, a um horizonte pessoal. A educação consiste na construção dos significados, que representam a parte partilhável dos sentidos, o que somente pode ocorrer por meio de uma fusão dos horizontes pessoais. Nas palavras de Gadamer, “o intérprete e o texto possuem cada qual seu próprio horizonte e todo compreender representa uma fusão desses horizontes.” Como fica claro em seu trabalho, a referida fusão não significa uma unificação das visões, que eram distintas e permanecem distintas, mas sim a inserção das visões em uma linha do horizonte comum, o que viabilizaria o logos, o diálogo, a tolerância, a compreensão. Não me parece existir frase mais adequada como síntese das produções da Escola de Frankfurt do que a busca da construção de um horizonte comum para a interação entre as diferentes visões de mundo dos participantes do discurso, regulado pela razão comunicativa. Retornando ao início destas considerações, a busca de um lugar para viabilizar uma visão comum certamente deve nos deslocar de polarizações terrenas, como as perspectivas ocidental e oriental, ou outras, derivadas de grupos de países representativos de diferentes concepções político-econômicas, passando a situar nos astros o centro de nossos olhares. Assim,ter os astros para orientar as ações, ou seja, tecer considerações, transformar-se-ia não buscar as justamente desprestigiadas correlações astrais, mas sim um ponto de vista que possibilitasse uma visão comum para todos nós, habitantes deste pequeno planeta Terra.

Em outro sentido, complementar ao anterior,  o conceito adorniano de constelação pode estar contribuindo para uma revitalização de sua associação inicial de consideração com os astros. ideia de constelação oferece uma perspectiva extremamente interessante para os descrentes na razão iluminista, muitas vezes associada a uma razão formal, fundada em “conceitos”. Distinguindo o uso ordinário da palavra conceito, como sinônimo de ideia ou noção, de seu uso teoricamente denso, associado aos quatro pilares definição, classificação, ordenamento e causalidade, o que se percebe é que, na vida cotidiana, incluindo-se a vivência na escola básica, pouco utilizamos conceitos em sentido técnico, com suas hierarquias categóricas. Não conhecemos o conceito de verdade, o conceito de tempo, o conceito de consciência, ou de vida em sentido humano, e vivemos bem, apesar disso. Lidamos quase o tempo todo com noções preconceituais, esquemas de percepção ou de ação; vivemos na antessala dos conceitos. Temos um consenso quase absoluto em língua portuguesa na atribuição de um sentido negativo ao “preconceito”, que parece sempre detestável. E o é, efetivamente, na medida em que se trata de uma ideia preconceitual que se pretende um conceito. É aí que mora o perigo.

Com a ideia de constelação, Adorno nos lembra de como podemos viver bem sem se submeter a uma razão iluminista simplificada, sem pressupor que trabalhamos apenas com conceitos em sentido filosófico, distinguindo com nitidez a razão e a sombra, o bem e o mal. Ao apresentar sua “dialética negativa”, ele afirma que “não se progride a partir de conceitos e por etapas até o conceito superior mais universal, mas esses conceitos entram em constelação. Essa constelação ilumina o que há de específico no objeto e que é indiferente ou um peso para o procedimento classificatório.” A possibilidade de uma razão ampliada, que incorpore infra-lógicas em terrenos em que a formalização seja inviável ou demostradamente impossível é que conduziu à ideia de constelação. Afinal, em vez de um conceitual sistema solar, a nos indicar nitidamente o objeto iluminado, e até mesmo denegando a importância do que a sombra esconde, um conjunto de estrelas com múltiplos focos, iluminando de forma aparentemente desordenada as múltiplas perspectivas de observação – ou seja, uma constelação – pode constituir uma alegoria muito mais interessante, muito mais representativa da vida em sentido humano.

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SEMENTES 135 # O ALEPH E A ETERNIDADE: FUSÃO DE HORIZONTES E MINISTÉRIO DO TEMPO

Há um texto de Jorge Luís Borges em que se apresenta um lugar especial, denominado Aleph, situado no sótão de uma casa sombria, de onde todos os lugares do mundo poderiam ser vistos de uma só vez, em todas as perspectivas e sob todos os pontos de vista possíveis. A singularidade de tal local traduziria a expectativa utópica de uma visão totalizadora do mundo, de onde poderia advir uma compreensão mais adequada do outro, uma partilha instantânea, fraterna e generosa de pontos de vista. Diversas variações místicas na concepção de um lugar como o Aleph podem ter levado alguns autores a distorções ou apequenamentos de tal constructo, mas a ficção de Borges é ímpar, e continua, sem dúvida, fascinante e inspiradora, especialmente no que tange à caracterização de um espaço social tão impregnado de tecnologias.

Alguns roteiros cinematográficos têm-se inspirado em questões similares no que se refere ao tempo, oferecendo uma perspectiva integrada da tripartição passado, presente e futuro. Um exemplo interessante é a série espanhola intitulada Ministério do Tempo, que apresenta situações em que personagens do presente podem conviver com outros do passado, por meio de portas de acesso a outros universos temporais. O vigilante Ministério do Tempo seria uma instituição governamental criada com a finalidade específica de enviar pessoas para outros tempos e lugares, tendo em vista evitar desvios, ou ocorrências fortuitas que comprometeriam o futuro; no caso, o futuro do passado, que é o presente. A dissolução da tripartição passado / presente / futuro corresponderia a uma compreensão do tempo numa perspectiva de Eternidade.

As duas situações apresentadas congeminam-se perfeitamente: a eternidade está para o tempo assim como o Aleph está para o espaço.

Um passo modesto mas extremamente fecundo no sentido da construção de uma visão integradora do espaço, do tempo, do espaço/tempo,  é a ideia de Fusão de Horizontes, da lavra de Gadamer, em sua densa obra Verdade e Método. Segundo Gadamer, o conhecimento sempre se constrói a partir de visões/percepções pessoais, idiossincráticas. Duas pessoas diferentes assistem ao mesmo filme e apresentam visões distintas, compreensões diversas; isso pode ser muito bom, mas é preciso cuidar dos horizontes diversos em que tais visões se inserem. Não se trata de unificar as visões, de buscar uma perspectiva única;  a questão que se põe é a de construir dialogicamente, argumentativamente, narrativamente, uma única linha de horizonte, na qual as duas visões se inserem. As visões/perspectivas continuarão distintas, mas somente  a construção de um horizonte comum viabiliza a vida numa sociedade democrática.

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