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Os Seminários de Estudo em Epistemologia e Didática reúnem alunos de graduação e de pós, professores de todos os níveis, estudiosos em geral e pessoas interessadas especialmente em Ciências, Matemática, Linguagem e Educação, mas são abertos ao estudo de temas relativos às mais diversas áreas do conhecimento.

SEMA

Grupo formado por professores, alunos e pessoas interessadas no aperfeiçoamento do ensino da Matemática em todos os níveis, e em explorar novas abordagens de ensino dos diversos temas da Matemática.

SEMENTES 135 # O ALEPH E A ETERNIDADE: FUSÃO DE HORIZONTES E MINISTÉRIO DO TEMPO

Há um texto de Jorge Luís Borges em que se apresenta um lugar especial, denominado Aleph, situado no sótão de uma casa sombria, de onde todos os lugares do mundo poderiam ser vistos de uma só vez, em todas as perspectivas e sob todos os pontos de vista possíveis. A singularidade de tal local traduziria a expectativa utópica de uma visão totalizadora do mundo, de onde poderia advir uma compreensão mais adequada do outro, uma partilha instantânea, fraterna e generosa de pontos de vista. Diversas variações místicas na concepção de um lugar como o Aleph podem ter levado alguns autores a distorções ou apequenamentos de tal constructo, mas a ficção de Borges é ímpar, e continua, sem dúvida, fascinante e inspiradora, especialmente no que tange à caracterização de um espaço social tão impregnado de tecnologias.

Alguns roteiros cinematográficos têm-se inspirado em questões similares no que se refere ao tempo, oferecendo uma perspectiva integrada da tripartição passado, presente e futuro. Um exemplo interessante é a série espanhola intitulada Ministério do Tempo, que apresenta situações em que personagens do presente podem conviver com outros do passado, por meio de portas de acesso a outros universos temporais. O vigilante Ministério do Tempo seria uma instituição governamental criada com a finalidade específica de enviar pessoas para outros tempos e lugares, tendo em vista evitar desvios, ou ocorrências fortuitas que comprometeriam o futuro; no caso, o futuro do passado, que é o presente. A dissolução da tripartição passado / presente / futuro corresponderia a uma compreensão do tempo numa perspectiva de Eternidade.

As duas situações apresentadas congeminam-se perfeitamente: a eternidade está para o tempo assim como o Aleph está para o espaço.

Um passo modesto mas extremamente fecundo no sentido da construção de uma visão integradora do espaço, do tempo, do espaço/tempo,  é a ideia de Fusão de Horizontes, da lavra de Gadamer, em sua densa obra Verdade e Método. Segundo Gadamer, o conhecimento sempre se constrói a partir de visões/percepções pessoais, idiossincráticas. Duas pessoas diferentes assistem ao mesmo filme e apresentam visões distintas, compreensões diversas; isso pode ser muito bom, mas é preciso cuidar dos horizontes diversos em que tais visões se inserem. Não se trata de unificar as visões, de buscar uma perspectiva única;  a questão que se põe é a de construir dialogicamente, argumentativamente, narrativamente, uma única linha de horizonte, na qual as duas visões se inserem. As visões/perspectivas continuarão distintas, mas somente  a construção de um horizonte comum viabiliza a vida numa sociedade democrática.

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SEMENTES 134 # TAILÂNDIA: AS CRIANÇAS NA CAVERNA, A FALÁCIA UTILITARISTA E AS OLIMPÍADAS ZOOLÓGICAS

Uma equipe de doze crianças tailandesas, juntamente com seu treinador, ficou perdida ao longo de nove dias, no interior de uma caverna aparentemente inexpugnável. Isolados do mundo exterior por sifões de água suja, em compartimento escuro, com pouco ar e parca alimentação, foram, afinal, localizados, mas um monumental quebra-cabeças logístico foi enfrentado pelas equipes de resgate. Bombeiros, mergulhadores, médicos e centenas de profissionais de diversas competências técnicas buscaram equacionar o problema por todos os meios imagináveis, mas, decididamente, a tarefa não seria fácil. Para encurtar a história, após vários dias de meticuloso planejamento, o resgate foi realizado, com todas as crianças salvas, bem como seu treinador.

Os jornais diários noticiaram fartamente toda a epopeia, que sensibilizou e mobilizou o planeta, mesmo o evento tendo ocorrido durante a Copa do Mundo de Futebol (2018). Aos 40 mergulhadores tailandeses, uniram-se mais de 50 profissionais de mergulho de outros países, e uma equipe de mais de 1000 profissionais trabalhou dia e noite em busca da preservação da vida das crianças e de seu treinador. Os crentes rezaram, os descrentes torceram, ninguém ficou indiferente ao que ocorria no interior de uma caverna tailandesa, envolvendo um pequeno número de seres humanos em formação. Nenhum esforço foi poupado, nenhuma dúvida sobre o significado e a relevância da tarefa coletiva, assumida solidariamente por tantos participantes de tão diversos países. Muitos sofreram muito e sentiram profunda e sinceramente as dores das crianças e das famílias envolvidas, independentemente de seu número. Mesmo com a ocorrência da morte acidental de um dos mergulhadores, o elenco maior de valores humanos envolvidos não abriu qualquer espaço para uma contabilidade utilitarista, não houve registro de qualquer dúvida com relação à pertinência da dedicação dadivosa de todos os envolvidos.

A despeito do sofrimento e do sentimento de angústia ao longo do evento, episódios como o das crianças tailandesas acendem em cada um de nós uma chama de esperança no imenso repertório de valores e de possibilidades de cada ser humano. A fé na perfectibilidade humana é um alento sublime que nos mantém vivos. Mas a vida humana, que certamente inclui a dimensão animal, sem se limitar a ela, precisaria ser repensada. Como há muito nos lembrou Ortega y Gasset, o que chamamos de Biologia não passa de uma Zoologia Humana. As palavras bio e zoo são de origem grega e significam vida, mas em sentido diverso. Zoo refere-se à vida em sua dimensão animal, do corpo físico, enquanto bio refere-se à vida em sentido humano, a vida com a palavra, juntamente com os outros, a vida do homem como animal político. As Copas do Mundo, as Olimpíadas, contribuem para nosso aperfeiçoamento na dimensão animal, latente em cada um de nós; são competições zoológicas. Seria necessário criar Olimpíadas Biológicas, em que os seres humanos competiriam para se tornar melhores como seres humanos, corpo e alma, razão e sentimento, física e mentalmente. O grande desafio é o do aperfeiçoamento de cada ser humano como pessoa. Enquanto não existirem Olimpíadas desse tipo, as cavernas tailandesas têm mais a nos ensinar, a nos fazerem crescer como seres humanos, do que as competições esportivas no sentido atual.

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SEMENTES 133 # ANTONIO MACHADO, KEITH DEVLIN E AS MENTIRAS FRACIONÁRIAS

A pior mentira não é a negação da verdade, é a quase verdade. O poeta Antonio Machado já nos alertara a respeito, em seu poema/aforismo  Dijiste media verdade? / Dirán que mientes dos veces / si dices la otra mitad, Em outras palavras, a metade da verdade é uma mentira em dobro. A atualidade do tema revela-se na tentativa de caracterização das Fake News. A estratégia mais frequente não é a pura e simples negação da verdade, mas a apresentação de uma fração da verdade, temperada por uma porção de mentira. A adesão à inteira versão mentirosa é facilitada pela sintonia com a inegável fração da verdade. Uma história notoriamente falsa, inteiramente inventada, causa, em geral, menos estrago do que uma pequena dose de mentira, diluída em um copo de verdadeira água de coco. O convencimento se dá pela sedução quase automática provocada pela fracionária verdade, e é aí que mora o perigo.

Uma situação psicologicamente simétrica ocorre quando uma indiscutível verdade é apresentada de modo enfático, um tanto exagerado, por meio de uma sedutora caricatura. Evidentemente, a caricatura representa e explora um excesso retórico, não sendo literalmente verdadeira. Uma reação natural ao exagero do caricatural pode enfraquecer a apresentação da verdade que a caricatura representa. A fração mentira, nesse caso, pode enfraquecer a totalidade da mensagem verdadeira.

O matemático Keith Devlin oferece uma abordagem teórica interessante para a exploração de tal temática em seu inspirado livro Logic and Information. Como se sabe, para se medir a quantidade de informação de uma mensagem, a Teoria Clássica da Informação recorre ao bit. A quantidade de informação de uma mensagem que é uma em duas possíveis, igualmente prováveis, é 1 bit; com apenas uma pergunta do tipo Sim ou Não a mensagem  de tal repertório restrito seria identificada. Em um repertório mais rico, composto por 4 mensagens igualmente prováveis, cada uma delas tem 2 bits de informação, o que significa que precisaríamos de duas perguntas do tipo Sim ou Não para identificar uma mensagem qualquer. Em um repertório com 8 mensagens equiprováveis, cada uma delas teria 3 bits de informação, e assim por diante. De modo geral, quanto mais rara é uma mensagem, mais bits ela contabiliza. Se um cachorro morde um professor, a quantidade de informação de tal mensagem é muito menor do que a de uma outra, que registra que um professor morde um cachorro…

Devlin critica esta contabilidade da quantidade de informação de uma mensagem que leva em consideração apenas a frequência de ocorrência das mensagens, sem referência ao conteúdo do que se afirma. Para corrigir tal deficiência da Teoria Clássica, ele introduz a ideia de infon. Um infon seria um bit enraizado em um contexto. A pergunta “Chove ou não chove?”, abstratamente considerada, teria como resposta uma mensagem de 1 bit. Mas concretamente considerada, ou seja, entranhada em um necessário contexto, a pergunta conduziria a outras: “Chove ou não chove onde? em que dia? em que horário?…”, e assim por diante. O que é chamado de contexto é um conjunto ordenado de elementos informacionais que dão significado à questão inicial; sem eles, uma resposta do tipo Sim ou Não parece desprovida de sentido.

No caso das Fake News, a estratégia recorrente dos que as exploram é apontar para o núcleo Sim ou Não, Verdadeiro ou Falso do que afirmam, tendo como base contextos parciais, às vezes quase verdadeiros, mas incluindo frações de sedutoras mentiras. Com a ajuda de opiniões preconceituais deliberadamente preconceituosas, o cenário torna-se propício para a transformação de milionésimas mentiras em putativas verdades.

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SEMENTES 132 # EÇA, MACHADO E O JORNAL: UM BEM OU UM MAL?

Poucos anos separam dois diagnósticos opostos sobre a função do jornal, da lavra de dois notáveis escritores. Em meados do século XIX, Machado de Assis publicou um artigo no jornal Correio Mercantil, intitulado O jornal e o livro, em que arrisca uma previsão sobre a inevitável derrota do livro, diante da agilidade da publicação dos jornais. Destaca a força do instrumento que considera adequado às demandas políticas da época e afirma, sem meias palavras, que o jornal é uma expressão, é um sintoma de democracia.

Poucos anos separam uma previsão não menos incisiva sobre o tema, da lavra de Eça de Queiroz. Numa das cartas publicadas no livro A correspondência de Fradique Mendes (“A Bento S.”), Eça exara uma opinião absolutamente distinta do otimismo machadiano. Em carta encaminhada a Bento S., Mendes, que era o pseudônimo utilizado por Eça em seus escritos poéticos, critica a intenção do amigo de criar um jornal, registrando as seguintes considerações:

“A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável… Tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juízos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerância. Juízos ligeiros, Vaidade e Intolerância – eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma sociedade!”

É praticamente impossível não reconhecer que Eça e Machado foram atropelados pelas tecnologias informáticas, que surgiriam mais de cem anos depois, e que assumiriam o protagonismo tanto na agilidade na circulação de informações, quanto na exacerbação das características negativas referidas, associadas ao funcionamento de instrumentos como a rede www, nas chamadas redes sociais. A transformação das funções exercidas pelos jornais, atualmente, é notável: buscamos suas páginas não mais para recolher as notícias fresquinhas, disponíveis continuamente na rede, mas cada vez mais para apreciar as análises de comentaristas confiáveis, nas diversas áreas cobertas pelos jornais.

Tinha razão Machado, em seu elogio à agilidade jornalística, que durou muito pouco, sendo atropelada por outros meios; e tinha razão Eça, ao temer, sobretudo, o aligeiramento dos juízos, resultantes de uma divulgação quase sempre acrítica, de temas originados precipuamente em mera vaidade, ou na suprema intolerância de se achar que cada pequena ocorrência no mundo privado de um pretendente a youtuber pode interessar ao espaço público de pseudo famosos de araque.

O fato é que Eça e Machado atiraram no jornal e acertaram nas redes sociais.

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SEMENTES 131 # CONSTELAÇÕES, FUSÃO DE HORIZONTES

Em sentido formal, as teorias são constituídas por conceitos, que operam como focos concentrados de luz, iluminando racionalmente as ações. A realidade, no entanto, não se deixa apreender facilmente, ou mesmo se representar apropriadamente por teorias formais. No exercício cotidiano da linguagem, na comunicação entre as pessoas, a maleabilidade das noções, a plasticidade dos esquemas preconceituais opera muito mais eficazmente do que o pretenso (e muitas vezes precoce) rigor conceitual, quase sempre manejado de modo ingênuo ou imprudente.

Ocorre, no entanto, que instrumentos preconceituais, como os esquemas, raramente são reconhecidos como instrumentos prestigiosos. O risco de desandarem em elementos anárquicos ou desestruturados, com a consequente perda de poder explicativo, encontra-se presente, ao lado do risco similar de serem vaidosamente extrapolados os limites de sua eficácia: assumindo-se como se fossem conceitos eles acabam, assim, por se converter em detestáveis preconceitos.

Uma contribuição efetiva à valorização das noções e dos esquemas decorre da ideia de “constelação”, da lavra de Adorno, em seu importante trabalho Dialética Negativa, obra de referência da chamada Escola de Frankfurth.  O modo de operar de uma constelação pode ser associado ao funcionamento da linguagem ordinária, que não define rigorosamente o que denomina, construindo, em vez disso, uma rede de relações entre o termo novo, cujo significado se constrói, e outros termos de significados já conhecidos. As palavras se esclarecem mutuamente, por meio de tais conexões mútuas. As noções ou os esquemas preconceituais articulam-se em diversos focos de luz, que se entrecruzam sem a eficácia da concentrada razão iluminista, mas que colaboram para revelar o que vai além do foco, os elementos coadjuvantes ou mesmo figurantes, que, de outro modo, seriam deixados à sombra. A própria ideia de verdade é mais facilmente construída por meio de uma constelação do que a partir em uma única concepção, no âmbito de determinada teoria. Assim, colaborativamente, operam as constelações.

Gadamer, outro  eminente frankfurthiano, em sintonia tácita com Adorno, produziu uma ideia especialmente fecunda no que se refere à construção do significado. Ela se compõe perfeitamente com a noção de constelação: trata-se da noção de “fusão de horizontes”. Como se sabe, as percepções pessoais dão sentido às palavras e às coisas, mas a construção do conhecimento pressupõe a possibilidade de partilha de tais sentidos, o que corresponde à construção do significado que se apreende. O significado constitui a parte partilhável dos sentidos. Apesar de idiossincráticos, é possível encontrar na multidão de sentidos elementos comuns, no mínimo como o são resquícios naturais da língua e da cultura. Sem tal possibilidade de partilha, a imensa diversidade dos sentidos tornaria a vida uma selva: cada sentido corresponde a um ponto de vista. A questão que naturalmente se coloca é: como vislumbrar tais elementos de partilha? Como explorar a riqueza da diversidade de pontos de vista sem a violência do confronto direto? Para Gadamer, não é o caso de se pretender reduzir a uma só visão o que originariamente são duas: é possível manter duas visões distintas, mas é imprescindível fundir os dois horizontes em um só. Não reduzimos dois pensamentos, duas visões, duas teorias a uma só perspectiva, mas o cenário que se descortina, o contexto em que tais visões se constituem deve passar a ser o mesmo. O instrumento fundamental para tal convergência é a razão comunicativa, Eis aí uma sublime noção de tolerância.

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SEMENTES 130 # CONCEITOS E ESQUEMAS

Uma das palavras cujo uso se aproxima de um abuso é “conceito”. Na linguagem corrente, frequentemente identifica-se com palavras como “ideia”, “noção”, “significado”. No discurso educacional, são fartos os registros da busca do ensino de conceitos para alunos da escola básica, ou mesmo para crianças. Na realidade, no entanto, vivemos na antessala dos conceitos. Ensinamos às crianças noções fundamentais de muitos temas importantes para a vida, sem a pretensão, no entanto, de uma apresentação conceitual em sentido filosófico. Podemos falar sobre a vida, o ser humano, a verdade, ou o tempo, mas não lidamos ordinariamente com o conceito de vida, o conceito de ser humano, o conceito de verdade, o conceito de tempo, e isto não nos faz falta. A ideia que temos de tais noções nos parece suficiente. Uma reflexão mais funda sobre tais conceitos parece ser da responsabilidade dos filósofos. Há até os que pretendem que a centralidade das atenções no ensino de conceitos seria o objeto específico da Filosofia. Os conteúdos que usualmente ensinamos, no âmbito das diversas disciplinas, seriam constituídos essencialmente de noções, de ideias, de significados. Imprescindível a todas as disciplinas seria o significado do que se ensina, mas nem sempre dizer “significado” quer dizer “conceito”.

Uma palavra que pode servir de ponte entre uma abordagem conceitual de um tema e outra, aparentemente anárquica, dos significados, é a ideia de esquema. Um esquema é uma unidade de ação ou representação, na construção dos significados. Piaget explorou de modo especialmente fecundo os esquemas das crianças, nas fases iniciais da aprendizagem. Partindo de esquemas simples, como os de preensão ou de sucção, avançou até os esquemas sensório-motores, como unidades de ação, avançando, a partir daí, numa sequência de estágios pré-operatórios e concretamente operatórios, até o período das operações formais, na antessala dos conceitos. Peirce explorou a noção de hábito, que apresenta uma conexão direta com a ideia de esquema, mas foi a dupla de pesquisadores Arbib e Hesse, em um livro fundamental intitulado The construction ou reality (1986) que produziu uma síntese exploratória brilhante da ideia de esquema, um material especialmente valioso na constituição da dignidade e da relevância que, a nosso ver, tal ideia merece ter.

Partindo das ideias de Piaget, os referidos pesquisadores deslocaram o foco das atenções para a aprendizagem da língua, passando suavemente dos esquemas sensório-motores à palavra como unidade de ação/significação, ou seja, como um esquema. A viagem prosseguiu, sempre de maneira gradual e compreensiva, passando-se da palavra às metáforas como germes de esquemas, daí às micro-narrativas, às narrativas, até a ideia da língua como um grande esquema simbólico. Um percurso paralelo especialmente importante ao longo do livro é o que explora as ideologias e as religiões como macro-esquemas como macro esquemas de ação.

Um fato notável a quem tem olhos para ver: o livro de Arbib e Hesse apresenta uma densidade filosófica indiscutível, sem recorrer, em qualquer momento, à palavra “conceito”.

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SEMENTES 129 # NÚMEROS REDONDOS NA MÍDIA, NO COMÉRCIO, NA POLÍTICA

Por razões de natureza política, não gosto de números redondos. Explicitarei minhas restrições ao final, mas um exercício inicial pode nos fazer entender as razões tanto de quem  aprecia tais números, como a mídia, quanto de quem quase sempre os evita, como o comércio.

Arredondar números parece fundamentalmente correto para os veículos de informação. Valores pretensamente precisos, expressos por números com muitos algarismos, comunicam muito menos do que resultados arredondados. Não vale a pena insistir no valor exato de dado orçamento: comunica mais dizer-se que ele é de “pouco menos de 3 bilhões de reais” do que precisar seu valor em  “2 927 435 178 reais”. Sobre o público presente em determinado evento, diz-se que ele foi de “mais de 50 mil pessoas”, em vez de se insistir em anunciá-lo como”50 127 participantes. Na estimativa da área do território brasileiro, um arredondamento parcial conduz a “8,5 milhões de quilômetros quadrados”, um número que tem uma potencialidade mnemônica muito maior do que o valor mais próximo da realidade representado por “8 514 876 de quilômetros quadrados”. A colaboração entre a língua materna e a matemática é muito eficiente para uma percepção/compreensão mais adequada da grandeza representada, o que frequentemente se dá por meio da combinação de algarismos e palavras, em conveniente arredondamento.

O comércio, no entanto, parece não concordar com tal argumento. O pressuposto básico da estratégia da fixação de preços é um insinuante “não arredondamento”: parece muito mais atraente anunciar que um produto custará “4,99 reais” do que fixar o preço redondo de  “5 reais”. Aparentemente, a expectativa de tais procedimentos é a da busca da cumplicidade do comprador, que, para justificar a decisão da compra, poderá dizer: “custa menos de 5 reais”. A fixação de preços parece confiar, então, tanto nos esquemas automáticos de leitura dos números, sempre da esquerda para a direita, quanto na força dos números redondos (5, no caso) como referência expressiva. O fato é que, em tal prática, o número quebrado é o valor explícito, é o preço efetivamente a ser pago, ainda que o número redondo exerça suas funções tacitamente.

De minha parte, como foi anunciado inicialmente, não gosto dos números redondos, mas minha posição decorre de outro tipo de argumento. Mesmo de maneira dissimulada, os números redondos apresentam uma interface muito importante, uma relação muito estreita com o mais redondo dos números, que é o zero. Minha dissonância com eles decorre inteiramente de tais afinidades eletivas. Como se sabe, acrescentar muitos zeros a determinada quantidade não altera seu valor. Também é fato que milhões de zeros reunidos, entregues à própria sorte, não passam disso, não conduzem, jamais, sequer a uma unidade. O grande problema a temer de um bando de zeros é que eles constituem um perigo imenso quando se alinham, de três em três, comportadamente, e uma unidade à esquerda se lhes justapõe…

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SEMENTES 128 # CONVERSAR E CONVENCER

Conversar é trocar ideias, é possibilitar a circulação de opiniões, sem o peso da intenção do convencimento. É como fazer um exercício mental juntamente com os outros, sem o envolvimento em uma disputa. Não existem vencedores ou vencidos em uma boa conversa.

Convencer, por outro lado, remete-nos imediatamente à argumentação, ao enfrentamento de um ponto de vista oposto. É como se fosse uma luta, mesmo virtual, como uma partida de xadrez. Ainda que não seja inevitável, podem ocorrer descuidos verbais que conduzam à desagradável sensação da bifurcação entre vencedores e vencidos.

O melhor antídoto para isso é uma pitada de etimologia: convencer é vencer junto com o outro, é chegar à compreensão do objeto da disputa em sintonia com o oponente. Um desvio fatal para uma boa conversa é justamente a mudança de perspectiva, fazendo-a adentrar o eixo orientado pela argumentação, e assumir as intenções de convencimento.

Uma boa conversa pode nos esclarecer sobre certos fatos, mas nunca é absolutamente constrangida pela necessidade da busca da verdade: a carência a ser preenchida é da sintonia de opiniões. Já a argumentação situa-se em um eixo em que a verdade e a mentira são fundamentais. Quem argumenta defende a verdade de uma proposição, que é sua conclusão, tendo por base a verdade das premissas alinhadas.

A corrupção de uma argumentação é uma trapaça, que mantém o compromisso com a verdade, ainda que de forma negativa. Já a corrupção de uma conversa não a transforma em uma mentira, uma vez que esta, como o eixo argumentativo, mantém um compromisso com a verdade, na verdade com a negação da verdade…

A corrupção de uma boa conversa a transforma em algo sem vida, sem coerência  interna, no terreno das ideias do enunciador, nem sintonia com as opiniões do parceiro. Se o oposto de uma boa argumentação é uma trapaça, o contrário de uma boa conversa é o que sugere o titulo de um pequeno livro do filósofo Harry Frankfurt. Em inglês, foi publicado como On Bullshit; em português, o título escolhido foi Sobre falar merda.

Uma parte não desprezível do que circula nas redes informáticas, particularmente as chamadas Fake news,  não constitui uma argumentação, não tem a arquitetura de uma trapaça, nem a de uma simples conversa: o rótulo frankfurtiano parece mais adequado a tal desvio.

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SEMENTES 127 # A Pós-Modernidade, as Fake News e o Cálculo Diferencial

Primeiro veio a Pós-Modernidade, que reduziu as certezas da razão iluminista a pó, e colocou sob suspeita toda tentativa de caracterização de uma verdade em sentido absoluto. Da relativa ingenuidade da busca de tal verdade, fomos conduzidos à verdade como coerência em sentido lógico, e daí a uma relativização de tal ideia, que passaria a ser, necessariamente, tributária de um contexto. A multiplicidade de contextos conduziu paulatinamente a uma aparente relativização da noção de verdade. Mas a imensa diversidade de contextos não significa um esvaziamento da verdade, que precisa permanecer no horizonte de toda argumentação bem intencionada. É certo que ser ou não ser verdade é uma questão complexa, e ganhou espaço certa flexibilização das fronteiras entre ser ou parecer. Mas não podemos nos contentar com a identificação da ideia de verdade com a de uma narrativa consistente. Seria como se, na reconstituição de um crime, conduzida pela polícia, a coerência da narrativa fosse suficiente para a garantia da culpabilidade do suspeito. Diante de tais dificuldades conceituais, um justo enfraquecimento da razão estritamente formal não pode conduzir a um terreno minado em que as opiniões passem a predominar sobre as demonstrações, e a distinção entre verdades e crenças não justificadas não se faça necessária.

Uma nova acrobacia, especialmente arriscada, é, agora, ensaiada.  Da relatividade absoluta, passa-se agora à proclamação  da inexistência da verdade. Extrapolando-se o ceticismo da pós-modernidade, pretende-se, agora, uma caracterização do que seria uma pós-verdade. Em tal cenário, a aparência substitui a essência, o parecer ocupa o lugar do ser, a coerência torna-se sinônimo de verdade. E os meios de comunicação, especialmente os eletrônicos, abrem espaços generosos para as chamadas fake news. A sintonia entre o divulgado e o que pensamos não pode dispensar o cuidado com a verificação das fontes. Um juiz de futebol não é desonesto apenas quando intencionalmente favorece nosso adversário, mas também quando nos favorece.

Reiteramos, no entanto, que a existência da verdade permanece no horizonte, tanto de uma  descomprometida conversa, que busca uma partilha ou troca de opiniões, quanto de uma argumentação sincera, bem intencionada, em que se pretende justificar proposições, fundamentar escolhas.

Para explicitar tal posição, consideremos a afirmação “Não existem retas no mundo”. Certamente, poder-se-ia discutir o que seria uma reta: o caminho mais curto entre dois pontos? a trajetória da luz no vácuo? uma geodésica? A dificuldade, no entanto, está em definir-se o que é uma reta, mas todos têm uma ideia do que seria a retidão. Mesmo sem definições precisas, somos capazes de distinguir retas de não retas, no dia a dia. E compreendemos que as curvas, das mais simples às mais complexas, podem ser aproximadas por retas de maneira sugestiva e proveitosa nas proximidades de um ponto.  As retas tangentes são especialmente interessantes na aproximação local de curvas por retas. Não existe uma reta única, absoluta, que aproxima satisfatoriamente dada curva, em toda sua extensão, mas, localmente, em cada contexto, existe uma reta que mais bem representa a curva referida.

Algo similar ocorre quando pensamos sobre a ideia de verdade. Mesmo sem definições precisas, distinguimos a retidão da verdade e a complexidade da não verdade, nos mais diversos contextos. Quando se pretende a inexistência de uma verdade absoluta, é como se se registrasse que não existe uma reta única que traduz a complexidade da curva/narrativa em toda sua extensão, mas, localmente, em cada ponto, em cada contexto, existe a possibilidade de retificação, de referência à verdadeira retidão.

Naturalmente, não se está insinuando, nem de longe, que tal aproximação local de uma curva genérica por uma reta seria imediata e trivial: é preciso estudo e dedicação para compreender isso. Uma aproximação dos elementos teóricos de tal estudo pode ser encontrada no Cálculo Diferencial…

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SEMENTES 126 # PRESENTE/PRESENTES

O passado inspira

Um futuro latente

Mas só vivemos

O presente

 

Sonhos e projetos

Tudo é semente

Mas só contamos

Com o presente

 

Encontrar espaço

É tarefa ingente

No tempo que temos

Que é o presente

 

A vida é uma troca

De equivalentes?

Nós resistimos

Com os presentes…

 

Os links são laços

Insuficientes

Não têm a força

De um presente

 

Sem régua ou compasso

Conscientemente

Queremos o outro

Em nós presente

 

Ser mais que perfeito

Não seduz a gente

Nem qualquer pretérito

Que viva o presente!

 

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